domingo, 19 de fevereiro de 2017

Oh! Luar tão cândido

Por *Alberto Villas/Crônica
Não é de hoje essa minha paixão pela lua.
A Apollo 15 na Lua, em 1971/Nasa AFP
Já fui perdidamente apaixonado pela Lua. Isso faz muito tempo, quando eu era ainda criança e havia aquela expectativa se o homem conseguiria – ou não – um dia, colocar os pés lá. 
Era um tempo em que o meu pai dançava com a minha mãe no Cassino da Pampulha ao som de Ontem ao Luar, de Catulo da Paixão Cearense, uma das canções mais lindas sobre a Lua. 
Pergunta ao luar travesso e tão taful
De noite a chorar na onda toda azul
Pergunta ao luar do mar a canção
Qual o mistério que há na dor de uma paixão
O meu pai também era apaixonado por ela e, nos dias de Lua cheia, reunia os filhos no alpendre pra vê-la brilhante e formosa flutuando no espaço sideral. Com os dedos, ele ia traçando o perfil de Jorge, do dragão, da espada, das labaredas. E a gente acreditava porque a gente via nitidamente São Jorge lá.
Quando veio a adolescência, as espinhas e os pelos, nós participávamos de campeonato de twist no bairro, ao som de Cely Campelo. 
Tomo um banho de lua, fico branca como a neve
Se o luar é meu amigo, censurar ninguém se atreve
É tão bom sonhar contigo, oh! Luar tão cândido...
A gente foi crescendo e quando o Carnaval chegou, entre confetes e serpentinas, nos esbaldávamos no salão da Sociedade Mineira de Engenheiros cantando a marchinha que virou hit naquele ano. 
Olhando a lua através de uma luneta
Eu vi Jorginho passeando de lambreta
Fazendo curvas na contramão
E na garupa quem ia era o dragão
Num outro carnaval, que não foi igual aquele que passou, a Lua voltou para as paradas de sucesso, na voz de Ângela Maria. 
Lua, oh lua
Querem te passar pra trás
Lua, oh lua
Querem te roubar a paz
Lua que no céu flutua
Lua que nos dá luar
Lua, oh lua
Não deixa ninguém te pisar
Mas um dia o homem chegou lá. Vimos emocionados pela televisão, em imagens em preto e branco, Neil Armstrong e Edwin Aldrin dando aqueles saltos desajeitados em seu solo. Lembro-me bem que estávamos na casa do meu avô e ele chorou. Mas não acreditou no que estava vendo.
No dia seguinte, o meu pai correu na banca e comprou a edição histórica da revista Manchete, que veio com um pôster gigante com o mapa da lua, já loteada, um verdadeiro espetáculo!
Na semana seguinte, ele chegou em casa com a edição sonora da Fatos e Fotos, que trouxe um disquinho, um compacto simples, com a voz de Armstrong: “That's one small step for a man, one giant leap for mankind”.
Foi nos anos 70, muito longe daqui, naquele inverno rigoroso, que ouvi pela primeira vez Caetano cantando a Lua. 
Lua, lua, lua, lua
Por um momento meu canto contigo compactua
E mesmo o vento canta-se
Compacto no tempo
Estanca
Branca, branca, branca, branca
A minha, nossa voz atua sendo silêncio
Meu canto não tem nada a ver com a lua
Aí chegaram os anos 80 e o poeta Gilberto Gil chegou, assim de repente, com a última palavra sobre a Lua. 
O luar
Do luar não há mais nada a dizer
A não ser
Que a gente precisa ver o luar
Que a gente precisa ver para crer
Diz o dito popular
Uma vez que é feito só para ser visto
Se a gente não vê, não há
Se a noite inventa a escuridão
A luz inventa o luar
O olho da vida inventa a visão
Doce clarão sobre o mar
Hoje, uma noite quente de verão paulistano, passei pela Rua Alfonso Bovero e, da janela do ônibus, vi um cachorro vagabundo e sedento, lambendo uma poça formada pela água que escorria de uma lanchonete. Foi aí que me lembrei da minha paixão pela Lua e pelo Millôr, que um dia escreveu um seus hai-kais mais inspirados. 
Na poça da rua
o vira-lata
lambe a lua
*Jornalista e escritor, acaba de lançar o e-book "Mil Tons, o meu Millôr", pela editora e-galaxia.
fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana