domingo, 10 de dezembro de 2017

O trauma, a decepção e o desalento causado por Aécio

Por Miguel Dias Pinheiro, advogado 

Como “arauto” da decência, o PSDB foi o partido que mais empunhou a “bandeira da moralidade” democrática no Brasil. Ninguém se atrevia a apontar o dedo para contrariar ou se contrapor à insofismável história tucana. Até antes de descortinar-se o imbróglio envolvendo o senador mineiro Aécio Neves, hoje considerado a “ovelha negra” do partido, um “perdido” à procura de se reencontrar, política e moralmente.
Como diz a letra da música “Ovelha Negra”, de Rita Lee, o senador “levava uma vida sossegada, gostava de sombra e água fresca. Agora, é hora de você assumir. Uh! Uh! E sumir!”... Desgraçadamente, por incrível que pareça, neste sábado (9), Aécio foi vaiado na Convenção Nacional do partido em Brasília, quando os tucanos aclamaram Geraldo Alckmin para assumir a direção nacional em substituição ao mineiro, acusado de crimes e fatos deselegantes que depõem contra a história democrática de sucesso do PSDB.
Na convenção, ouviram-se vaias e gritos de "Fora, Aécio!". O locutor do evento tentou contornar, mas, em vão, foi impossível. O senador não foi sequer chamado para compor a mesa de honra. Logo depois, deixou o encontro, onde permaneceu nele por pouco mais de 40 minutos, enxotado e saindo pela porta dos fundos. Assim, após jogar o partido no “charco”, Aécio perdeu.
Neste domingo (10), o Jornal O Globo estampa a manchete: “Para superar as divergências no PSDB, surge o 'Tucanálcool'”. Veja só! Na Convenção, o “PSDB Jovem” lançou o movimento "prosa - política - bebida", que expressa “uma caneca de chope”, “um tucano”, “um político numa tribuna” e “as representações do masculino e do feminino entrelaçadas”. Rodrigo Lamas, da Juventude do Amazonas, disparou para o Brasil: “O PSDB anda brigando demais. E a juventude mais unida é a juventude etílica”. Em seu discurso, FHC ajudou a botar mais álcool na prosa da juventude tucana: “O povo está enojado, irritado com todos nós. O povo sente como se fosse uma grande traição nacional".
Fundado em 25 de junho de 1988, ainda não há na história política brasileira registro de partido político algum que tenha crescido tão rapidamente como o PSDB em termos de organização e com dignificantes resultados eleitorais. O futuro, agora, entregue à incerteza protagonizada por Aécio.
Inquestionavelmente, o PSDB tem uma trajetória de sucesso, de bons resultados políticos. Gerado sob o signo das reformas da Assembléia Nacional Constituinte, no seu nascedouro e no seu crescimento encontrou pelo caminho lideranças políticas das mais expressivas e lutadoras pelos mesmos ideais na defesa dos princípios democráticos e na defesa de uma justiça social. Indissoluvelmente, o humano e o justo. Como foi, por exemplo, no Piauí, a história política coroada de êxitos do ex-prefeito Wall Ferraz e seu grupo político seguidor.
Como diz o próprio PSDB em seus anais, a fundação de um partido político sério não é resultado dos impulsos de indivíduos contrariados em seus interesses e propósitos. Os “tucanos históricos” sabem perfeitamente o que quer dizer isso. Mas, Aécio não pensou nisso. Preferiu jogar-se ao “lamaçal” com os outros para enxovalhar a alma e a índole tucana.
Em junho de 88, no alvorecer de um projeto, a mensagem do PSDB ditava em letras destacadas: “Longe das benesses oficiais, mas perto do pulsar das ruas, nasce um novo partido”. Esta afirmação de compromisso com os interesses populares serviu de epígrafe para o “Manifesto do PSDB” aprovado conjuntamente com seu Estatuto e seu Programa Partidário nos atos de fundação realizados, em Brasília, nos dias 24 e 25 de junho daquele ano. Aécio não pensou em nada disso e atirou-se aos malfeitos, deixando-se contaminar para, enfim, envergonhar.
À época, a mensagem tucana irradiava, estimulava, inspirava e conquistava! Era um tempo áureo, empolgante, tocante,...! Afinal, infundindo a atuação partidária e emprestando seu nome aos quadros do PSDB estava o mais querido político brasileiro daquele tempo: Teotônio Vilela, o “Menestrel das Alagoas”, imortalizado pelo cântico de Milton Nascimento. O velho senador, que teve a coragem de romper com o Brasil arcaico a partir de suas próprias raízes e pregar um “Brasil Novo”, ainda ao tempo do regime militar, agiu como o lendário herói espanhol “El Cid”, que liderou seu povo numa batalha vitoriosa.
Inconsequente, o senador mineiro rendeu-se ao desvio de comportamento cultivado pelos adversários e caiu para o fundo poço. Hoje, há quem diga no tucanato que Aécio “desequilibrou” o PSDB e se “suicidou” politicamente.
No Senado Federal, por exemplo, chega a ser constrangedora para o partido a presença dele no plenário. Até ele mesmo se sente desconfortável. No viés do crime, foi uma “maldição” juntar Aécio Neves e Eduardo Cunha no mesmo “esgoto político”. Somente o senador pode mesurar a intensidade dessa dor e da desventura causada aos partidários com caráter.
Aécio acabou com o PSDB? Não cheguemos a tanto. Mas, é uma indagação que espelha preocupação. Ainda que o PSDB tenha quadros respeitados para substituir o mineiro. Mesmo frente ao “labéu” que mancha e desonra. Até porque como diz o sábio provérbio mineiro, “mineração e eleição, só depois da apuração”. Porém, o momento é melindroso. E com uma certeza: Aécio conseguiu um “racha” onde o bem e o mal, o bom e o mau se agridem e se confrontam publicamente com o trauma da “decepção” e do “desalento”.
Fonte: Portal AZ
Edição: Mário Pires Santana

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