sábado, 9 de dezembro de 2017

Relações Exteriores: Brasil quer confirmar Israel e ser "anão diplomático"?

Reação do Itamaraty sobre EUA reconhecer Jerusalém como capital israelense veio tarde e tímida e aponta trilha do isolamento.
Por André Barrocal
O ministro Aloysio Nunes em encontro com Rex Tillerson, secretário de Estado dos EUA/State Department
Em 2014, Israel chamou o Brasil de "anão diplomático". Foi uma declaração emburrada contra uma política externa que em 2009 tinha o melhor chanceler do mundo, segundo uma prestigiada revista norte-americana, e que seguia igual cinco anos depois, embora mais contida. Em 2017, o Brasil já parece fazer jus à alcunha malcriada. E por uma razão que tem exatamente Israel como pivô. O Brasil foi um dos retardatários em se pronunciar sobre a polêmica decisão do governo Donald Trump de reconhecer Jerusalém como a capital israelense. Saiu atrás de vários vizinhos latino-americanos. E o fez de forma tímida, sem acentuar posições tradicionais da diplomacia nacional.
Uma posição "fraca", na visão do ex-chanceler Celso Amorim, o melhor do mundo em 2009. "Principalmente por que omite qualquer referência crítica à decisão intempestiva do presidente Trump, que tem o potencial de incendiar a região e descarrilar de vez o processo de paz", diz ele.
Um comunicado sobre o assunto foi divulgado pelo ministério das Relações Exteriores no fim da tarde da quinta-feira 7, mais de 24 horas após o anúncio de Trump. A decisão inicial no Itamaraty comandado pelo tucano Aloysio Nunes
Ferreira era silenciar, segundo CartaCapital apurou.
A posição mudou diante da repercussão mundial, especialmente nas cercanias. Uruguai, Argentina, Chile, México e Cuba foram alguns dos que se manifestaram
antes. Diz a nota do Itamaraty: "O governo brasileiro reitera seu entendimento de que o status final da cidade de Jerusalém deverá ser definido em negociações que assegurem o estabelecimento de dois estados vivendo em paz e segurança dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas e com livre acesso aos lugares santos das três religiões monoteístas, nos termos das resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas, como a resolução 478 de 1980, entre outras.
Recorda, ainda, que as fronteiras entre os dois estados deverão ser definidas em negociações diretas entre as partes tendo por base a linha de junho de 1967. O Brasil mantém relações diplomáticas com Israel desde 1949 e reconheceu o Estado da Palestina em 2010."
Os vizinhos que saíram na frente reagiram de forma bem mais crítica. Para o Uruguai, Trump não "contribui com o imprescindível clima de paz". A Argentina lamentou "medidas unilaterais que podem modificar este estatuto especial" que existe sobre Jerusalém, estatuto definido pela Assembleia Geral da ONU desde 1947.
O México avisou que manterá sua embaixada em Israel sediada na cidade de Tel Aviv, como todos países fazem até aqui. Os Estados Unidos mudarão a sua para Jerusalém, uma das consequências concretas da decisão de Trump.
Para Cuba, "a intenção do governo dos Estados Unidos de modificar o histórico status de Jerusalém prejudica o legítimo interesse do povo palestino e as nações árabes e islâmicas e terá sérias conse quências para a estabilidade e a segurança no Oriente Médio".
O Chile expressou "profunda preocupação" e afirmou considerar a ocupação por Israel da porção leste de Jerusalém como "ilegal".
Recordação: no ano passado, o presidente Xi Jinping, recentemente igualado em peso político ao líder Mao Tsé-Tung pelo XIX Congresso do Partido Comunista Chinês, defendeu publicamente que Jerusalém do Leste fosse a capital do Estado Palestino.
A diplomacia brasileira também já manifestou dessa maneira sobre Jerusalém Oriental. Foi em 2010, no governo Lula, quando o País reconheceu formalmente o Estado da Palestina. Uma posição reafirmada pelo governo Dilma Rousseff em 2015.
Um Estado, disse ela no Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestino daquele ano, "com capital em Jerusalém Oriental, convivendo lado a lado, em paz e segurança, com Israel, com base nas fronteiras internacionalmente reconhecidas de 1967".
Na nota de agora do Itamaraty sobre Jerusalém ser a capital de Israel, nenhuma menção a "Jerusalém Oriental".
No início do governo Michel Temer, ainda com o também senador tucano José Serra à frente, o Itamaraty já tinha dado mostras de umas inclinações mais pró-Israel.
Em junho de 2016, o Itamaraty divulgou uma nota a ameaçar mudar um voto do Brasil favorável aos palestinos (e por tabela contra Israel) dado dois meses na Unesco, a agência da ONU para Ciência e Cultura, a respeito dos direitos sobre o patrimônio cultural em territórios ocupados por israelenses.
Ao no mínimo aliviar a mão com Israel agora, o Brasil opta por um caminho de isolamento internacional. Países como Alemanha e França, por exemplo, condenaram a Casa Branca. Até o Reino Unido, sempre fiel ao Tio Sam, ficou contra.
O alinhamento com os EUA tem sido uma marca da política externa do governo Temer. “O Brasil tem feito uma série de concessões aos Estados Unidos sem pedir nada em troca. Podia ao menos dizer: quero isso, isso, aquilo...”, comenta o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, número 2 do Itamaraty entre 2003 e 2009.
Quando foi aos EUA para a última Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro, Temer jantou com Trump ao lado dos presidentes da Colômbia, Juan Manual Santos, e do Panamá, Juan Carlos Varela.
Segundo CartaCapital apurou, o peemedebista tentou falar com o anfitrião sobre relações bilaterais, investimentos, parcerias econômicas, mas não teve sucesso. Trump queria tratar apenas de Venezuela e da “agenda” norte-americana para o chavismo. E deixou claro: esperava apoio do Brasil. E ponto final na conversa.
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana

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