sábado, 5 de agosto de 2017

Atrelado a Temer, PSDB se vê à beira da implosão

Sem presidenciável competitivo, partido aliou-se ao peemedebista na esperança de compor candidatura do establishment em 2018. E rachou.
Por André Barrocal 
Nas pesquisas para 2018, nome tucano aparece só em quarto: governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, ou o prefeito paulistano, João Doria/Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Michel Temer triunfou ao obter guarida contra investigação judicial no caso da mala de 500 mil reais em propina, mas houve quem tenha saído derrotado do episódio. Um foi o procurador-geral da República em fim de mandato, Rodrigo Janot, a preparar uma última “flechada” no presidente. O outro, o PSDB, dono de quatro ministérios, abrigo de filiados anti-Temer e à beira da implosão.
Por enquanto sem um nome competitivo para a próxima eleição presidencial, a maioria dos tucanos preferiu continuar abraçada ao enrascado peemedebista na esperança de até o ano que vem o governismo ser capaz de inventar um candidato com chances de ganhar. Um postulante para encarnar o establishment econômico fascinado pela agenda antipopular de Temer. Em uma reunião do PSDB paulista no início de junho para discutir o apoio ao governo Temer, José Aníbal, suplente do senador José Serra (SP), explicitou o que vai pela cabeça desse grupo do PSDB. “Não queremos que no ano que vem prevaleça uma polarização salvacionista, Bolsonaro, Lula... Isso só vamos conseguir se o Brasil voltar a crescer.”
Todas as pesquisas conhecidas mostram um mesmo cenário. O ex-presidente Lula, do PT, na frente, e o deputado Jair Bolsonaro, do PSC mas de malas prontas para o PEN, em seguida. Um nome tucano aparece só em quarto, depois de Marina Silva (Rede). O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, ou o prefeito paulistano, João Doria Júnior.
A eleição de 2018 foi utilizada abertamente por Temer para ter o voto tucano na sua salvação. “Se o PSDB sonha em querer ter candidato a presidente no ano que vem com sucesso, ele pode fazer esse sonho com o PMDB (…) O PSDB com seu sonho de poder, só com o PMDB”, dizia o deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS), recebedor de 100 mil reais do presidente na eleição de 2014.
Alas minoritárias e mais jovens do PSDB, os chamados “cabeças pretas”, não quiseram nem saber. Adotam uma postura raivosa em relação a escândalos de corrupção, identificam-se com as redes sociais e a Operação Lava Jato e parecem não se importar com a polarização Lula-Bolsonaro. Para elas, salvar o primeiro presidente acusado de praticar corrupção no cargo era demais.
“Alguns partidos, em clara contradição, dizem que Temer é inocente mas Lula e Dilma tem todos os pecados do mundo, já outros fazem o inverso”, afirmou o deputado Daniel Coelho (PE), um dos “cabeças pretas”, a uma rádio do seu estado na quinta-feira 3. “É uma esquizofrenia na política brasileira e uma falta de coerência sem limite”, disse, “o PSDB está completamente perdido”.
Era possível enxergar a perdição antes mesmo da vitória de Temer. Desde o estouro do escândalo JBS-Friboi, o PSDB fez várias reuniões para tomar uma decisão sobre ficar ou sair do governo, mas jamais conseguiu um consenso. Dias antes da votação, seu vice-presidente, Alberto Goldman, dizia que o partido sairia “profundamente ferido” da episódio, pois prevalecia o cada um por si.
Resultado: dos 47 deputados tucanos, 22 votaram a favor de Temer, 21 contra e 4 faltaram à sessão. Três curiosidades a apimentar o racha. O autor do relatório pró-Temer posto em votação é tucano, Paulo Abi-Ackel (MG). O chefe da articulação política do governo, também, Antonio Imbassahy (BA). Mas o líder da bancada, Ricardo Tripoli (SP), mandou votar contra o relatório e o presidente.
O grosso dos votos anti-Temer saiu da bancada paulista, a de Trípoli. Dos 12 eleitos por São Paulo, 11 queriam degolar o presidente. Um deputado mineiro estava preocupado. Para ele, o placar paulista seria visto por Temer como obra de Alckmin. O perigo, segundo o mineiro preocupado, é o governador ser isolado politicamente pelo presidente e, por tabela, o PSDB inteiro, como vingança.
Esfacelado, o PSDB corre o risco de sumir, ou no mínimo de encolher. Daniel Coelho, por exemplo, comenta nos bastidores da Câmara que o PSDB pode sofrer o que aconteceu com o PMDB. O tucanato nasceu de uma costela peemedebista em 1988, por razões “éticas”. Pela cabeça do deputado preocupado citado acima já passam cogitações de novos habitats partidários.
Sem candidato presidenciável viável, destroçado internamente e atrelado a um governo impopular e com a pecha de corrupto, o PSDB caminha para a implosão.
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana