domingo, 9 de julho de 2017

Um filé chamado Oswaldo Aranha

Gaúcho getulista emerge do esquecimento em fotobiografia.
Por Pedro Alexandre Sanches 
Em 1954, Aranha se despede de Getúlio "pateticamente", nos dizeres da imprensa anti-getulista
Em décadas recentes, o gaúcho Oswaldo Aranha (1894-1960) foi menos lembrado como homem público do que como nome de receita de filé mignon. Em São Paulo, terra natal paterna, nem sequer costuma ser evocado, graças às feridas jamais cicatrizadas de ter combatido (e vencido) pelo lado gaúcho a Revolução de 1930, como braço direito e esquerdo do conterrâneo Getúlio Vargas.
Assinado pelo editor Pedro Corrêa do Lago, neto do político e diplomata nascido em Alegrete, o livro de luxo Oswaldo Aranha – Uma fotobiografia (Capivara, 412 págs., 70 reais) revolve passado e presente numa montanha de contradições. Determinados a comemorar para sempre a derrotada Revolução Constitucionalista de 1932, paulistas e outros anti-getulistas tiveram de apagar dos registros não apenas a memória de Getúlio como também a de Oswaldo, filho enjeitado numa guerra fratricida entre facções da elite.
Deixaram de lado um sujeito que, nomeado embaixador em Washington e ministro das Relações Exteriores do Estado Novo, conduziu Getúlio ao alinhamento com os Estados Unidos e fez Walt Disney criar um papagaio (Zé Carioca) para compadre brasileiro de um pato (Donald) norte-americano, no
contexto da política dita de Boa Vizinhança. 
No entre-Getúlios, Oswaldo cumpriu papel decisivo na criação do Estado de Israel, enquanto presidente da Assembleia Extraordinária da ONU para a partilha da Palestina, em 1947. Ao suicídio de Vargas, em 1954, a fotobiografia retrata Aranha desesperado junto ao caixão, mas descrito como “patético” pela imprensa inimiga.
Por uma dessas peripécias da história, a edição de reabilitação do getulista leal dá-se pelas mãos constitucionalistas paulistas de Michel Temer. Fernando Henrique Cardoso, jamais um militante getulista, enumera loas a Oswaldo Aranha na contracapa do livro e em inúmeras de suas páginas. A esta altura, o moedor da história processou muito filé em carne de hambúrguer.
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana