quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Temer e a morte moral do Brasil

O grupo no poder especializou-se na desfaçatez e na completa falta de cerimônia para quebrar o decoro, a honra e a dignidade pessoal.
Por Aldo Fornazieri 
Após salvar Temer, os parlamentares miram nas próximas eleições. Caso elas ocorram/Evaristo SA/AFP
A salvação de Michel Temer no último 2 de agosto pela Câmara dos Deputados significou a morte moral do Brasil. Pela primeira vez um presidente flagrado a cometer um crime é mantido impune no mais alto cargo da nação, sem que o tenha conquistado legitimamente. O País, hoje, está desmoralizado perante sua própria sociedade e internacionalmente. Trata-se de uma nação sem dignidade, moral e virtudes.
A oposição e os movimentos sindicais e sociais, no geral, assistiram passivos à imolação da dignidade nacional, indicador de sua impotência e falta de coragem. Estamos num país sem rumos e sem lideranças políticas capazes de indicar um caminho de saída para a crise que dizima empregos, direitos e a vida dos cidadãos. A violência subtrai vidas aos milhares e a pobreza aumenta. Dificilmente Temer e sua quadrilha serão removidos do Palácio do Planalto, mesmo com uma nova denúncia da Procuradoria-Geral da República, se não forem revelados fatos extraordinariamente aterradores contra o presidente impostor.
O grupo do Planalto especializou-se na desfaçatez e na completa falta de cerimônia na quebra do decoro, da honra e da dignidade pessoal. Agirão com
todos os meios para se manter no poder, mesmo se ao custo da destruição do País.
Nos próximos meses, os políticos e os partidos estarão preocupados em se salvar da guilhotina judicial, lutar para manter o poder, particularmente o condomínio golpista, hoje encastelado no Planalto e no Congresso, e se posicionar para as eleições de 2018.
Como o Brasil virou um campo devastado, onde só se discutem delações, denúncias, escândalos e punições, há um enorme deserto de ideias, de propostas e de programas para construir um futuro para esse povo sofrido, cabisbaixo e envergonhado.
Se a carruagem continuar a andar com este movimento de féretro, teremos no ano que vem uma eleição presidencial das mais desidratadas de conteúdo, de propostas e de programas da história, tendência sinalizada pela disputa em 2014.
O governo, fraco e desmoralizado, deixará o Brasil arrastar-se em sua agonia até 2019. Procurará aprovar um remendo aqui, outro acolá. A oposição continuará a exercer um papel protocolar no Congresso.
Os parlamentares estarão preocupados em encontrar uma fórmula para financiar as eleições do ano que vem. Os setores corporativos, os sindicatos e os movimentos sociais, cada qual a seu modo, buscarão potencializar demandas específicas.
No plano partidário e eleitoral, Lula deverá continuar a liderar as pesquisas, seguido por Jair Bolsonaro em segundo lugar. Bolsonaro tem se tornado uma bebida amarga para o PSDB, que o acolheu e o cevou na luta para derrubar a presidenta Dilma Rousseff.
Sua consolidação indica que só no decurso da própria campanha ele poderá perder fôlego e ser suplantado por um candidato de centro: um tucano, Rodrigo Maia ou qualquer outsider. No PSDB, a luta entre padrinho e apadrinhado, Geraldo Alckmin e João Doria, para ver quem será o candidato, deverá deixar feridas abertas e muitas mágoas. A angústia tucana se prolongará até o próximo ano, para saber se o partido está dentro ou fora do governo golpista.
No campo democrático e progressista, a angústia consiste em saber se Lula poderá ou não ser candidato. Aparentemente, tudo dependerá de Lula, de suas caravanas e seus advogados, pois o PT e os movimentos sociais não se mostram capazes de criar fatos e ambiente político que reverberem sobre as decisões judiciais. Sim, sobre as decisões judiciais, pois Lula não é julgado segundo os preceitos legais, mas de acordo com interesses políticos.
Se Lula for candidato, surgirá uma série de questões: com que programa? Com quais alianças? Repetirá o passado? Buscará a conciliação? Apostará na construção de um campo democrático e progressista que inclua Ciro Gomes, o PDT, e até o PSOL? Se há uma pressão de bases e de setores intelectuais para que isso ocorra, nem a direção do PT nem Lula esboçam por enquanto respostas a essas perguntas.
Se Lula não for candidato, partes dessas questões continuarão postas, particularmente três: haverá uma frente democrática e progressista? Quais serão os candidatos? E o programa? Como a conjuntura se desloca cada vez mais para as articulações em torno das eleições, as forças democráticas e progressistas e os movimentos sociais precisam acelerar esse debate e manifestar intenções e vontades para chegar a uma definição.
Seria lastimável, mas nada novo, se não houvesse um esforço para a unidade do campo progressista. Para que tal esforço ocorra, será preciso que cada líder, cada partido, desça do seu pedestal de arrogância, perceba não ser o portador de uma luz intensa da iluminação, mas portador, quando muito, de uma vela pálida e bruxuleante diante da densa neblina que é o futuro próximo e o futuro do Brasil.
As esquerdas precisam perceber que o golpe, o ataque aos direitos e a destruição da dignidade nacional não representam uma derrota circunstancial. Representam o aprofundamento de uma derrota histórica e revelam a incapacidade de que essas forças padecem em construir um país com cidadania, direitos, igualdade, justiça e liberdade.
O fato de sermos uma das nações mais desiguais e a mais violenta do mundo é indicador veemente e indesmentível do fracasso histórico dessas forças. Elas só serão capazes de construir algo potente e glorioso se tomarem consciência desse fracasso e se empenharem com responsabilidade, paixão e disciplina para transformá-lo em passado.
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana