segunda-feira, 17 de julho de 2017

Cães Vira-Latas

Por Laicrogos Negromonte 

Lá vem um bando deles correndo e latindo. Ninguém sabe o porquê. Param de repente. Ninguém sabe pra que. Sobem na calçada fria ou se acomodam nas areias úmidas com o intuito de descansar e dormir. Uns, papos pra cima, pernas encolhidas, olhos semiabertos, orelhas murchas, mas atentas a qualquer barulho. Outros, enrolados que nem embuás, os mais preguiçosos simplesmente estatelados no chão. Passam horas até o sol descobri-los ou alguém os enxotar com palmas, pedradas, pontapés. São medrosos, correm com o rabo entre as pernas. 
O Pretinho, com focinho quase esbranquiçado pelo tempo (deve ter uns oito anos de idade) é o típico vira-lata. Esperto, conhece o lixo dos ricos. Fica esperando a empregada colocar os sacos de plástico na lixeira, rápido, dá um salto, escala o cesto de ferro e, confortavelmente, escolhe os seus pratos prediletos: casca de queijo, ossos de galinha e restos de carne. Considera-se o chefe em razão da sua excepcional capacidade de pular tão alto. 
O Galã, um mestiço de cocker spaniel e vira-lata, parece um cão de circo pulando com os dois pés, as unhas e os dentes a furar os sacos, arrastando qualquer coisa de cheiro apetitoso. Rosna o tempo todo para impedir a aproximação dos companheiros. Seu pelo falho em razão das sarnas, lembra um
pouco as cabeleiras de homens vaidosos com implantes mal feitos. 
O Puro, um rottweiler abandonado se acha o tal. Escolheu algumas mansões para ficar feito mendigo no portão social. Tem uma freguesia cativa. Troca seu olhar de pidão por resto de comida. Não escolhe não. Come qualquer coisa inclusive pão. É gordo, anda se rebolando todo. 
Quando caiu a noite, logo se iniciou a reunião geral, um verdadeiro congresso de vira-latas. Em pauta dois assuntos empolgantes: o primeiro, a prisão do Malhado (o mais sagaz, o mais manhoso e o mais convincente de todos); o segundo, a decisão para enfrentar os vira-latas fiéis. Estes são pobres, mas dignos. Acompanham as empregadas domésticas, seguem as bicicletas dos vendedores de bolo e café, vêm nas carroças de reciclar lixo, mas, representam um perigo diante da pilhagem do lixo caseiro. 
O Malhado, no dia de São João roubou a costelinha de porco que estava pronta para ser assada nas brasas da fogueira. Surrupiou da bandeja como um gato angorá. O menino viu e correu atrás do ladrão. No pega-pega o cachorro mordeu sua mão. Foi um Deus nos acuda. Resultado, o Malhado foi preso e entregue no dia seguinte à carrocinha da prefeitura. 
Sem dúvida, a matilha precisa, urgentemente, tomar uma atitude. O Malhado foi quem descobriu várias gordas lixeiras, foi quem ensinou a roubar o lixo, foi quem identificou o dia e a hora que o caminhão do lixo passava, pois era preciso agir antes da coleta. Portanto, muitos favores devidos. Então, o que fazer? Talvez uma mordida na perna do guarda. Quem sabe, à noite, se espremendo pela brecha da porta, subir na mesa do diretor e dar uma farta cagada. O diretor é como o juiz, tem o poder de soltar os perros. Mais ideias bizarras surgiram com a participação hegemônica do baixo clero. 
Diante da algazarra generalizada, o Pretinho pôs ordem na casa. Iniciou-se a votação. De repente, uma bombinha traque estalou no meio da galera. Gritos de homens foram ouvidos o que provocou uma debandada geral. Os cachorros fugiram, correram feitos loucos com seus rabinhos entre as pernas, gemeram expressando pavor. 
Cães sem dono, sem dignidade. Pobres vira-latas!
Edição: Mário Pires Santana