domingo, 23 de julho de 2017

Banco sem banco

Por Laicrogos Negromonte

Caminho de esperança. Esperança apesar de tanto esperar. Mas valeu a pena?... A D20 velha, caindo aos pedaços, segue seu percurso diário. Sai às quatro, chega às seis. Após duas horas sentada sobre a estreita tábua de madeira, Dona Maria desceu da caçamba exausta junto com a neta de treze anos. Procurou um banco no banco, nem mesmo um tamborete encontrou. “Mas será possível uma sem-vergonhice dessa? Judiação! Banco todo de vidro, banco rico, não tem nenhum banquinho pra sentar?” Rodopiou por ali igual a galinha quando quer por ovos. Lembrou-se das quatro, bem gordas, vendidas para pagar as passagens e os lanches. A fila na calçada se estendia pelo lado de fora alcançando o outro quarteirão. 
Seu filho trabalha em São Paulo na construção civil. Nunca esqueceu a mãe. Vez por outra manda uns trocados pra ela. Não tem outra maneira de retirar o dinheiro a não ser pelo banco. O dito banco sem banco. 
Às oito horas as portas foram abertas. Alvoroço. Tanta gente! Cadê o banco? Não tem banco. Os mais espertos ocuparam todas as cadeiras. Que diferença! Na capital é banco por todos os lados. Lá tem banco! O rico não fica em pé nem que o diabo toque rabeca. “Será que o dinheiro de lá é diferente do dinheiro de cái?” 
“Somente quatro caixas eletrônicos para atender toda essa multidão”! Dona Maria reclamava com razão. Ela sentia na pele o infortúnio dos outros. Muita gente do interior. Crianças a chorar, idosos sentados no chão, grávidas pálidas, jovens inquietos. Alguns conformados, outros, como dona Maria, não. 
Ao meio dia, finalmente ela chegou à boca do caixa. O guarda, na ocasião, fez um sinal negativo com o polegar para baixo. 
- A senhora vai ter que esperar, o dinheiro acabou. 
- Esperar? Estou cansada de esperar... 
Dona Maria esperou a vida inteira. Esperou o marido se consertar, morreu de tanto beber. Esperou melhorar de vida, as secas não deixaram. Esperou ter uma propriedade, vive em casa alugada Esperou pelos cinco filhos, foram todos embora. Agora tá esperando o dinheiro, dinheiro não tem. 
Mandou a neta comprar café e pão, já não se aguentava com uma fome danada. Desfalecida, ficou ali esperando por longas horas. 
- E aí seu guarda, o senhor tem alguma notícia? 
- Acabei de saber pelo celular: o carro-forte deu o prego na estrada, dinheiro só amanhã. 
Deu vontade de gritar, deu vontade de chorar, deu vontade de dizer que tais coisas só acontecem com os clientes pobres do banco, com os clientes ricos na cidade rica, não falta dinheiro, não falta banco pra sentar. Mas o guarda não tinha nada a ver com o pato, por isso se conteve, saiu com a neta, pegou a última condução, voltou pra casa de mãos vazias. 
Na cozinha, com a ajuda de sua única companheira querida, - “bichinha não reclama de nada” – fez um arrozinho ligeiro, estrelou ovos, comeram em silêncio sepulcral. Ouvia-se apenas o barulho das colheres nos pratos de ágata. Pela janela, dona Maria contemplou o sol se escondendo por detrás da serra. Sentia dores nas costas, mas mesmo assim não deixou de admirar a beleza mágica do Criador. O dia não foi bom pra ela, não teve sorte, sofreu humilhação, mas vale sempre a pena esperar, esperar, mesmo que a vida seja um eterno penar.
Edição: Mário Pires Santana