quinta-feira, 20 de julho de 2017

Opinião: A situação da Embrapa é muito pior que o imaginado

Entrave para a Embrapa e outros órgãos de pesquisa estatais é o fraco poder de divulgação frente à massificação e o lobby das multinacionais.
Por *Rui Daher
Grandes inovações tecnológicas, aproveitadas na iniciativa privada, começam em ações públicas/Foto/Gustavo Porpino/Embrapa
A coluna anterior tratou de duas joias da coroa: o etanol como fonte renovável de energia e a Embrapa, centro de excelência capaz de aumentar a competitividade internacional da produção agropecuária brasileira.
E as tecnologias desenvolvidas na Embrapa podem ser apropriadas pela agricultura familiar para a inclusão social e o barateamento da alimentação do mercado interno e, ainda, agregar valor à produção de bens primários agrícolas. Querem mais? Viram, no entanto, que hoje em dia não é bem assim. Já foi e, felizmente, ainda guardamos uma herança positiva do que foi criado em 1973. A surpresa. Pensava estarmos mal. Errei. A situação quanto à Embrapa é muito pior. Atestam isso as várias mensagens que recebi de pesquisadores, coordenadores e funcionários da bijuteria, antes joia valiosa. Todos me permitiram citar causos e fontes. Não o farei. Ficarei apenas nos causos. Não quero prejudicar ninguém e não confio em governo usurpador.
Entrave para a Embrapa e outros órgãos de pesquisas estatais é o fraco poder de divulgação frente à massificação e lobby das marcas multinacionais. Vai piorar. Uso trecho do que recebi: “A comunicação da Embrapa está para sofrer
um duro golpe, a extinção da carreira de jornalista do quadro da empresa. É intenção do presidente terceirizar jornalistas e manter os demais profissionais de comunicação como relações públicas”.
Sempre desconfiei de a Embrapa ser lucrativa, já que nunca deixou de reclamar “falta de recursos”. Por outro lado, seu quadro de profissionais tem alta qualificação, mestres e doutores, muitos efetivados no exterior e, se mal remunerados, seriam facilmente absorvidos pela iniciativa privada.
Mais um depoimento: “Nos 20 anos de Balanço Social (BS) não houve um único ano em que a Embrapa tenha dado lucro econômico, (...) dá lucro social. As tecnologias que desenvolvemos e transferimos para a sociedade geram benefícios econômicos, sociais e ambientais que medimos e divulgamos em detalhe no Balanço Social (...) muito maior que o relatado (...)um estoque muito maior de tecnologias, produtos e serviços ao agronegócio nacional mas, considerando apenas essa amostra de tecnologias presente no BS, equivale a mais de onze vezes a nossa receita líquida anual”.
Imaginem o valor presente de uma empresa assim se privatizada, o que não deixa de martelar cabeças neoliberais. 
Segundo o leitor, para viabilizar a Embrapa, sob todos os aspectos, ela precisaria ser transformada em uma Autarquia Federal em Regime Especial, o que é proposto pelo SINPAF, a Seção Sindical Embrapa Sede. Apoia o modelo o ex-ministro da Agricultura, Alysson Paolinelli, talvez, até hoje, o único a merecer esse cargo. Opinião dele: “[A Embrapa] precisa, atualmente, de mais autonomia financeira, técnica e administrativa”.
Pois é. Enquanto os governos esquecem que não são Estado, mas dele se apoderam para apequená-lo, como se mínimo ou máximo o fizesse efetivo, pesquisador da Embrapa Clima Temperado, Pelotas (RS), me informa sobre o trabalho da Unidade, no momento:
“Cadeia de grãos: arroz irrigado, milho e soja para terras baixas, feijão, milho varietal. Frutas: pêssego, amora-preta, morango, mirtilo, oliveiras. Hortaliças: batata, batata-doce, cebola, bancos de germoplasma de cucurbitáceas, pimentas. Cadeia do leite (...) Temas transversais: agroecologia, agroenergia, agrobiodiversidade. Assuntos focados em segurança alimentar e diversificação na agricultura familiar”.
Isso e mais é realizado em várias unidades da empresa estatal no País, o que me traz a já tantas vezes citada aqui professora Mariana Mazzucato, da Universidade de Sussex, Reino Unido, quando diz que as grandes inovações tecnológicas, aproveitadas na iniciativa privada, começaram em ações públicas do Estado.
Fica a pergunta: a quem cederão estes 45 anos de empreendedorismo do Estado brasileiro?
Nota: e a terceira joia prometida? O BNDES. Na próxima, se eu não mudar de ideia.
*Rui Daher é colunista de CartaCapital. Criador e consultor da Biocampo Desenvolvimento Agrícola. ruidaher@yahoo.com.br
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana