sábado, 4 de maio de 2013

Parnaíba no "Broadway"



Entre as senhoras que me estimam, e cujo nome eu trago permanentemente no espírito e no coração, há uma a quem consagro os meus pensamentos de cada dia, as minhas inquietações de cada hora. É o conhecimento mais antigo que eu tenho. Ela, entretanto, me conhece há mais tempo do que eu a ela. Quando fomos apresentados um ao outro, contava ela vinte e quatro anos, e eu, uns cinco minutos. A datar desse instante, ela não deixou mais de pronunciar o meu nome. Eu, porém, só vim a saber o seu uns dois anos depois. Chama-se Ana de Campos Veras, para os sobrescrito dos envelopes, e para os raros documentos oficiais que tem assinado. Os conhecidos tratam-na de Dona Anica. As moças do tempo em que eu era menino davam-lhe o tratamento de “tia Anica”. E as meninas deste em que estou velho, o de “vovó Anica”. E eu, ainda hoje, de cabelos brancos, o de “Mamãe”.
Vai para o ano de 1933, D. Anica de Campos Veras, que tem atualmente setenta e três anos, escreveu-me, com a sua letra segura e clara de filha de professor público, uma carta em que me mandava as suas saudades para lenitivo das minhas tristezas. No meio das recomendações e dos conselhos, vinha, então, uma queixa. “Tu não avalias, meu filho, -- dizia-me, -- como eu tenho sofrido ultimamente com uma contrariedade que vou te contar. Há duas semanas estiveram aqui em casa umas alunas do Ginásio, que vieram pedir-me para ir com elas e as crianças até o lugar em que se acha teu cajueiro, a fim de tirar um retrato. Pedi que me desculpassem, mas não ia, pois, não tendo tirado nunca o retrato quando moça, não queria fazer isso depois de velha. Insistiram, mas eu não fui. No dia seguinte, vieram os professores e professoras do Ginásio com o mesmo convite. E eu lhes havia dado a mesma resposta quando parou na porta o automóvel do prefeito, com o Dr. Édison cunha, o qual me fez o mesmo pedido. Supondo que se tratava de uma homenagem preparada para o dia dos teus anos, e mesmo para não abusar da gentileza deles, fui com os netos. Qual não foi, porém, meu filho, o meu espanto, quando, de volta, automóvel, me disseram que eu tinha posado para uma fita de cinema, para ser levada até aí no Rio de Janeiro!... Chegando em casa, chorei muito, de arrependimento e de mágoa pelo que haviam feito comigo. Eu, que não tinha nunca tirado retrato, e que pretendia morrer sem deixar de mim outra lembrança que não a que ficasse no coração de vocês, ir aparecer numa fita!... À noite, não dormi. E tenho passado todos esses dias abatidíssima, tomando calmantes, mas sem poder esquecer-me do que me fizeram. Por isso, espera, que, qualquer dia, verás a tua pobre mãe aparecer aí, num cinema do Rio, debaixo do teu cajueiro!...”
Vi, pela carta, que D. Ana de Campos Veras estava magoadíssima com as autoridades de Parnaíba. E corri em seu auxílio. “Fique tranqüila, mamãe, --- mandei dizer-lhe. --- Tudo há de correr bem. E estou certo de que será completo, no filme, o sucesso da “estrela” parnaibana. Bravos, mamãe!” E lá se foi a carta, risonha e feliz, sob as asas se um avião.
O filme feito em Parnaíba custou, porém a chegar no Rio. Esteve, primeiro, durante semanas, em exibição na cidade em que foi tirado. Foi , em seguida, para Teresina. E tantas voltas deu, que, em maio, quando foi exibido no “Broadway” eu me encontrava operado, imóvel, em uma Casa de Saúde. Pessoas que foram assistir à sua passagem em uma sessão especial, levaram ao meu leito a notícia do acontecimento.
--- Foi pena, --- contavam, --- que você não estivesse presente! Que cidade bonita é a Parnaíba, que você tanto fala em suas memórias... Aparece o estabelecimento em que você foi caixeiro aos doze anos... E aparecem, também, o seu cajueiro, que você plantou, e, debaixo dele, sua mãe, com os netos, seus sobrinhos...
--- Minha mãe, saiu bem? --- indagava. E todos:
--- Muito bem. Velhinha, mas ainda bem forte...
Eu enxugava os olhos no lençol, agradecido. Seria possível que, mesmo vindo ao Rio num filme, eu não revisse minha mãe? Um mês depois, outra exibição, a pedido dos piauienses. Cinema cheio, de novo, segundo me disseram. E eu ainda na Casa de Saúde, sem poder ir ver, embora em imagem, a minha maior amiga, D. Ana de Campos Veras!... E uma terceira exibição, domingo último. E eu, ainda uma vez, retido em casa, sem poder contemplar minha pobre mãe, cujo consolo, quando lhe disseram que havia posado para um filme, consistiu, com certeza, na convicção de que seria, quiçá pela última vez, olhada carinhosamente pelo seu filho!...
Não vale, todavia, a pena do esforço, lutar alguém contra o Destino, afrontar a fatalidade. Quando os céus não querem, debalde se debatem os homens. Erre Édipo, o coração alarmado de suspeita, por toda a Grécia, e irá ter, um dia, à casa de seu pai. E é capitulando diante desse édito misterioso, dessa determinação do filho do Caos e da Noite, que eu venho agradecer, aqui, de público, a homenagem que me quiseram prestar, nesse filme que eu não vi, nesse filme que eu não verei nunca e que esteve tão perto de mim. As autoridades parnaibanas imaginaram, possivelmente, quanto eu me sentiria feliz contemplando, através do pranto que me viria aos olhos enfermos, a minha velhinha, um dos grandes pedaços do meu coração. Imaginaram elas a minha emoção, revendo a casa em brinquei menino, estendendo no alpendre largo os meus tristes brinquedos de pobre. E ao ver o estabelecimento em que aprendi a trabalhar. E o quintal, em que, as costas nuas ao sol ardente, capinava o solo amigo, para plantação das primeiras sementes do inverno. E eu nada vi! E eu nada pude ver!...
De qualquer modo, amigos, muito obrigado. Que a vossa terra continue a prosperar, sob o vosso cuidado vigilante. Que as administrações continuem, nos milagres da honestidade, a transformar em serviços úteis, e em conforto moderno, os tributos do povo. Que Parnaíba tenha seu porto, sonho da sua história. Que a estrada de ferro continue avançando os seus dois tentáculos de aço pelo sertão, para trazer-lhe as riquezas, que nele dormem. Que a instrução se desenvolva, e que seja fecundo o trabalho. E que Deus, premiando a gente boa, faça descer sobre a terra a bênção fresca das chuvas, multiplicando com ela o santo esforço dos homens!
E a senhora, minha grande e velha amiga, D. Ana de Campos Veras, perdoe este ingrato, que não teve saúde para ir ao cinema, a fim de lhe mandar um beijo nas pontas dos dedos trêmulos. A bondade das mães é, porém, tão grande, que, estou certo, quando a sua figura surgiu, doce e humilde, na tela do “Broadway”, os seus olhos de sombra percorreram, ansiosos, a platéia, traduzindo, na eloqüência do seu silêncio, a pergunta inquieta do seu coração:
--- Onde está meu filho?
Esta belíssima crônica foi escrita em 1933 por Humberto de Campos, oportunidade em que o escritor demonstrou o grande amor e veneração por sua mãe, e, o respeito por Parnaíba! Nada mais oportuno do que publicá-la nas proximidades do dia consagrado às mães, também, numa tentativa do resgate da obra esquecida do grande escritor.
Por Mário Pires Santana

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