segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A Entidade

A casa-grande tem endereços conhecidos, mas é mais ampla e difusa, e nunca contou com jagunços tão denodados.
Por Mino Cartal
Um grande pensador de escrita prodigiosa
Como definir Gilberto Freyre? Arrisco dizer que se trata de um grande pensador de prodigiosa escrita, profundo conhecedor de sua terra, da sua história e dos seus tempos. A crítica nativa, vítima do patrulhamento pretensamente esquerdista, já o execrou ao tê-lo como reacionário, assim como se deu com Raymundo Faoro por dar ouvidos a Max Weber.
As obras-primas de Freyre, intituladas Casa-Grande e Senzala e Sobrados e Mocambos, referem-se ao passado, mas são atuais até hoje, sem contar a riqueza dos relatos e o prazer estético da leitura. Os sobrados hoje são palacetes dos mais variados estilos, desde a casa de Branca de Neve até Tara, a mansão neoclássica de Scarlet O’Hara, ou espigões cercados por muralhas himalaicas e protegidos por coortes de seguranças armados até os dentes. Quanto aos mocambos, agora se chamam favelas.
Feudos sem horizonte cercam a casa-grande, e ai de quem transpuser suas fronteiras, a contar inclusive com a pronta intervenção da polícia, quando não se dá que a villa do senhor, embora erguida sobre um terreno de proporções menores, contenha um campo de golfe de 18 buracos e/ou um gramado infindo para a prática do polo. O trabalhador rural não progrediu muito em relação aos tempos do cativeiro e o trabalho escravo subsiste em vários cantos.
Daí a resistência das abruptas dicotomias evocadas por Gilberto Freyre. Tenho lançado mão amiúde da expressão casa-grande, que concebo como uma entidade transcendente, nutrida pelo instinto de predação, o impulso da acumulação, a prepotência de quem não tem o que temer, isso tudo temperado pelo ódio de classe, feroz manifestação de estultice onde se acha em plena formação uma nova raça, a parda.
Alguns endereços das vivendas senhoriais, arroláveis como casas-grandes, são certos e sabidos, mas a entidade que imagino carrega uma força mais ampla e, até um certo ponto, insondável nas suas exatas dimensões.
O mundo vive uma crise ao mesmo tempo monstruosa e insana, e a ela o Brasil não poderia escapar. Ocorre, entretanto, que a medievalidade do País, a torná-lo único em um mundo tido como civilizado, precipita uma situação infinitamente pior. O neoliberalismo criou super-ricos fabricantes de dinheiro e não deixou de incluir Brasileiros na categoria.
Cuidou-se por aqui de liquidar uma indústria outrora florescente e de apostar no agronegócio que está longe de ser promessa de salvação para um país exportador de commodities. Agimos na contramão também deste ponto de vista, pelo caminho oposto àquele de muitos países empenhados a dar a volta por cima, como se esclarece na reportagem de Carlos Drummond.
E há um extremo complicador, as quadrilhas no poder, fiéis da entidade transcendente, a casa-grande, satisfeitos ao sagrar o Brasil na condição de súdito, de colocá-lo à venda, de aprofundar vertiginosamente o desequilíbrio social e de nos roubar qualquer esperança de futuro.
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana