segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Mestre Pascoal: arte e criatividade de um piauiense que foram para o mundo todo

O artesão tem mais de 40 anos dedicados à arte e tudo começou como uma brincadeira.

Em comemoração ao aniversário do Piauí, o 180 divulga esta semana uma série de entrevistas com piauienses que se destacam em suas atividades, histórias de superação e verdadeiros exemplos de mudança de vida. José Pascoal de Araújo Pereira, ou simplesmente Mestre Pascoal, é um piauiense natural do município de Barras, hoje com 62 anos de idade e mais de quarenta dedicados à arte. Aos três anos de idade chegou à Teresina com os pais em busca de melhor qualidade de vida. A princípio foram morar no bairro Pirajá, Zona Norte da capital, seu pai trabalhava na Polícia Militar, mas também ganhava a vida como marceneiro e carpinteiro.
Mestre Pascoal: artesanato que levou o nome do Piauí para o mundo Foto: Magnólia Visgueira
Aos sete anos, Mestre Pascoal já se aventurava nas primeiras artes, os aviões fabricados de talos de buriti e palha de palmeira eram os seus brinquedos da infância. A mãe lhe ensinava a fazer as primeiras contas aritméticas, desenhar as figuras de uma folha para outra, ler em livros e assim Mestre Pascoal iniciava sua carreira. Já em 1966, aos 11 anos, mudou-se para o bairro Aeroporto, indo estudar na Escola Irmã Maria Catarina Levrini, no bairro Memorare, onde tem
sua residência até hoje. Lá estudou todo o primário e foi nesse período que conheceu várias técnicas artesanais que iam do verniz à pintura, dos desenhos e as montagens de imagens, utilizando fio elétrico, lã, madeira, sementes e a palha.
Em 1970, Mestre Pascoal foi trabalhar na Antiga Escola Técnica Federal do Piauí, hoje Instituto Federal do Piauí, passando pelas oficinas de montagem, serralheria e marcenaria. Lá aprendeu a trabalhar com o ferro, alumínio, torneamento de madeira e conheceu a arte do entalhe (fazer imagens na madeira), voltando depois de um certo tempo para a ‘Escola das Freiras’, já como monitor, onde passou a ensinar os garotos que ali estudavam, a trabalhar com o entalhe.
Foto: Magnólia Visgueira
A partir de então as freiras o levaram com suas peças à Central de Artesanato, na época em frente à Agência Central dos Correios. Foi quando começou a comercializar os primeiros entalhes, sendo os dois primeiros para um empresário de São Paulo e logo depois um para Madre Agostinha, em Roma, na Itália. A partir daí Monsenhor Chaves o indicou ao então Secretário de Cultura da época, Luís Gonzaga Pires. Este o convidou a expor seus trabalhos pela Secretaria de Cultura e pela Central de Artesanato, passando a ser reconhecido em outros estados do Brasil, a viajar e expor nas principais capitais como, Recife, Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e em muitas outras, além de enviar seus trabalhos para Argentina e Itália. Logo surgiram os convites para premiações com a peça de Nossa Senhora, feita especialmente a pedido de Rosângela Duarte, seguido de mais premiações tanto com entalhe, quanto escultura na areia e pintura sobre tela.
Mestre Pascoal receberá dia 19 de outubro no Teatro 4 de Setembro, medalha de honra por seus serviços prestados a cultura do nosso estado, das mãos do Governador Wellington Dias e em breve estreia o longa-metragem que conta sua trajetória de luta e glória dirigido pelo Cineasta Valderi Duarte.
Confira a entrevista com o artista:
Quando o senhor descobriu a paixão pelo entalhe em madeira?
Em 1975, quando ensinava o entalhe no colégio das freiras, para os garotos, as pessoas passaram a pedir as esculturas e foi um pedido atrás do outro.
Foto: Magnólia Visgueira
Onde o senhor busca inspiração para seus trabalhos?
Tem duas partes principais: A arte regional, do camponês, imagens da vida do povo do interior e tem a arte sacra, que é o movimento da igreja, principalmente a igreja católica e ainda tem os romeiros que pedem os votos, aquelas peças de perna, pé, mão, cabeça... E assim vou fazendo o trabalho da arte sacra e as imagens que as igrejas possuem.
O senhor expôs em outros países coletivamente. E quais foram essas peças?
Sim para a Itália foi o São Francisco, um Cacto Mandacaru e um Dom-Quixote. Essas três peças foram para uma feira na Itália e todas as três foram vendidas
Fale um pouco sobre a história do Dom Quixote. Como começou e a importância dessa peça?
O meu primo Reginaldo Santana, incentivou-me a fazer um Dom Quixote de la Mancha e mostrar ao seu amigo Doutor Clidenor Freitas, que era dono do Hospital Meduna, por ser uma peça da filosofia e que teria uma boa divulgação, eu fiz. Levei ao Doutor Clidenor, ele gostou e pediu que eu fizesse uma outra, e se esta ficasse perfeita, levaria de presente para o então Presidente da República Fernando Henrique Cardoso e assim foi feito. Depois recebi recorte de jornal falando a respeito da peça de Dom Quixote e a grande importância porque é uma estória universal adquirida pelo mundo inteiro.
Foto: Magnólia Visgueira.
O senhor continua fazendo as peças em pintura em óleo?
Sim, porém é raro o pessoal pedir uma tela, mas quando pedem estou sempre disposto a pintá-las.
Quais dessas pinturas foram premiadas? E qual foi o ano da premiação?
Foi São Pedro e a Chuva, foi a segunda premiação que eu recebi através do PRODART do Governo do Estado do Piauí e fiquei em segundo lugar, foi uma tela bem badalada no ano de 1999.
E a escultura em areia qual foi o ano e qual o tema?
1978, foi com o tema de uma lenda piauiense a “Num Se Pode”.
Como o senhor começou a esculpir os mapas do Piauí em madeira?
Foi por volta de 1998, tive a ideia de esculpir o mapa do Piauí, porque o Piauí não tinha boa divulgação, ouvi muito falar coisas ruins do estado, como diziam que a bandeira do Piauí era um coro de bode, já aconteceu em livros, não apareceu o nome da região, apareceu só o nome Maranhão. E passei a fazer os mapas para que minha terra passasse a ser mais conhecida pelos seus pontos turísticos.
E hoje, como o senhor vê na atualidade o mercado do artesanato no Piauí?
O artesanato do Piauí está bom, não digo que está ótimo, mas as pessoas gostam por causa do acabamento, dizem que é o melhor artesanato é do Piauí, mas ainda não está na alta como acontece com outros estados. Porque o Piauí não tem aquela total condição dos trabalhos sair para outros estados, para outros países com facilidade, como os estados de Fortaleza, Recife Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro.
Foto: Magnólia Visgueira
O senhor já é bastante conhecido no estado também fora do Brasil. Com isso o senhor vive financeiramente da arte do entalhe apenas?
É o entalhe e a escultura. Mas faço principalmente o entalhe e a pirogravura porque eles têm mais facilidade de sair por serem obras mais baratas. O Mapa do Piauí, por exemplo, chaveiro e porta lápis em menor tamanho são os que mais saem através dos turistas, a exemplo da loja do aeroporto e na Central de Artesanato.
Como o senhor recebeu o convite para gravar um filme da sua vida e obra?
A partir de 1975 passei a ser profissional na arte e o trabalho vem sempre favorecendo minha vida através tanto do conhecimento do povo e do Governo, como a Rosângela Duarte já me conhecia, veio o convite dela e do Valderi Duarte para gravar o longa metragem sobre minha vida, que já estamos quase terminando e terá mais a entrega da medalha que receberei das mãos do governador no dia 19 de outubro, no Teatro 4 de setembro.
Confira um pouco da arte de Mestre pascoal
[1/16] Foto: Magnólia Visgueira
A série de entrevistas é resultado da atividade prática do curso de 'Produção de conteúdo para Webjornalismo', com o instrutor Jhone Sousa, realizado pelo Instituto Galaxy. A seguir os participantes desta atividade:
Altivo Eugênio
Juosaé Amorim
Maelson Ventura
Magnólia Visgueira
Roberta Pereira
Romário Valle
Fonte: 180graus.com
Edição: Mário Pires Santana