terça-feira, 19 de setembro de 2017

Coreia do Norte, o rato que ruge

Teste termonuclear sobe o escalão do confronto entre Pyongyang e Washington.
Por Antonio Luiz M. C. Costa 
Kim Jong-un agora tem a bomba e um míssil capaz de alcançar Nova York/Foto/KCNA/KNS/AFP
Como se a semana do furacão Harvey, das enchentes dezenas de vezes mais mortais na Índia e África e do início do genocídio dos rohingya em Mianmar não tivesse sido aflitiva o suficiente, o líder norte-coreano, Kim Jong-un, presenteou o mundo com seu primeiro teste de bomba termonuclear, ou bomba H, como se dizia no auge da Guerra Fria.
Não é um passo pequeno. Além dos cinco integrantes do Conselho de Segurança da ONU – Estados Unidos em 1952, Rússia (então União Soviética) em 1955, Reino Unido em 1958, China em 1967 e França em 1968 –, apenas a Índia havia realizado um teste dessa natureza, em 1998.
A arma de Pyongyang é mais potente do que a indiana (140 quilotons, segundo a inteligência dos EUA, ante 45 do teste indiano) e, a se acreditar nas fotos oficiais, foi miniaturizada o suficiente para ser usada na ogiva de um míssil balístico. Paquistão e Israel possuem bombas atômicas, mas, se acaso já têm capacidade para armas termonucleares, não as testaram.
Uma bomba termonuclear tira a maior parte de sua energia da fusão do hidrogênio ou lítio e esta pode ser muito maior do que o de uma bomba atômica, baseada inteiramente na fissão do urânio ou plutônio.
A bomba usada em Hiroshima equivalia a 15 quilotons, ou 15 mil toneladas de TNT, e a maior bomba de fissão já testada chegou a 500 quilotons. Esta é a potência típica de uma bomba de fusão moderna e a mais potente já testada (pela URSS, em 1961) alcançou 50 megatons, equivalente a 50 milhões de toneladas de TNT.
Isso significa um raio de destruição muito maior, tanto para causar maior estrago em uma grande cidade quanto para garantir a destruição de um alvo militar mesmo quando não se pode alcançá-lo com precisão.
Em 4 de julho, convém lembrar, a Coreia do Norte comemorou a independência dos EUA com um míssil com alcance de 6,7 mil quilômetros, suficiente para atingir o Alasca e o Havaí, e no dia 28 testou um míssil intercontinental com alcance de 10,4 mil quilômetros.
Esse raio de ação cobre todo o Oeste dos EUA e, com a ajuda da rotação da Terra, que favorece mísseis lançados na direção do leste, poderia em tese alcançar muitas das grandes cidades do centro e leste, inclusive Chicago, Boston e Nova York (ainda não Washington). Kim Jong-un ainda não cumpriu a ameaça de fazer um disparo na direção da base estadunidense de Guam para demonstrar sua capacidade de atingi-la, mas em 29 de agosto fez um de seus mísseis sobrevoar o Japão.
Até certo ponto, testes de mísseis e bombas, exercícios militares e retórica agressiva contra inimigos externos são tradições na Coreia do Norte, e aparentemente seus governantes as consideram necessárias para manter na linha as massas e a burocracia do Estado e do partido. Entretanto, Pyongyang não executou nenhuma agressão concreta contra o Sul ou qualquer outro país desde o fim da Guerra da Coreia, em 1953.
É mais do que se pode dizer de qualquer dos demais detentores de armas nucleares e o comportamento das potências ocidentais no Iraque e na Líbia dá certa razão a Pyongyang. A Coreia do Norte expulsou os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica durante a preparação para a invasão anglo-americana de Bagdá e, meses depois de esta se consumar, retirou-se do Tratado de Não Proliferação Nuclear.
O primeiro teste bem-sucedido foi em 2006. Vladimir Putin condenou o teste norte-coreano durante a reunião dos BRICS, mas não deixou de frisar essa realidade. “Todos lembramos do que se passou com o Iraque e Saddam Hussein. Seus filhos foram mortos, seu país destruído e ele enforcado. Todos sabemos como foi e os norte-coreanos se lembram muito bem. Comerão grama, mas continuarão seu programa enquanto não se sentirem seguros”.
O pacifismo de Moon Jae-in é a primeira vítima da situação.
Dito isso, não é preciso acreditar que as intenções de Kim Jong-un são apenas defensivas. A recente multiplicação de testes de mísseis – mais numerosos de janeiro a agosto do que nos 14 anos de governo do pai, Jong-il – e o alarde de Pyongyang a seu respeito sugerem pretensões mais complexas. 
Pode existir a expectativa de usar a falta de convicção de Donald Trump pelas suas relações exteriores para tensionar suas alianças até o rompimento. Desde a campanha eleitoral, o presidente dos EUA ameaça com retirar suas forças da Coreia do Sul e Japão se seus governos não pagarem por sua manutenção.
No sábado 2, o Washington Post noticiou que Trump, insatisfeito com o acordo de livre-comércio com Seul vigente desde 2012 e com a renegociação iniciada em 22 de agosto, instruiu assessores a preparar o rompimento, como pretende fazer com o Nafta. Também pode estar na agenda alimentar desentendimentos entre o pacifismo do atual governo sul-coreano do Moon Jae-in, empossado em maio, e o militarismo crescente do governo japonês de Shinzo Abe.
Outra interpretação é de que a Coreia do Norte queira fortalecer a linha dura chinesa neste momento de crescente rivalidade com os EUA, de modo a pressionar a China a acabar com o jogo duplo e tomar claramente seu partido. Talvez por isso tenha escolhido o momento da reunião dos BRICS para o teste termonuclear e empanado um momento de glória de Xi Jinping às vésperas de mais um congresso quinquenal do Partido Comunista Chinês.
Se esses são os objetivos, não parecem ter sido atingidos. Trump desdenha os acordos militares e comerciais dos EUA com aliados tradicionais da Ásia e Europa, mas até agora o Pentágono e os serviços de inteligência o impediram de tomar atitudes drásticas a respeito e devem ter meios de mantê-lo na linha. O maior prejudicado é Moon, cuja política de diálogo e reaproximação com Pyongyang foi atacada por Trump como “apaziguamento”, em coro com as críticas da oposição sul-coreana de direita e corre o risco de ser desacreditada.
Até agora, os resultados mais concretos da crise nuclear são os gestos de rearmamento da Coreia do Sul e do Japão. Moon havia paralisado a instalação do polêmico sistema antimíssil Thaad encomendado aos Estados Unidos pela presidenta deposta Park Geun-hye (pelo qual Trump quer cobrá-lo) para um estudo ambiental, mas voltou atrás e o autorizou.
Além disso, diz querer construir um submarino nuclear e pediu aos EUA, que concordaram, para liberar Seul de um limite de 500 quilos para o peso máximo das ogivas de seus mísseis. Na terça-feira 5, Trump tuitou, satisfeito: “Estou autorizando o Japão e a Coreia do Sul a comprarem uma quantidade substancialmente maior de equipamentos militares altamente sofisticados dos Estados Unidos”. É de se perguntar se Kim Jong-un não mereceu uma comissão nesse negócio.
O teste abalou a reunião dos BRICS e pode ser um recado para Xi Jinping (AFP)
O ministro da Defesa sul-coreano, Song Young-moo, levantou a possibilidade de os Estados Unidos voltarem a manter armas nucleares na Coreia do Sul, retiradas em 1991. Não satisfeita, a mídia conservadora sul-coreana pede em editoriais que o país crie suas próprias bombas atômicas como, aliás, o próprio Trump sugeria em março. Os EUA têm, certamente, os meios de pulverizar as instalações nucleares da Coreia do Norte e muito mais, mas, a menos que esta tome a improvável iniciativa de um ataque real, dificilmente farão isso.
A arma final de Kim Jong-un é menos a bomba termonuclear do que o fato de ninguém querer lidar com as consequências de um colapso de Pyongyang, que enviaria milhões de refugiados na direção da China e da Coreia do Sul. Esse risco pode ser deflagrado não só por um bombardeio de grandes proporções (que também poderia espalhar resíduos radioativos pela região), como também por um embargo comercial mais severo.
Daí a resistência do governo chinês a aumentar seriamente a pressão contra Pyongyang. E a ameaça de Trump de “parar todo o comércio com países que fazem negócios com a Coreia do Norte” pode ser descontada como bravata.
Muitas nações têm algum comércio com esse país, inclusive, por exemplo, a Alemanha, o México e o Brasil, mas sua única relação realmente vital é com Pequim, que lhe importa carvão, minérios e têxteis e exporta bens de capital, veículos, petróleo e eletroeletrônicos.
Esse comércio é importante para a sobrevivência do regime, mas irrelevante para seu programa nuclear. E não existe a possibilidade de Trump paralisar de um dia para o outro as fábricas que fornecem iPads à Apple e sapatos à grife de sua filha. Esse confronto tem poucas chances de provocar diretamente uma terceira guerra mundial. Mais provavelmente, as consequências se limitarão a sanções menores, um maior azedamento das relações entre Washington e Pequim e uma corrida armamentista na região, para a satisfação da indústria bélica estadunidense.
É preocupante, porém, o fato de um país pequeno e pobre ser capaz de tais façanhas tecnológicas. Pelas estimativas mais generosas, o PIB da Coreia do Norte é comparável ao de Honduras, de Moçambique ou do estado do Maranhão. Ou seja, qualquer país decidido a desenvolver tecnologia própria pode fazer o mesmo. Para não falar da Alemanha, Japão e Coreia do Sul, pode não estar longe o dia em que a Arábia Saudita, o Egito ou o Vietnã tenham suas próprias bombas termonucleares e mísseis intercontinentais, principalmente se os EUA continuarem a agir de forma inconsequente em relação às suas alianças.
Jong-un não é, provavelmente, tão irresponsável como o pintam e gosta de parecer, porém, mais cedo ou mais tarde haverá um fanático ainda mais perigoso com tais armas em mãos.
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana