sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Até as Forças Armadas estão anestesiadas?

POR *RIBAMAR FONSECA
Temer decidiu mesmo vender o Brasil sob os aplausos da mídia, o olhar indiferente do Supremo e a surpreendente apatia do povo. Afora manifestações indignadas isoladas, convenientemente ignoradas pela mídia, não se percebe nenhuma movimentação popular contra a venda da Eletrobrás, da Casa da Moeda, de reservas minerais da Amazônia, de ativos da Petrobrás, aeroportos, portos, entre outros. Sem o noticiário estimulante da chamada Grande Imprensa, que mexe com os brios e a nacionalidade dos leitores, e sem a voz de comando de movimentos mercenários como o MBL, que contra Dilma fazia as convocações pelas redes sociais e até ditava a roupa que as pessoas deviam vestir, a população parece anestesiada, sem ânimo de reação diante do desmonte do país e a entrega de nossas riquezas ao capital estrangeiro. O Congresso Nacional, parcialmente apodrecido pela corrupção e afinado com o governo entreguista de Temer, está mais preocupado com os interesses dos seus membros, enquanto o Supremo Tribunal Federal, a última esperança democrática para impedir esses crimes contra o país, se mantém alheio, fingindo não ver o desmoronamento da Nação.
Só um cego – ou um traidor da pátria – não vê que Temer, colocado no poder por um golpe orquestrado pelas forças da direita com a decisiva participação de parlamentares corruptos, vem cumprindo à risca o script escrito pelos Estados Unidos, o maior interessado em nossas riquezas naturais, especialmente o petróleo, e no enfraquecimento do Brasil, que nos governos petistas de Lula e Dilma se libertou das garras do Tio Sam e conquistou espaço entre as grandes nações do planeta, arrastando em sua trajetória de independência outras nações sul-americanas até então sob o domínio norte-americano. Era preciso cortar as asas do Brasil, que estreitava suas relações, por exemplo, com a Rússia e a China. Temer e a mídia entreguista estão cumprindo fielmente o seu papel nessa tarefa impatriótica, surpreendentemente sem nenhum gemido das Forças Armadas, que têm a missão constitucional de defender a nossa soberania. Temer e a Lava-Jato, atuando de mãos dadas nessa tarefa, estão enterrando até o projeto de construção do nosso primeiro submarino nuclear, o que, obviamente, atende aos interesses americanos.
A ação deletéria de Temer, porém, não fica apenas na dilapidação do patrimônio nacional que sobrou da fúria privatizacionista de Fernando Henrique, devidamente aprovada pela mídia, pois segue destruindo também a imagem e a posição do nosso país no concerto das nações. Depois de abrir mão da posição de líder da América do Sul, executando uma política de desagregação das nações do Continente, Temer curvou-se de modo subserviente à disposição dos Estados de realizar exercícios militares na Amazônia brasileira, contribuindo para a estratégia de Trump de intimidação da nossa vizinha Venezuela. Ao mesmo tempo, acelera o processo de entrega da nossa base espacial de Alcântara, no Maranhão, àquele país, cujas conversações foram iniciadas no governo de FHC e interrompidas nos governos petistas. Pretende-se instalar naquela cidade maranhense uma base militar norte-americana, a exemplo da base de Guantânamo em Cuba, um enclave que os cubanos até hoje não conseguiram extirpar. Como até agora não se teve conhecimento de nenhuma manifestação das nossas Forças Armadas a respeito desses fatos, tem-se a impressão de que tais iniciativas de Temer teriam recebido a sua aprovação. Será?
Infelizmente a cada dia que passa cresce o descrédito quanto à possibilidade de Temer ser apeado do Planalto, pois apesar do rastro de destruição que está deixando e da ameaça de novas denúncias contra ele por parte do Procurador Geral da República Rodrigo Janot – denúncias que parecem de rosca tamanha é a dificuldade para sair – o golpista continua desafiando a população com medidas destrutivas, mostrando-se bastante seguro quanto à sua permanência no poder. Tem-se a impressão de que ele tem o controle não apenas do Congresso, mas também do Supremo Tribunal Federal, onde são engavetadas ou negadas as ações contrarias aos seus interesses. Agora mesmo seu ex-ministro da Justiça e hoje ministro da Suprema Corte, Alexandre de Moraes, negou ação da Ordem dos Advogados que cobrava o destravamento do seu pedido de impeachment na Câmara dos Deputados. O novo ministro alegou que o assunto era da competência interna do Legislativo. Todo mundo, na verdade, já sabia que seria esse o seu despacho. A surpresa ficou por conta da sua escolha, por "sorteio", para julgar o pedido da OAB, considerando as suas estreitas ligações com Temer. De tão rotineiro, aliás, ninguém mais se surpreende com os "sorteios" do STF, que sempre escolhem o ministro Gilmar Mendes, por exemplo, para julgar questões relacionadas com tucanos.
A justiça brasileira, na verdade, parece que perdeu completamente o pudor. Além dos "sorteios" do Supremo, hoje motivo de chacota em toda parte, as decisões em outras instâncias depõem cada vez mais contra a própria justiça. Exemplo: enquanto se condena um acusado de corrupção a mais de 20 anos de prisão (Marcos Valério, o chamado operador do "mensalão", foi condenado a 43 anos de reclusão), um sujeito que matou a cunhada com uma facada no coração, no Maranhão, foi condenado a apenas 8 anos de prisão e, ainda assim, em regime semi-aberto. De onde se conclui que, na visão da Justiça de hoje, roubar é um crime muito mais grave do que matar. A Justiça, na verdade, tem sido pródiga em decisões desconcertantes. O Tribunal de Justiça do Distrito Federal, outro exemplo, suspendeu liminar que obrigava o YouTube a excluir um vídeo no qual a blogueira Joyce Hasselmann agredia verbalmente a senadora Regina Souza, do PT do Piauí, chamando-a, entre outras coisas, de "anta", "gentalha", "semianalfabeta" e "cretina". O relator, que se manifestou pela manutenção do vídeo na internet, disse que "a liberdade de expressão, para ser garantida, não precisa ficar confinada ao debate polido entre estranhos políticos". Depois dessa decisão, conclui-se que a partir de agora todo mundo pode insultar à vontade o seu adversário que a Justiça aprova. É liberdade de expressão.
*Jornalista, escritor
Fonte: Brasil 247
Edição: Mário Pires Santana