quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O ASTUTO RAIMUNDO GAVIÃO

Por Laicrogos Negromonte

Pompas fúnebres de extremado luxo. O caixão de aço inox se destacava pelo brilho e pelos adornos folheados a ouro, de fino acabamento. Dentro, o espesso veludo azul combinando com o fundo da mais delicada seda branca. Local belíssimo! Jardins, fontes e espelhos d’água, flores por todos os lados perfumavam o ambiente suntuoso e confortável. Adormecido para sempre, Raimundo Gavião com terno impecável e maquiagem primorosa parecia estar vivo. Curiosa história.
No início um menino pobre, de um lugar sem nome, muito pobre. Saiu de casa sozinho e não voltou mais, nunca mais. Sonhava com a cidade grande. Chegou com quatorze anos em São Paulo. Lá ficou.
Tudo começou no Terminal Rodoviário do Tietê. Fazia “bico”. Levava malas dos viajantes. Trabalho clandestino. Num belo dia, o senhor que sempre trazia caixas cheias de amendoim convidou-lhe para comercializar o produto na própria rodoviária. Ele tinha um sítio pequeno na região produtora de amendoim, interior de São Paulo. Seu Ramiro cultivava meio hectare de amendoim com ajuda de uma senhora viúva que morava próximo à propriedade. Raimundo Gavião, prontamente, topou e começou o novo trabalho.
Aquela parceria comercial evoluiu para amizade. E, com a amizade brotou uma
relação de confiança, quase de pai para filho. O negócio prosperou. Menino esperto, recolhia, selecionava e fazia a embalagem dos amendoins no sítio onde passou a morar. Todos os dias pegava o ônibus para o Tietê, vendia tudo e voltava. Detalhe: nos fardos de trinta e seis saquinhos, Raimundo Gavião colocava quarenta. Seu lucro extra. O velho Ramiro nunca notou a diferença porque o serviço era perfeito.
Com o tempo, seu Ramiro adoeceu. Diagnosticado com câncer de pulmão, resolveu fazer o último ato de caridade à pessoa que lhe era tão querida, tão próxima. Doou o sítio a quem o ajudara no cultivo e comercialização de amendoim, Raimundo Gavião. Na ocasião, era um jovem sagaz e trabalhador de dezoito anos de idade, com uma gorda conta bancária e um carro seminovo para o transporte de mercadoria.
Intensificou e modernizou com irrigação sua plantação de amendoim. Contratou vendedores. Ficou conhecido na região não só como produtor e comerciante, mas também como agiota. 
Apareceu diante de suas garras de ave de rapina um humilde proprietário de terra. Estava atolado em dívidas no comércio, pediu-lhe um empréstimo no que foi prontamente atendido, mas na condição de deixar sua propriedade como garantia. Juros altos. Logo no mês seguinte foi pagar a primeira parcela. Tudo certo. Depois, quando o devedor procurava o credor este ou não estava em casa ou se escondia dentro do mato. Até que seu Everaldo encontrou Raimundo Gavião na feira livre da cidade
- Seu Raimundo, tenho seis prestações atrasadas, o senhor nunca está em casa, vamos negociar a minha dívida. As coisas andam difíceis.
- Calma seu Everaldo, depois a gente conversa, agora não dá, passe lá em casa.
Com juros impagáveis, praticamente Raimundo Gavião tomou a terra do pobre homem e além do mais conseguiu no cartório uma escritura que extrapolou os limites acordados.
Em poucos anos seu faturamento triplicou. Bom partido, com fama de rico, casou com a moça mais cobiçada da região. Seu sogro era dono de grandes propriedades rurais, prédios alugados nas áreas comerciais e uma rede de supermercados. Tinha um casal de filhos. Depois de enviuvar veio a falecer no ano seguinte. No inventário a filha herdou as propriedades rurais e metade dos prédios comerciais. O filho ficou com a outra metade dos prédios comerciais e a rede de supermercados.
A maior e mais moderna indústria de beneficiamento de amendoim foi instalada. Raimundo Gavião tornou-se o rei do amendoim.
Sua vida foi programada para ganhar dinheiro, para ficar milionário. Conseguiu. Agora seu corpo jaz naquela extravagante urna fúnebre de aço inox junto de seus relógios de estimação, três colocados no braço esquerdo e três no direito. Exigência do falecido. Patek Philippe e Louis Moinet eram suas marcas prediletas. 
Fechado o caixão com fechaduras invioláveis, foi levado de helicóptero para a fazenda-sede onde o esperava um magnífico jazigo de Mármore de Carrara. Pessoas de todas as partes acorreram ao extravagante funeral, os ricos à frente e os pobres atrás. Emoção! Quando a esplendorosa urna ia descendo coberta de coroas de flores um fato chamou atenção: as vacas, os carneiros e os pássaros debandaram como se algum espírito maligno estivesse por perto.
Edição: Mário Pires Santana