domingo, 6 de agosto de 2017

Seu Bom Dia

Por Laicrogos Negromonte
Todos os santos dias, como namorados de mãos dadas, ele caminha com sua esposa pelo canteiro central da avenida bem arborizada. A padaria levanta as portas às seis horas da manhã, sopra um vento leve, fresquinho, perfumado pelas flores de árvores frutíferas e de plantas ornamentais. Há uma disputa natural estre as fragrâncias mais agradáveis. 
- Gosto demais do cheiro das flores do cajueiro. Olha aquele apinhado de maturis. Ah transporto-me ao tempo de menino... 
- Prefiro o odor do jasmim. É tão suave! 
O casal observa tudo. 
- Bom-dia amigo! 
O transeunte que vinha no sentido contrário esboçou um gesto de aprovação, de ternura, respondeu: 
- Bom-dia! 
Era um senhor esguio, alto, que apesar da idade, mais ou menos 65 anos, seguia em ritmo acelerado. Chamava atenção sua boina preta com uma pequena estrela niquelada. Parecia muito com a boina do Che Guevara. Será que ele foi quando jovem um mochileiro? Um andarilho em busca de utopias? 
Bom-dia senhora! 
Ela estava de cabeça baixa com o rosário na mão. Tomou um susto, caiu o
instrumento sagrado de sua fé, curvou-se para apanhá-lo, fez uma cara feia, não respondeu nada, apenas resmungou e prosseguiu em passos lentos. 
- Pare como isso meu filho, que coisa estranha, você dá bom dia a todo mundo, tem gente que não gosta. Daqui a pouco você vai ser conhecido como o seu Bom Dia. 
O marido apenas sorriu, seus olhos de menino travesso saltitavam diante daquela manhã luminosa. Que bonita manhã! Mas ele sempre foi assim, um sonhador, sensível à condição humana, procurando extrair das pessoas um pouco de alegria, um pouco de carinho. 
Bom-dia meu compadre! 
Não era compadre não, nem poderia ser. Em verdade, um velhinho de passos miúdos, apoiando-se ao pequeno cajado de jucá. Vinha conversando animadamente com o cachorreiro e ao mesmo tempo entretido com o elétrico pinscher. Um menino mulato, menino danado, não parava de brincar com o simpático cãozinho. Os três estavam exultantes! Responderam quase ao mesmo tempo: 
- Bom-dia senhor! Bom-dia senhora! 
Depois da saudável caminhada, dirigiram-se à padaria para tomar água e café. Escolheram uma mesinha à beira da calçada. Observavam as frondosas árvores, em especial o exuberante e raro baobá. 
- Você sabia que essa árvore é proveniente da África?
- Não sabia meu amor. 
- Pois bem, dizem que ele é o símbolo da luta dos africanos escravizados no Brasil. 
- Nossa! 
De repente, ouviu-se uma batida de pau no piso de cimento, era o atencioso velhinho acompanhado do inseparável curumim. 
Tomando um cafezinho, seu Bom Dia? 
Edição: Mário Pires Santana