sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

PIB do trimestre é "balde de água fria" no discurso de recuperação

Especialistas ouvidos por CartaCapital reforçam que enquanto a questão do emprego não for olhada com atenção, crescimento econômico seguirá frágil.
Por Dimalice Nunes
Apesar de três trimestres de queda, ainda falta dinamismo para a economia brasileira/Ricardo Almeida/ANPr/Fotos Públicas
É fato que a economia brasileira acumula três trimestres seguidos de crescimento, mas o número anunciado nesta sexta-feira 1 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 0,1% no terceiro trimestre, é decepcionante. "Denota um quadro de estagnação. É um banho de água fria no discurso de recuperação", resume o economista e professor da PUC-SP Antônio Correa de Lacerda. 
Destaque positivo das Contas Nacionais do terceiro trimestre, nem mesmo o investimento é motivo de comemoração. A Formação Bruta de Capital Fixo, que mede o investimento na produção, cresceu 1,6%, interrompendo uma sequência de 15 trimestres de queda ou estabilidade. "O investimento ainda está 30% abaixo do nível de 2014", lembra o professor.
Ainda sob a ótica da demanda, o consumo das famílias, importante estímulo no trimestre anterior, cresceu menos nos três meses até dezembro, 1,2%, e não deve ser grande alento para os próximos períodos.
"O desemprego ainda é muito alto e o emprego que surge é ruim. Há ainda os juros. As quedas nas taxas básicas não chegaram ao crédito, que continua caro", reforma Lacerda. "Também não há estímulo para o investimento privado. É necessário, ainda, que o investimento público cumpra seu papel." Sobre o
emprego, o professor lembra que a ocupação só cresce em função da atividade, que no momento patina. "A recuperação não será nem rápida, nem automática", finaliza. 
Mercado de trabalho
É no comportamento do mercado de trabalho que a análise de Walter Franco, professor de economia do Ibmec-SP, se centra. "Enquanto não se olhar com carinho para a questão do emprego teremos esse tipo de quadro", afirma. O quadro ao qual se refere o economista é o comportamento frágil dos trimestres em que enfim a economia parou de retrair. No primeiro trimestre desse ano o PIB interrompeu uma sequência de oito trimestres de retração e cresceu 1% puxado por um comportamento pontual da setor agropecuário. Nos três meses seguintes a expansão foi de 0,2% e agora desceu mais, para o 0,1% que caracteriza estabilidade. O IBGE, porém, revisou o PIB do primeiro e segundo trimestres. Em vez do crescimento de 0,2% no período de abril a junho, o avanço foi de 0,7%. Já no primeiro, o crescimento foi de 1,3%.
"É prioritário olhar para o emprego ou sempre estaremos sujeitos a humores externos ou sazonalidades domésticas. Se eu pudesse deixar apenas um recado é que o emprego precisa crescer", ressalta o professor. O crescimento do investimento é positivo, garante Franco, mas ele, por si só, não é gerador de emprego.
Com o número do terceiro trimestre, a economia brasileira acumula uma expansão de 0,6% de janeiro a setembro na comparação com o mesmo período do ano passado e Franco mantém sua projeção de que o Brasil feche o ano com um PIB 0,9% maior que o de 2016. 
Ainda de acordo com Franco, o crescimento do PIB nacional ainda se dá de forma pouco dinâmica refletindo – grosso modo – o fraco desempenho de alguns de seus principais componentes ao longo deste ano de 2017. "Somado a isto, a fraca situação do emprego e o baixo ritmo de crescimento da renda do trabalhador contribuem decisivamente, e neste exato momento, para a lenta recuperação econômica nacional".
Entretanto, destaca o economista, não deveria ser o crescimento puro da renda do trabalhador o foco das ações do Estado, mas uma simples e efetiva ação voltada à geração de empregos nos setores mais fragilizados da economia nacional.
É sabido, segundo Franco, que a tendência da informalidade é irreversível, entretanto, mesmo esta geração de empregos sem carteira assinada pode e deve ser tratada com atenção por parte do governo. "Somente com a devida atenção voltada à redução do desemprego é que o Brasil reverterá em 2018 o atual quadro de fraco desempenho econômico, deixando para serem corrigidos e atacados gradualmente o restante dos fatores geradores do crescimento do PIB", conclui.
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana

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