segunda-feira, 10 de julho de 2017

João vai pra ilha

Por Laicrogos Negromonte

Há nove anos Sandra sonha com o seu casamento. Na praia, ao entardecer, seria tão romântico! Lindo, lindo demais! Na realidade, o tempo tá passando, tá passando e nada. Por isso anda preocupada, nervosa, quase perdendo a esperança. Daqui a pouco, já madura, não vai poder ter filhos. Nem pensar! Com grande sacrifício João concluiu o curso superior de Letras. De todos os familiares, ele é o primeiro a alçar essa invejável posição. Eufóricos, parentes e amigos participaram da festa de colação de grau. Sandra estava entusiasmadíssima. Agarrou o noivo, deu-lhe um beijo, sussurrou palavras de amor e perguntou: - Será que podemos marcar a data do nosso casamento? 
João ficou em silêncio, fez de conta que não ouviu bem. Além do mais, o som estridente da banda dificultava a compreensão. 
Prestou vários concursos públicos. Quando uma prefeitura municipal anunciava vagas para professor, ele era um dos primeiros a se inscrever. Não logrou aprovação, nem mesmo ficou entre os classificados. Aquilo o cansou em demasia e o frustrou profundamente. Certo dia caiu na realidade: pegou sua Honda velha, foi trabalhar de motoboy. 
O rio caudaloso que abraça as ilhas e deságua no oceano, margeia a avenida bem arborizada. Lugar acolhedor. João depois da última entrega de pizza estacionou sua moto maltratada. Deitou-se sobre o banco de cimento, sentiu o
cheiro suave das flores de aguapés. Seu espirito ficou absorto diante daquele ambiente natural, meio mágico. Era um fim de tarde onde o sol dourado, agonizante, desafiava a beleza das nuvens plúmbicas. Desiludido da vida, falou sozinho: - Não quero mais viver assim oprimido, vou embora pra ilha. Lá serei amigo da comunidade, vou poder ensinar o meu português, o português que eu sei com todas as minhas limitações. Vou escolher uma ilha pequena sem importância. Só desejo ser feliz. 
Cochilou um pouquinho, em seguida pegou a moto, foi pra casa. João encontrou os pais com o netinho de cinco anos, na maior tranquilidade. Ainda sentados à mesa, eles acabavam de jantar o tradicional cuscuz com leite. 
- Tudo bem meu filho? 
- Tudo mais ou menos pai. Tomei uma decisão: vou embora pra ilha. 
- Que é isso meu filho? Você endoidou? Que história é essa? Ilha, ilha? Que ilha? 
João não soube explicar para qual das ilhas do Delta do Parnaíba ele queria ir. O mundo desabou. Sua mãe começou a chorar, o pai estremeceu. 
Cedinho, ao sair de casa com a mochila nas costas, entregou à mãe um bilhete para noiva. Beijou os pais. Foi embora. Vendeu a moto na feira de troca-troca. Embarcou numa voadeira, sumiu. 
De ilha em ilha, João conheceu muitos lugares paradisíacos com fauna e flora estonteantes, além de lindas praias, dunas, lagos, principalmente pessoas simples e alegres, cheias de vida. Passou mais de oito meses procurando o seu paraíso. Ensinou português e até ganhou um dinheirinho, mas não se fixou em lugar nenhum. Certo dia foi pescar com o jangadeiro mais experiente da ilha, seu Pedro Piaba. Lá pelas tantas o velho homem do mar perguntou: 
- Professor João, o senhor ainda não encontrou a ilha pra morar, não é mesmo? 
- Verdade seu Pedro, ainda não. 
- Desculpe o atrevimento, professor, mas será que essa ilha não está dentro do senhor?
Edição: Mário Pires Santana