sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

SAUDADE

Por Laicrogos Negromonte

Chapeuzinho de palha, camisa estampada, bigode e costeletas bem desenhadas, lá estávamos nós formando uma fila de casais inocentes, com mais ou menos sete anos de idade, prontos para participar da primeira quadrilha junina. O colégio das irmãs religiosas reluzia com lâmpadas, bandeirolas e balões coloridos. Sobre a mesa revestida de toalha vermelha, pé-de-moleque, bolo de milho, tapioca, canjica, aluá e sucos de frutas. “A fogueira tá queimando em homenagem a São João, o forró já começou vamos gente rapá pé nesse salão”. Faceiro, agarrava firme na cintura do corpo delgado de Carolina, escondido sob seu vestido rosa choque todo enfeitado com fitas de cetim. Por onde andará minha primeira paixão? Ai que saudade!
Mamãe ficou preocupada quando viu o filho querido embarcar, sozinho, num ônibus em direção à serra entre nuvens ou ao sertão sem fim, para ensinar os camponeses a ler, escrever e pensar na liberdade. Sim, pois a educação seria instrumento para alcançar a consciência libertadora. O homem deve ser sujeito da história, num processo de reconquista da sua palavra, com direito de dizê-la, de pronunciá-la e de nomeá-la ao mundo, como ensinava o mestre Paulo Freire. As aulas poderiam ser dadas à sombra de uma árvore ou ao pé de um fogão a lenha, o importante era o método apropriado aliado ao diálogo franco, a integração com a comunidade e o exemplo de vida. Diante dessa realidade, passei por um momento difícil: seu Valdomiro, meu aluno, precisou realizar uma cirurgia de emergência e eu teria que doar meu sangue. Contava com dezessete anos e nunca tinha passado por tal situação. Morria de medo de hospital e ao ver sangue, desmaiava. Superei o desafio. Coisas da vida!
Minha mochila de lona verde-oliva foi confeccionada por um artesão, em completo segredo. Dentro de mim ferviam pensamentos aventureiros, vontade de desbravar a América do Sul, conviver com o povo humilde, experimentar coisas novas, encontrar, quem sabe, algo diferente, mais emocionante, caminhar sem rumo certo. Como nos versos do poeta espanhol, Antônio Machado: “Caminante, no hay camino, se hace caminho al andar”. A namorada não compreendeu, disse não ser capaz de largar a família e me acompanhar por esse mundo afora. Minha mãe ficou surpresa, pois o filho no convívio familiar era tranquilo, educado e responsável. Com imensa dor, permitiu a viagem. Fui-me embora, em primeiro lugar com destino a São Paulo, de carona no carro do irmão mais velho. Depois, graças ao dinheiro que papai me deu, comprei uma passagem para Curitiba. Andei por todos os lados a procura de serviço, sem êxito. Resolvi me levantar cedinho para vender jornais nas praças públicas. O que apurava servia para comprar o almoço no Restaurante Universitário e pagar a diária na Casa do Estudante. De passagem por Lajes, viajando sempre de carona, cheguei em Porto Alegre onde me foi dada a oportunidade de trabalhar na capina do campo de futebol do Colégio Marista (Rosário). Fiz muitos calos nas mãos, mas foi legal. Recebi minha quinzena de trabalho e uma carta de recomendação do Irmão Diretor. Pé na estrada, agora de ônibus com destino a Montevidéu. Cidade grande faz a gente sofrer, tudo é muito difícil principalmente para um mochileiro como eu. Em Salto, no Uruguai, fui preso por um dia e uma noite. Corria o ano de 1972, eu tinha 21 anos. O clima político prenunciava a ditadura civil-militar que irrompeu naquele país no ano seguinte. O delegado exigiu que eu voltasse para o Brasil (Uruguaiana). Segui por esses caminhos de meu Deus, percorrendo vários países: Além do Uruguai, Argentina, Chile e Bolívia. Aventura que durou seis meses. Finalmente, de mochila nas costas, barbado, cabelo longo, adentrei a loja dos meus pais. Mamãe estava no balcão, não me reconheceu. Bem próximo dela, falei: “Buenos días señora”. Fitando os meus olhos e ouvindo a voz inconfundível, exclamou: “Meu filho querido, você voltou!”. Passados longos tempos, com 90 anos, ela me confidenciou que tal aventura lhe causara o maior sofrimento de toda a sua vida.
Valeu a pena, por um ideal, por cultivar utopias, por sonhar demais. Agora, com 67 anos, na igrejinha do interior, ajoelhado, rezando diante de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, observando a aula de catecismo para crianças da primeira eucaristia, disse pros meus botões: coisas da vida! Quanta saudade!
Edição: Mário Pires Santana

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Os comentários são de responsabilidade de seus autores, e não refletem, de maneira nenhuma, a opinião do redator deste portal.