segunda-feira, 23 de outubro de 2017

CIVILIZAÇÃO DELTAICA – PARTE 1

Por Laicrogos Negromonte

Os deltaicos viviam da comercialização de frutos do mar, frutos da terra, artesanatos e turismo. Pessoas simples, na sua esmagadora maioria, pouco se entregavam a devaneios, fantasias, muito menos a proposições utópicas. Eles se preocupavam com o presente, com o seu ganha-pão. Nunca ouviram falar dos fenícios, seus ancestrais, provavelmente. Até as lendas do passado pouco lhes importavam. Desconheciam a fantástica viagem intercontinental da gigantesca garça Benu, alçando voo desde o Golfo de Issus ao Delta do Parnaíba, em tempos imemoriáveis, espalhando nas ilhas, com suas majestosas asas, energia criativa. Seu grito anunciava o nascimento de uma nova e perfeita civilização. Nem, sequer, ouviram falar da maravilhosa princesa encantada, vivendo sozinha numa furna que interligava Jericoacoara à Ilha das Canárias, esperando ser desencantada com sangue humano. Princesa em forma de serpente, de escamas de ouro. Movimentava-se com os pés de mulher, cabeça ágil, cabelos castanhos, rosto afilado, olhos da cor do mar e lábios carnudos, sedutores. Esses ilhéus nada sabiam, jamais cultivavam sonhos mirabolantes.
Noite de lua cheia. Noite de ventos ruidosos. O Delta dormia. Súbito, os ventres das mulheres grávidas contraiam-se e, ao mesmo tempo, todas elas sentiam um estranho desconforto. Algo indescritível, bem diferente das mexidas naturais de fetos. Mas aquele fato excepcional passou quase despercebido. Poucas mulheres comentaram no dia seguinte, dentre elas Conceição e Aparecida, esposas de pescadores.
- Mulher, passei um pedaço da noite preocupada com a minha barriga ardendo e uma suadeira danada como nunca tive.
- Criatura, pois não é que eu senti a mesma coisa, até pensei que estava sonhando. Eu via as ondas do mar dentro de mim.
Desde então, as moradoras das ilhas davam a luz crianças saudáveis, mas com características incomuns: todos os bebês nasciam com olhos claros, de cores e expressões nunca vistos. E o mais curioso é que essas crianças assemelhadas provinham de famílias tradicionais do Delta do Parnaíba, ou seja, moravam há décadas naquele paraíso. 
Com o passar do tempo, a nova e deslumbrante geração foi apelidada de “filhos de opalas”, porque seus olhos brilhantes lembram as opalas de Pedro II. Há meninos e meninas com os olhos faiscantes refletindo as sete cores do arco-íris. A vida, no entanto, prosseguia no seu ritmo costumeiro até que outro fato chamou muita atenção: esses jovens especiais tinham um fôlego muito acima do normal. Passavam horas e horas no fundo das águas, mergulhando sem cessar. Peixes humanos?
De tanto brincar no fundo das águas do Delta, encantados com a beleza das plantinhas subaquáticas, albinas, que lembram um pouco as anêmonas-do-mar, “os filhos de opalas” decidiram cultivá-las entre corais. Ao manuseá-las com todo cuidado, essas joias submersas iam passando por um processo de mudança de cor até chegar, quando maduras, ao azul-celeste.
Em casa, as mães ficaram maravilhadas com a beleza das plantinhas. Umas colocaram nas salas outras nas varandas, penduradas nos caibros ou nas linhas de carnaúba. Certo dia, chegou à casa de dona Aparecida uma senhora com a perna esquerda tomada por uma eczema braba. Mal chegou, sentou-se e começou a gemer e murmurar.
- Dona Aparecida arranje qualquer coisa pra passar na minha perna, estou para não aguentar mais, com tanta dor.
- Não tenho nada comadre! Espere aí, vou colocar na água fervida uns galhinhos dessa planta, vou abafar, depois com a água morna vamos lavar sua ferida. Queira Deus dê algum resultado.
No primeiro dia de aplicação as dores passaram, no segundo dia a ferida murchou, e no terceiro dia só restaram algumas casquinhas ressequidas da ferida. Pronto, a comadre ficou totalmente curada. A notícia circulou no Delta como um rastilho de pólvora.
Edição: Mário Pires Santana