segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Um nó na Inquisição

“O que menos preocupa vocês é a prova”, disse Lula ao encarar Sergio Moro, em mais um depoimento no tribunal do Santo Ofício de Curitiba.
Por Mino Carta
Sereno e sem rancores, em paz consigo mesmo/Heuler Andrey/AFP
Estive com Lula na noite de quinta-feira 7 de setembro, Dia da Dependência, e jantamos bacalhau à portuguesa na minha opinião de excelente feitura, era da minha lavra. Ele me disse que no seu depoimento ao inquisidor do Santo Ofício curitibano, marcado para a quarta 13, seria mais peremptório, talvez mais agressivo, do que nas ocasiões precedentes. De fato foi, como será contado na reportagem desta edição.
Vale destacar como qualificou Palocci, simulador mentiroso, embora não negasse já ter sido chegado a ele como colaborador precioso. De certa maneira, as palavras a respeito do ex-ministro engatam no trecho do discurso pronunciado em praça pública depois do depoimento em que admitiu ter errado em vários momentos ao sonhar demais.
E não seria também em confiar em quem não merece? Seria bom, aliás, se o ex-presidente repensasse nos elogios feitos a Henrique Meirelles durante a retumbante caravana pelo Nordeste. Digo, o atual ministro da Fazenda do governo ilegítimo, servidor de todos os amos a começar pelo mercado. Durante o depoimento, Lula, ao colocar em xeque a politização de quem se arvora a julgá-lo, disse “o que menos preocupa vocês é a prova”. O inquisidor retrucou: “Talvez o senhor esteja um pouco rancoroso”. Além de patética, a frase passa longe do alvo: Lula hoje é um líder sereno e sem rancores, certo da sua lisura de cidadão e do acerto de sua conduta política.
Quando diz que nada teme e que prefere a morte a ser tido como mentiroso, fala com o coração e a mente. Fica claro que, mesmo ao admitir erros, Lula está em perfeita paz com sua consciência.
Retorna à atualidade algo que Lula soletrou, e então largamente noticiado, logo após ficarem expostos os objetivos da manobra golpista destinada a se concretizar em 2016: se me condenarem e prenderem, virarei um mártir. Eis uma ideia de muito peso, insuportável para a casa-grande.
Recomenda-se refletir em torno. Melhor o candidato imbatível ou o mártir? O imediatismo da hora presente afirma que a segunda hipótese tende a ser a preferida por se projetar para o futuro, sempre e necessariamente incerto. Ainda assim cabem dúvidas...
Perdoem qualquer exagero de minha parte se me arrisco a evocar uma figura histórica, Joana d’Arc. Não ouso comparar a heroína santificada com o nosso ex-presidente Lula de Garanhuns. Sempre que evoco Joana, penso na fogueira que ardeu, em plena guerra entre ingleses invasores e franceses invadidos, graças ao acordo entre o negociador britânico Warwick e o bispo gaulês Pierre Cauchon, representantes das partes ameaçadas, o reino de além-Mancha e a Santa Romana Igreja.
Um temia o avanço francês, desencadeado por Joana, o outro a heresia da alsaciana que ouvia a voz dos santos. Ela morreu entre as chamas, mas os franceses, no embalo da pregação da mártir, expulsaram os ingleses de sua terra.
Repito, perdoem meu arroubo. Aproveito, de todo modo, para falar de um livro interessante intitulado Lula, lançado pela Editora ComPactos.
Trata-se de uma coletânea de depoimentos de cidadãos comuns, cerca de cem, a focalizarem a figura do ex-presidente, colhidos pela jornalista Cleusa Slaviero a se valer de um prefácio de Raduan Nassar, e de uma página inicial assinada por Karlos Rischbieter, extraída pelo filho Luca, das memórias do ex-ministro, grande amigo falecido há alguns anos.
Rischbieter fala de um encontro na minha casa em janeiro de 1980 com o então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, Luiz Inácio da Silva, o Lula.
Começo do mês, quase 38 anos atrás, Karlos liga de Brasília, diz: “Vou a São Paulo, seria possível chamar o Lula para um papo? É um cara notável, queria muito conhecê-lo”.
Horas depois, o ministro, que se preparava a deixar o governo depois de apresentar em vão ao ditador Figueiredo um plano de desenvolvimento econômico, e um seu antigo colaborador dos tempos da Caixa Econômica e no Banco do Brasil, Armando Vasone, surgiram na minha sala de estar, juntamente com Lula e o presidente dos petroleiros de Paulínia, Jacó Bittar.
Foi uma conversa de amigos, e as opiniões amiúde coincidiam. Servi uísque, cachaça e vinho. No dia seguinte, Lula ligou: “Belo cara, o Rischbieter... inclusive por ser capaz de grandes ilusões”.
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana