segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O desastre nuclear à espera de um erro

A inconsequência dos EUA pode tornar a proliferação inevitável
Por Antonio Luiz M. C. Costa
Este foi um teste de míssil intercontinental dos EUA, mas o risco de lançamento para valer é cada vez maior/Oliver Klillig/DAP/Fotoarena
Em maio de 2017, faleceu na Rússia um militar aposentado chamado Stanislav Petrov. O nome dificilmente constará algum dia dos livros-texto de história, mas sem ele talvez estivéssemos mortos, ou invejássemos os mortos. Em 26 de setembro de 1983, o então tenente-coronel das forças estratégicas soviéticas comandava uma estação de ras­treamento de mísseis balísticos nos arredores de Moscou quando o radar apontou cinco mísseis intercontinentais estadunidenses a caminho da União Soviética.
Seu dever seria avisar imediatamente os superiores e provavelmente deflagrar a retaliação e a III Guerra Mundial. Decidiu não o fazer por achar improvável um ataque à URSS com apenas cinco mísseis, mas só teve certeza disso meia hora depois. Como se investigou mais tarde, o sistema de alerta confundiu reflexos incomuns do sol sobre nuvens de alta altitude, captados por satélites, com rastros de foguete. Mesmo naquela época, a história poderia ter acabado de outra forma e as chances de um final feliz estão se reduzindo. Um míssil balístico intercontinental leva 25 minutos dos EUA à Rússia, ou vice-versa, e, uma vez lançado, tem uma trajetória previsível.
Não é muita coisa, mas permite pensar duas vezes. Em tese, se Petrov seguisse
o protocolo e avisasse imediatamente o Kremlin, Iúri Andropov e seus assessores teriam, digamos, cinco ou seis minutos para avaliar a informação antes de decidir a reação. Também em tese, a previsibilidade da trajetória permite antecipar o alvo e interceptar o ataque, ou parte dele, por antimísseis.
Ele evitou uma guerra nuclear em 1983. Mas os Petrov estão ficando mais raros
Daqui a dez anos, talvez antes, isso será muito difícil, ou impossível. Hoje existem mísseis balísticos, muito velozes, mas previsíveis e mísseis de cruzeiro, manobráveis, mas não mais rápidos do que um avião. Entretanto, Rússia, EUA, China, França e Índia, pelo menos, estão próximos de pôr em serviço mísseis hipersônicos, que são ao mesmo tempo muito velozes – 5 mil a 25 mil quilômetros por hora – e manobráveis em voo.
Conforme a plataforma da qual forem lançados, podem atingir seu alvo em cinco ou seis minutos e mudarem sua trajetória de forma a driblar quaisquer tentativas de prever sua trajetória e interceptá-los. Ante essa perspectiva, o sistema de decisão centralizado usado em Moscou e Washington desde a Guerra Fria estará obsoleto.
Não haverá tempo de pensar e consultar superiores. Segundo a Rand Corporation, instituição que assessora o Pentágono, os governos poderão ter de renunciar a ter a última palavra e delegar a decisão de usar armas nucleares a oficiais de médio escalão, responder à primeira advertência ou lançar “ataques preventivos” ante uma situação tensa. Se tiverem um pequeno arsenal nuclear, serão tentados a aumentá-lo e dispersá-lo para garantir sua capacidade de retaliação depois de um ataque inimigo imprevisto. Isto praticamente garante que alguém cometerá um erro fatal a médio prazo, além de aumentar o risco de armas nucleares serem capturadas por terroristas.
Com um relatório que menciona, entre outros, Austrália, Japão, Brasil, Canadá, Irã, Israel, Paquistão, Cingapura, Coreia do Sul e Taiwan como interessados em tecnologia hipersônica, a Rand recomenda que EUA, Rússia e China façam um acordo de não proliferação, ou seja, não forneçam a terceiros essas armas ou meios de consegui-las. Mas essa é uma alternativa realista quando os EUA recorrem a uma empresa privada como a SpaceX para abastecer a Estação Espacial Internacional e seu criador, Elon Musk, sonha com voos comerciais hipersônicos para levar passageiros de Nova York a Paris em 30 minutos?
Mesmo que não seja fútil tentar deter a difusão de uma tecnologia acessível ao setor privado, talvez seja muito ingênuo pensar que limitá-la a umas poucas grandes potências resolva o problema. Em entrevista em 2013 à BBC, Petrov disse ter sido uma sorte ter sido ele o oficial de plantão, pois fora o único em sua equipe a ter recebido uma educação civil. “Meus colegas eram todos soldados profissionais, ensinados a dar e obedecer ordens.” Não sabemos muito sobre a qualidade dos militares formados desde então por Rússia e China, mas, ao menos no caso dos EUA, talvez hoje haja razões para se preocupar ainda mais com os civis.
A superficialidade, o déficit de atenção, a facilidade para acreditar em alegações sensacionalistas e a propensão a reações furiosas e irracionais não só dominam o debate político de base como são assumidos pelas próprias lideranças, a começar pelo presidente Donald Trump. As redes sociais têm sido responsabilizadas pelo fenômeno, mas não são as únicas culpadas. O desaparecimento da cultura crítica e humanista na educação, a transformação de escolas e faculdades em fábricas de diplomas, a precarização dos empregos e a pressão ao conformismo criada pelas formas de trabalho e vida social do século XXI reduzem a maioria das pessoas, mesmo em posição de responsabilidade, a engrenagens amedrontadas e fáceis de manipular e, às vezes, por reação exasperada, a suicidas e assassinos de massa em potencial, praticamente impossíveis de se detectar antes de explodir em fúria.
A ONU ter adotado um tratado para proibir as armas nucleares em julho, apoiado pela maioria dos países da América Latina (inclusive o Brasil, um dos articuladores), África e Ásia, e a Academia Sueca ter atribuído o Nobel da Paz à Campanha Internacional para a Abolição de Armas Nucleares (Ican, em inglês), a organização cujo esforço obteve esse resultado, indicam a apreensão crescente com o tema. Os efeitos práticos podem ser nulos, pois as nações detentoras de armas nucleares reais – exceto, ironicamente, a Coreia do Norte – recusaram-se até a participar das negociações, bem como seus satélites militares, inclusive o Japão e as nações da Otan, aliás, convidados a desenvolver suas próprias bombas atômicas por Trump, avesso a “protegê-los” de graça. Mas só nos resta a utopia, pois o realismo não é mais uma solução.
Mais que os testes de Kim Jong-un, o sinal de alarme mais imediato são os gestos do presidente dos EUA para romper o acordo com o Irã. É o único sucesso da política oficial de não proliferação, uma nação claramente capaz de desenvolver e testar armas nucleares que foi persuadida a não o fazer.
Nos anos 2020, a presença de mísseis hipersônicos aumentará o risco de um mal-entendido fatal (Foto: Brendan Smalowski/AFP)
Se Trump der esse passo para agradar aos belicistas no Congresso, os xenófobos na base e os lobbies de Israel e das monarquias árabes, vai enfraquecer o presidente Hassan Rohani e seus aliados, fortalecer os radicais de Teerã e possivelmente levá-los a dar os últimos passos para suas próprias armas nucleares. Mais que isso, acabará com qualquer esperança de persuadir Pyongyang ou qualquer outro governo a abrir mão de tais projetos em troca de garantias do Ocidente.
Os fiscais da ONU afirmam que o Irã tem cumprido inteiramente os termos do acordo e Trump de má vontade os confirma, mas insiste em rompê-lo assim mesmo, porque Teerã não respeita seu “espírito” e sua manutenção não atende aos interesses dos EUA. Por “espírito” deve-se entender que Teerã insiste em desenvolver drones e mísseis de médio alcance e outras tecnologias militares e “desestabilizar” o Oriente Médio, ou seja, contrariar os planos de Washington, Tel-Aviv e Riad para desestabilizá-lo em outra direção e se atrever a existir como potência independente de médio porte. Nada disso diz respeito, porém, ao pactuado em 2015 entre Rohani, o governo de Barack Obama e os representantes dos demais integrantes do grupo P5+1, a saber, China, Rússia, França, Reino Unido e Alemanha.
Os aliados europeus da Otan, apesar de também não estarem felizes com a política de Teerã, não querem pôr a perder o único recurso hoje disponível para conter ou pelo menos adiar a proliferação nuclear.
O acordo nuclear com o Irã de 2015 é o maior sucesso de política de não proliferação. E Trump quer jogá-lo fora
De seu ponto de vista, querer estender o tratado além dos dez anos de vigência previstos ou fechar supostas brechas como a inspeção de locais secretos que o Irã alega não terem relação com o programa atômico pode ser razoável, mas não o romper ou desviar sua finalidade.
E, sem a colaboração dos europeus, as sanções às exportações de petróleo do Irã que Trump quer restaurar (e tanto agradariam à Arábia Saudita e aos produtores dos EUA) teriam muito pouco efeito. Também não está claro se Trump persuadiu seus próprios militares. Na semana passada, ao posar para fotos antes de um jantar com os comandantes do Pentágono, disse à imprensa ser a “calma antes da tempestade”, prometeu “fazer o necessário” para prevenir o Irã de desenvolver armas nucleares e esperar dos comensais “um amplo leque de opções militares, quando necessárias, a um ritmo muito mais rápido”.
Sinal de que está pouco satisfeito com os conselhos e avisos dos generais. Estes, mais conscientes do custo das intervenções no Afeganistão e Iraque e do fato de que o Irã seria um desafio muito maior do que os dois juntos mesmo que a Rússia não se envolvesse, talvez sejam a última barreira à obsessão belicista de civis cuja noção sobre a guerra não vai além de filmes patrióticos e videogames.
Mas apenas por enquanto, porque o mundo continua a caminhar para uma situação na qual será inevitável que um lado ou outro cometa, mais cedo ou mais tarde, um erro fatal.
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana