terça-feira, 24 de outubro de 2017

CIVILIZAÇÃO DELTAICA – PARTE 2

Por Laicrogos Negromonte 

As curas se multiplicaram e o povo despertou, explodiu de entusiasmo. Os jovens que cultivavam as plantinhas azuis, milagrosas, deram-lhes um apelido carinhoso: “opalinhas do mar”. Escafandristas, mergulhadores, cientistas, oceanógrafos, botânicos, agrônomos, farmacêuticos, chegavam de todas as partes, alguns patrocinados pelos poderosos laboratórios estrangeiros. O governo federal acionou os Ministérios da Agricultura e da Ciência, Tecnologia e Inovação para viabilizarem projetos desenvolvimentistas para todas as ilhas do Delta (são mais de setenta). Documentários e reportagens de emissoras nacionais e internacionais tornaram o Delta do Parnaíba conhecido por milhões de pessoas. Foi uma revolução!
Depois que o tsunami da fama passou a vida quase voltou ao que era antes. O entusiasmo daquela gente que só pensava em dinheiro, em lucro, em explorar os humildes, em poder, esmaeceu. As propriedades químicas e farmacológicas das “opalinhas do mar” se transformam ao saírem do Delta. Ou seja, seus efeitos anti-inflamatórios, cicatrizantes, antibacterianos, antivirais, simplesmente desaparecem quando são transportadas para outro lugar. Portanto tornou-se impossível a comercialização ou a produção industrial. 
Com o passar do tempo, os primeiros “filhos de opala”, já adultos, experientes,
constituíram uma entidade sem fins lucrativos para organizar a atividade de cura das doenças infecciosas, degenerativas, principalmente o câncer. A Sociedade do Bem (SOBEM) concentrou sua assistência numa espécie de condomínio de casas para acolher e curar os doentes, numa grande área cheia de coqueiros, à beira de uma bela lagoa rodeada por dunas, próximas ao mar.
Antes das seções de cura eram ministradas palestras e levantadas questões para debates sobre a filosofia da entidade e conscientização dos enfermos e seus familiares. Os participantes ficavam bem informados de que o resultado positivo dos procedimentos dependia da criação de um ambiente energético de paz e bem, de sal e luz. Em nada importaria se o paciente era rico ou pobre, branco ou mestiço. Os egoístas e soberbos nada alcançavam, enquanto os humildes e solidários saíam saudáveis e felizes.
Os princípios que norteiam a organização administrativa são a alternância de funções e a ausência de hierarquia. Ninguém é dono de nada, ninguém manda em ninguém, ninguém se acomoda em lugar nenhum. Há uma movimentação espontânea, natural e harmônica no sentido do bem-servir aos irmãos carentes. Todos fazem tudo. Comunicam-se através do olhar envolvente, do sorriso franco e da fala mansa. É mais audível o vento que açoita as palmas dos coqueiros que os gemidos dos doentes mergulhados na fé.
As plantinhas azuis são preparadas em forma de chá, xarope, tintura, gel, creme e cápsulas. Embalagens apropriadas, higiene absoluta, prestação de serviço impecável. Tudo funciona às mil maravilhas graças às doações cada vez mais generosas que surgem espontaneamente nas palestras e nos debates constantes. 
As comunidades do Delta do Parnaíba instituíram o Conselho do Bem. A participação é ampla, irrestrita, onde qualquer morador pode dar a sua opinião. Foi um acontecimento histórico. Os fenômenos que ocorreram no Delta têm a ver com o dia em que as mães sentiram o primeiro ardor e os primeiros movimentos estranhos, intrauterinos e, segundo os historiadores e arqueólogos que estudam a região, com o fantástico voo da garça Benu, há milênios. A verdade é que a presença dos “filhos de opala” mudou a vida dos ilhéus. Tudo melhorou! Vislumbra-se para as próximas décadas um aperfeiçoamento dessa civilização a ponto de ser exemplo notável para as nações do mundo inteiro.
Sonho lindo! Acordei com o canto do bem-te-vi.
Edição: Mário Pires Santana