sexta-feira, 3 de março de 2017

O Yin e o Yang

Por *Alberto Villas/Crônica 
Quem não se lembra da onda macrobiótica?
Frutas, legumes, cereais, tudo bem. Mas, em cima daquele mesão forrado de chita, tinha umas tigelas com umas comidas feias pra chuchu/PixaBay/+fotos
Vivíamos uma ditadura ferrenha naquele mil novecentos e setenta e um. Censura, repressão, buscas e apreensões, hipócritas disfarçados rondando ao redor, amigos presos, amigos sumindo pra nunca mais. Bangladesh tornava-se independente, dois astronautas americanos – David Scott e James Irwin – curtiam a superfície da Lua numa boa, enquanto o nosso mundo perdia Louis Armstrong e Igor Stravinsky. 
O Departamento de Censura e Diversões Públicas vetava o filme Como era gostoso o meu francês, enquanto Carlos Lamarca caía morto no sertão da Bahia, de susto, de bala ou vício. Era um tempo em que, em Belo Horizonte, comíamos o cachorrão do Teds, deliciávamos com o milk-shake de morango do Xodó e tomávamos um Steinhäger no Bar Grapette, no bairro dos Funcionários, que depois virou Savassi.
Foi nesse clima que, de repente, uma onda vinda de São Paulo chegou a Minas Gerais: A macrobiótica. Gilberto Gil era o porta-voz desse novo modo de viver surgido lá no Japão, segundo as primeiras informações. A onda foi crescendo e tomou conta de Belo Horizonte. Restaurantes começaram a pipocar por todos os cantos da cidade e, sem mais nem menos, o cachorrão do Teds, o milk-shake do Xodó e o Steinhäger do Bar Grapette, viraram coisas do passado. 
Corri na banca mais próxima pra comprar o primeiro número do jornal Yin-Yang, a bíblia do movimento. Lá estava Gilberto Gil na capa com todos os seus ensinamentos, meditando, morando na filosofia. Foi lendo o Yin-Yang que fiquei sabendo que a macrobiótica não era apenas um regime alimentar mas, sim, uma filosofia de vida, a arte da longevidade e do rejuvenescimento. Chegava implementando o velho aforismo mens sana in corpore sano. Nas páginas do Yin-Yang, soube que Yin é o doce, o frio, o passivo e o Yang, o salgado, o quente, o agressivo. Lá, explicava até de onde veio o nome Macrobiótica: Makros, maior, e bios, vida. Coisa de grego.
Foi lendo o Yin-Yang que fiquei sabendo que a macrobiótica não era apenas um regime alimentar mas, sim, uma filosofia de vida (Reprodução).
Aprendi que foi o japonês George Ohsawa o principal responsável pela divulgação dessa cultura no ocidente. Sábio, ele revelou que o alimento principal para os seres humanos são os cereais integrais, comidos cozidos, assados, tostados e germinados. E lá fomos experimentar. Frutas, legumes, cereais, tudo bem. Mas, em cima daquele mesão forrado de chita, tinha umas tigelas com umas comidas feias pra chuchu. A gente não sabia bem o que era aquilo mas queria degustar. Ficávamos ali horas naquele restaurante no centro da cidade, mastigando cinquenta vezes cada colher de arroz integral, aquele feijão azuki. Gostávamos do clima riponga do restaurante, a fumaça do incenso subindo, uma pequena estátua do Buda iluminado no altar improvisado e a trilha de Ravi Shankar se espalhando pelo ar. A cada refeição, sentíamos mais e mais purificados por dentro, abençoados por George Ohsawa.
Gilberto Gil, um dia, apareceu nas páginas da revista Manchete falando da macrobiótica. Ele reapareceu com uma cara de menino de vinte e poucos anos e isso nos animou. Magrinho, elegante, cabelo curtinho, Gil era outro depois de alguns meses de macrobiótica. Gal Costa, também adepta, toda vez que ia a Brasília, não perdia o rango de Dona Olinda Portilho, a única mulher que fazia comida macrobiótica no planalto central do País. 
O povo se juntava na calçada da sua casa na Avenida W-3 só pra ver Gal, ex-fatal, agora macrobiótica, também magrinha e elegante, num tempo em que cantava eu sou uma fruta gogóia/eu sou uma moça/eu sou calunga de louça/eu sou uma joia. Tom Zé também mergulhou de cabeça na onda. Sentido-se rejeitado pelo público, percebeu que nada no seu corpo funcionava mais. Estômago, intestino e sentia a pele descascando. Passou dez dias comendo arroz que, segundo ele, foi a salvação. Foi nessa época que o compositor de Irará deu o grito de alerta: “Se persistirem os médicos, consulte os sintomas”!
Mas, de repente, a onda, como veio, foi passando. Um dia, o Erasmo, que trabalhava na BMG Processamento de Dados, um cara saradão, um metro e oitenta e cinco de altura, amigo do meu irmão, que tornou-se fiel seguidor dos ensinamentos do japonês Ohsawa, sentindo as pernas bambas, despencou escada abaixo no prédio da BMG. Ele quase morreu e todos os amigos e parentes colocaram a culpa na macrobiótica. 
O Erasmo, meio esverdeado, foi parar no pronto-socorro mas sobreviveu. Já a tal da macrobiótica, foi encaminhada diretamente para a UTI, respirando, coitada, com a ajuda de aparelhos.
*Jornalistas e escritor, acaba de lançar o e-book "Mil Tons, o meu Millôr", pela editora e-galaxia.
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana