sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Viajando com Hermeto

Por *Aquiles Rique Reis
Claro que eu gostaria de comentar cada uma das dezoito gravações inéditas do “senhor bruxo” em seu álbum duplo Hermeto Pascoal & Grupo – No Mundo dos Sons (SESC-SP). Mas como eu tenho limitações quanto ao tamanho do texto, hoje restringirei a emoção e minhas observações a apenas duas faixas do primeiro CD.
Com Hermeto está a turma que, plena do som hermetiano, conta com Itiberê Zwarg (baixo elétrico, tuba e voz), Fabio Pascoal (percussões usuais e inusuais), Ajurinã Zwarg (bateria, voz, percussões usuais e inusuais), André Marques (piano, teclado, flauta e voz) e Jota P. (flauta, flautim, saxes e voz). Assim, temos um álbum novo de HP muito bem gravado pelo técnico Daniel Tápia, no estúdio Gargolândia. Polidas por Adonias Jr., todas as faixas têm ótimas mixagem e masterização – ajustar tantos sons, sem deixar que nenhum se perca, é trabalho de fino artesanato.
Os discos do fecundo Hermeto permitem contato com um som sem regras nem fronteiras. Ele abre a série de homenagens, dedicando temas instrumentais a quem admira e de quem sente saudade, como “Rafael Amor Eterno” (seu bisneto, neto de seu filho Fábio Pascoal), além de fazer um tributo a São Paulo. E é justamente com esse hino ao amor à cidade que começa a viagem rumo a
um extraordinário mundo musical.
“Viva São Paulo!”: mesclando teclado elétrico, piano, baixo elétrico, bateria, sax, vozes e percussões, os sons dissonantes dos primeiros compassos retratam o que seria o despertar do povo que vive e trabalha numa das maiores metrópoles do mundo. Pelas mãos de um grupo atento a experimentações, a aspereza do burburinho das ruas ganha um tema atonal que a representa e identifica. E o alarido segue presente no arranjo com os “desencontros” harmônicos dos instrumentos e a alucinada mistura das percussões. E, até então arritmo, chega o ritmo. Os choques harmônicos do início, agora somados às percussões, parecem simular o ruído das fábricas na periferia paulistana. Sai o ritmo. A agudeza sonora se mantém, causando a impressão de que representa o caminhar apressado de pessoas que mal se veem, apenas seguem, sugerindo que o ir e vir só aumenta... não pode parar. Tem início um afretando, durante o qual ouve-se o alarido dos músicos. Até que um grito de Hermeto soa: “Viva São Paulo!”.
O CD número um acaba com “Som da Aura” (criação coletiva), outra viagem musical tão inusitada quanto bem sacada: cada participante diz uma frase qualquer e se apresenta. Hermeto, por exemplo, abriu a fila dando um gritão: “Então, ah! Estamos aqui na Gargolândia, cara, gravando esse CD maravilhoso, no meio da natureza.” Repetida a frase, os instrumentistas passam a usá-la como letra para uma nova música, composta de improviso, ali, na hora. Com os músicos tocando as composições recém-criadas, todos se apresentam.
Consigo apenas concluir que ouvir Hermeto Pascoal é enveredar mundo adentro de um criador que, aos 81 anos, fantasia sons com o frescor e a sabedoria de um menino.
*Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4
Fonte: Luis Nassif Online
Edição: Mário Pires Santana