segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O legado do clown Jerry Lewis

Qual a contribuição e o tamanho da influência do comediante que morreu no domingo 20, aos 91 anos?
Por Jotabê Medeiros 
A parceria com Dean Martin rendeu 17 filmes da dupla/Gene Lester/Getty Images
Havia uma energia feroz e anárquica no humor de Jerry Lewis, que morreu de problemas cardíacos no domingo 20, em Las Vegas, nos Estados Unidos, aos 91 anos. Ele inventou uma dança do caos e um coro desafinado de um homem só em cena, e isso projetou um humor arruaceiro mundo afora.
Podia atuar se contorcendo no chão e fingir alienação em face de qualquer choque iminente da realidade, um comediante de movimentos quase surrealistas. “Os americanos nunca tinham visto um homem crescido agindo daquela forma antes”, disse o escritor Shawn Levy, biógrafo de Lewis.
Sucessor bastardo de Buster Keaton, Charlie Chaplin e outros visionários, Jerry Lewis injetou um ritmo maníaco no humor de massa, aparelhado com a máscara de borracha moldável na face e aquela sujeira contemporânea feita de improvisos – combinação que, a princípio, não parecia fadada a funcionar em uma era de rígida disciplina industrial do cinema.
Ele imaginou a si mesmo, inicialmente, como um bufão anti-fashion sob medida para Dean Martin (1917-1995), um conceito que começou a ser engendrado no 500 Club de Atlantic City, em 1946. Essa parceria atingiu o ápice, na tevê, durante o Colgate Show, da NBC.
Lewis interpretava o amigo inepto do qual o amigo apto, Martin, não abria mão em sua escalada de sedução, porque ele a facilitava. “Um id perigosamente volátil para o ego soberbamente relaxado de Mr. Martin”, descreveu o jornal The New York Times.
O nonsense estava nas fundações de suas viagens. Há um esquete do Colgate Show em que Jerry e Dean são chamados a uma reunião da Associação dos Bibliotecários. Toda vez que Jerry tenta falar algo com sua voz estridente, eles o repreendem: “Shhhhhhh!” Jerry acaba regendo o coral de “shhhhhhs!” Dean Martin, nascido Dino Paul Crocetti, fez 17 filmes com Jerry e abandonou a parceria por desentendimentos, em 1956, já com o know-how que adotaria no Rat Pack de Frank Sinatra e Sammy Davis Jr.
O professor Aloprado e O Rei da Comédia são dias referências entre os 45 longas-metragens de Jerry Lewis, que chegou a dar aulas de cinema (Foto:AFP)
Lewis zombou da própria coreografia epiléptica com a dupla personalidade em O Professor Aloprado (The Nutty Professor, de 1963, baseado em O Médico e o Monstro, de Stevenson). Quando bebe uma poção, o pacato e desajeitado Julius Kelp torna-se Buddy Love, cool e jazzy.
Fumando e beijando ao mesmo tempo, Lewis pincelou de sarcasmo Buddy Love, esse personagem bem-sucedido: o que seria um homem atraente? De quais clichês bogartianos era composto? É necessariamente misógino? Que tipo de violência silenciosa mantém tal mito?
Seu personagem desajustado e retorcido conheceu o sucesso nos filmes, na televisão, nos clubes noturnos, no palco da Broadway e nas salas de conferências da universidade, como diretor, ator, roteirista, produtor e cantor, conforme assinalou a imprensa americana.
Atuou com estrelas como Anita Ekberg, Janet Leigh, Jayne Mansfield e a mulher com quem teve seis filhos, Patti Palmer. Tornou-se popular no espectro mais operário do termo, ao contrário de colegas do humor judeo-norte-americano como Lenny Bruce, Woody Allen ou mesmo Mel Brooks. O nome verdadeiro de Jerry Lewis era Joseph Levitch. Era neto de judeus russos de Newark, New Jersey.
Raramente demonstrou a intenção de ser admitido no Clube dos Refinados – mas a acalentou. Em 1972, começou uma ambiciosa filmagem, um filme que nunca ficaria pronto e que ninguém jamais veria: The Day the Clown Cried.
Na produção interpreta um palhaço que é enviado a um campo de concentração nazista e cria um ambiente de entretenimento para crianças que estão em vias de ser enviadas para as câmaras de gás. Foi atacado antes mesmo de ser finalizado e as críticas constrangeram Lewis, que retirou todos os fragmentos e cópias de circulação. Tornou-se um mistério, um filme proscrito.
Os colegas tentaram apreender o mito, que só fez crescer com tais histórias. Transmitiu o legado de todas as formas – chegou mesmo a lecionar cinema na University of Southern California, tendo como alunos Steven Spielberg e George Lucas.
Martin Scorsese dirigiu, nos anos 1980, a megaprodução O Rei da Comédia, na qual o próprio Lewis, host de um talk show afamado, é sequestrado por um fã obsessivo, interpretado por Robert De Niro.
Além dos 45 longas-metragens, os obituários ressaltaram suas contribuições técnicas, como o aparelho de vídeo que fez desenvolver e no qual via a cena que acabara de ser filmada para refazer ou corrigir, conforme o resultado – isso foi incorporado pela indústria inteira.
Também é destacado o papel de Lewis como filantropo: por meio de telethons, levantou cerca de 2 bilhões de dólares entre 1950 e 2011 para crianças da Muscular Dystrophy Association. Foi tão relevante esse trabalho que as crianças acometidas pelo mal ficaram sendo chamadas de Jerry’s Kids. Ganhou o Oscar pela vida de trabalho humanitário em 2009. Tinha, e não escondia isso, inclinação política para a direita.
Jerry foi viciado em Percodan, um analgésico, e um componente de fragilidade psicológica rondou toda a sua trajetória, algo que os biógrafos identificaram na origem, na relação complicada com os pais, que o ignoravam (eram também artistas e muitas vezes o largavam em quartos de hotéis).
Muita gente defende que Jerry Lewis foi perdendo a graça com a idade, até virar um rascunho de piada. Talvez, mas é imensurável sua contribuição para o futuro. Jim Carrey o copiou de forma indecente. Renato Aragão, Paulo Silvino (morto na quinta-feira 17), Steve Martin e Eddie Murphy (que refez O Professor Aloprado): não são poucos aqueles que as caretas de Jerry Lewis alcançaram.
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana