terça-feira, 26 de setembro de 2017

O papel do historiador vai além de narrar os fatos

Por Marcus Paixão

Um dos medievalistas que mais admiro é o historiador francês Jacques Le Goff. Para quem se dedica ao estudo da Idade Média, dentre os muitos acadêmicos de renome, o nome de Le Goff é indispensável. Talvez seja dele o maior e o mais importante legado historiográfico nessa área de estudos históricos. Boa parte da grande produção de Le Goff está traduzido para o nosso idioma, e como admirador do seu trabalho, adquiri alguns títulos. atualmente estou lendo um livro escrito em formato de entrevista biográfica: Uma Vida Para a História: conversações com Marc Heurgon (UNESP, 2007). Le Goff destaca algumas observações importantes para o historiador sério. Obviamente, há diferenças colossais entre o professor de história e o historiador. Basicamente, o historiador produz pesquisas e o professor utiliza as pesquisas do historiador em sala de aula, no ensino dos seus alunos. Como pesquisador, destaquei uma colocação curta, mas muito importante de Jacques Le Goff. Ele lembra do seu professor no Liceu de Toulon, Henri Michel, que lhe ensinou um dos papéis fundamentais da história: Ensinou-me que a história, mais do que relatar, deveria explicar" (p. 37). 
É papel do historiador explicar a história, e não somente narrar acontecimentos. O papel de narrar fatos cabe mais ao jornalismo, que não precisa se posicionar
(para isso há o jornalismo opinativo). Porém, ao historiador cabe a tarefa de explicar os acontecimentos e porque aconteceram. O historiador deve ter a habilidade de entender mais profundamente as questões e os múltiplos acontecimentos que culminaram em outros tantos. 
Por isso, quando o historiador se depara com as fontes, ele precisa ter a perícia não apenas de ler o manuscrito antigo, mas de entender o manuscrito e o mundo em que sua fonte foi produzida. As tensões políticas e os interesses por trás pessoas que estão relacionadas ao documento que está sendo analisado. Não é uma tarefa tão simples. Conseguir a fonte é o primeiro passo da pesquisa, o que torna a pesquisa viável. As técnicas empregadas para a análise são outra parte importante do trabalho, porque o historiador não precisa apenas ler a fonte, ele precisa entender a fonte e julgar a autenticidade da fonte: se o que ela descreve é realmente o que aconteceu. 
O material secundário que o historiador utiliza é a bibliografia, ou o que já foi produzido por outros historiadores sobre a temática que está sendo estudada. O que outras pesquisas dizem sobre o assunto? Dessa forma, as obras analisadas pelo historiador devem ser investigadas com a mesma cautela que as fontes primárias. A mesma fonte pode levar um determinado historiador chegar a conclusões diferentes de outro. 
Somente depois de tomados todos estes cuidados (e outros!), o historiador poderá começar a dar a sua explicação da história. Dessa forma, ele pode começar a contar a história e não apenas narrar acontecimentos. A importância do historiador é primaz para a sociedade, qualquer que seja a sociedade, para que se conheça a própria história. falando de outra forma, toda sociedade precisa de bons historiadores, capazes de estudar seu passado e conhecer as implicações de suas decisões e entender como e porque chegaram onde chegaram.
Fonte: 180graus.com
Edição: Mário Pires Santana