segunda-feira, 20 de novembro de 2017

De exceção em exceção

Um dos maiores juristas do mundo condena a Justiça à brasileira e os quadrilheiros já preparam o golpe dentro do golpe.
Por Mino Carta
Ferrajoli prova a ilegalidade do impeachment de Dilma Rousseff e a perseguição a Lula/Jose Luis Salmeron/AFP
Domingo 12 de novembro foi dia movimentado no Palácio do Jaburu. De tarde, Michel Temer foi visitado pelo “Índio” que preside o Senado Federal, digo, Eunício Oliveira, à noite reuniu-se com o Darth Vader nativo, digo, o ministro Gilmar Mendes, e da bem nutrida conversa participou também o chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, melhor conhecido em certos ambientes como “Primo”, “Bicuíra” ou “Fodão”.
Não escapará aos leitores que se trata de graúdos representantes das quadrilhas que tomaram o poder pelo golpe perpetrado pelos próprios Executivo, Legislativo, Judiciário e mídia. De fato, senti somente a ausência de um dos filhos do colega Roberto Marinho.
O assunto em pauta foi mesmo relevante. Estudava-se a chance do golpe dentro do golpe, algo destinado a garantir a continuidade da demolição do Brasil dentro de uma pretensa legalidade, conforme desfaçatez nunca dantes navegada, praticada nas barbas do povo inerte.
Como é de se esperar, os golpistas, que até agora, de exceção em exceção, agiram a seu bel-prazer, não renunciam ao compromisso eleitoral de 2018, caso uma enésima exceção elimine todo e qualquer risco ao seu poder. Daí cogitarem do seu AI-5.
O Brasil das máfias verde-amarelas, em busca da solução, não se inspira na França de 1789, e sim na atual, de 2017. A França já foi para o Brasil um modelo de civilização e cultura e muitas mansões senhoriais em São Paulo e outros cantos passaram a esperar pela neve.
O momento de supremo encanto para os quatrocentões paulistas era visitar Paris acompanhados por fâmulos arrebanhados na lavoura do café e uma vaca leiteira, diante da possibilidade de não haver similares no país de 300 queijos, como sustentava De Gaulle.
Depois demos para macaquear os Estados Unidos da pior maneira. Quanto a 1789, a Revolução Francesa nunca alcançou o País e faz falta até hoje. Sabe-se que nas conversas do Jaburu falou-se em semi-presidencialismo à francesa, mas não consigo imaginar, por ora, de que forma se faria a mudança constitucional.
Recordo que o parlamentarismo inventado para limitar os poderes de João Goulart, herdeiro legítimo de Jânio Quadros engolido por sua renúncia: acatar o recurso imposto por aqueles iminentes golpistas por obra de um plebiscito capaz de precipitar a curto prazo o golpe de 1964.
Parece que o ideal dos golpistas de hoje seria sagrar o Macron nativo e nesta linha a revista Veja já nos brindou com pistas válidas, ao propor, recentemente, um candidato de centro, sem deixar de mencionar o presidente francês.
Neste enredo, vários equívocos hão de ser registrados. Sem contar a árdua tarefa de situar o centro em um país entregue aos quadrilheiros. De todo modo, bem ao contrário do Brasil, a França é terra democrática e civilizada, habitada por um povo disposto a sair às ruas para reivindicar por seus direitos e até a enfrentar as chamadas forças da ordem.
Ou seja, semelhança nenhuma com a nossa, bonita por natureza e abandonada por Deus. O ponto é outro. Em primeiro lugar, Lula há algum tempo está acima de 40% nas pesquisas eleitorais, enquanto Jair Bolsonaro é quem fica menos afastado e se confirma a ausência de um candidato viável dos golpistas.
Nesta edição publicamos um magistral artigo de Luigi Ferrajoli, mestre de Direito, aluno mais destacado de Norberto Bobbio. É um irrespondível ato de acusação contra a Lava Jato e a Justiça brasileira e será divulgado pela mídia impressa mundo afora. Ferrajoli denuncia a ilegalidade do impeachment e da perseguição a Lula, define Sergio Moro “inquisidor despótico” e afirma que em um país civilizado já teria sido afastado, e alude ao prejulgamento de um dos magistrados da segunda instância chamados a dar prosseguimento ao processo contra o ex-presidente.
Como supor, ao sabor da lógica desta quadra tão ilógica, que o tribunal de Porto Alegre não chancele a condenação do Tribunal do Santo Ofício de Curitiba, de sorte a alijar o grande favorito do embate presidencial?
Mesmo atingido aquele que se apresentava como objetivo final do golpe, nem por isso seus autores terão condições de dormir em paz. Donde, das duas uma: ou encontram um meio de cometer alguma “legalidade” ilegal ou não haverá eleições.
Certo é que os quadrilheiros já cogitam da próxima exceção e o povo, aturdido, fica de braços cruzados, súcubo. Diz o professor Belluzzo: este é o único país do mundo em que o combate à corrupção leva ao poder os próprios bandidos.
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana

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