quinta-feira, 6 de julho de 2017

República aos frangalhos

Por Deusval Lacerda de Moraes

República quer dizer a forma de governo na qual o chefe de Estado é eleito pelo povo ou seus representantes. E tem como sinônimo a administração do bem público ou dos interesses públicos, em que os detentores do poder exercem-no ainda em caráter transitório e com responsabilidade.
A República do Brasil vive, agora, situação completamente diferente do apregoado acima. Primeiro, o chefe de Estado foi imposto pelo golpe parlamentar-constitucional-judicial. Depois, já com quase um ano do golpe consumado, 31 de agosto de 2016, a administração do bem público só tem servido aos interesses da casta responsável pela sua deflagração.
Convém salientar que o núcleo articulador do golpe no Congresso Nacional, em grande parte, ou está preso ou em via de ir para a prisão. Só dos assessores diretos do presidente ilegítimo Michel Temer, no Palácio do Planalto, já foram afastados, José Yunes, Sandro Mabel, Tadeu Filipelli e Rodrigo Rocha Loures.
Estão presos também os ex-ministros Henrique Alves e Geddel Vieira Lima. Já está algum tempo preso, o ex-presidente da Câmara e pai do impeachment, Eduardo Cunha. E estão se sustentando na filigrana do foro privilegiado os ministros Eliseu Padilha e Moreira Franco. Mas a sobrevivência vegetativa está se tramando no baixo clero (deputados federais sem peso político e que estão sempre solícitos para socorrer o governo em qualquer dificuldade) para barrar na Câmara a denúncia de corrupção passiva promovida pela Procuradoria Geral da República (PGR) contra o próprio Temer visando à cassação da ocupação presidencial.
A acusação só segue para análise do Supremo Tribunal Federal (STF) se a Câmara autorizar por dois terços dos votos da Casa. Terrível incômodo tem obrigado Temer a reunir-se com parlamentares, inclusive com Paulo Maluf (condenado na Justiça) e Lúcio Vieira Lima, irmão do preso Geddel.
Para esclarecer, a cúpula do governo na Câmara é formada pelos ilustres desconhecidos: Baleia Rossi, líder do PMDB na Câmara; Lelo Coimbra, líder da maioria na Câmara; Aguinaldo Ribeiro, líder do governo na Câmara; e André Moura, líder do governo no Congresso.
É importante destacar que a Câmara é presidida por Rodrigo Maia e o Senado Federal, por Eunício Oliveira, ambos acusados de corrupção. O presidente anterior do Senado, Renan Calheiros, idem. E o líder do governo no Senado, Romero Jucá, também é acusado de malfeitos. Entre outros congressistas acusados de desonra pública.
Um dos principais artífices do golpe, Aécio Neves, afastado do Senado por corrupção, voltou a mandato por meio do STF. O STF sacramentou o golpe com decisões atestando a sua legalidade e, recentemente, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), através do voto de minerva do seu presidente, Gilmar Mendes, garantiu Temer na presidência da República num processo eivado de irregularidades.
No turbilhão de horrores, os ex-presidentes José Sarney e Collor de Mello são também acusados de amealhar recursos públicos. E o senador Edson Lobão, acusado de receber propina da Transpetro, ironicamente, foi elevado pelo golpe a presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado.
Como se pode deslindar, não há como se acreditar num governo com repudiável comissão de frente. E é verdade que somente uma República avariada pode ocorrer nefasto estado de coisas. Por fim, a direita inconsequente insiste em desmoralizar a Nação, por se empenhar visceralmente em manter o status quo sem o menor sentimento de nacionalidade, espírito público e defesa dos valores da Pátria.
Fonte: Portal AZ
Edição: Mário Pires Santana