quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

A PERNA

Por *Gustavo Rosal

Atravessamos o litoral piauiense em uma Sandero. Como o ponto de partida fora Parnaíba, acredito que tenhamos percorrido cerca de 80 km até a divisa com o vizinho Ceará.
Chovia cerveja e suor. O calendário marcava sábado de Carnaval. Chovia tanto em tanta parte destas praias que a festa e os ”rituais de acasalamento” que se via pareciam apelos para o céu desmanchar-se em águas; se o fossem, chamaria o céu de caridoso, pois atendia aos bêbados e aos foliões em abadás com uma atenção de mãe, ou melhor, de avó. 
A chuva jorrava fina no anil do crepúsculo. Notei o verde que nos acompanhava na estrada; tão diverso do que de costume se vê em data qualquer por aqui. Em outra crônica, escrevi que as auroras são sedutoras aos meus olhos. Injustiça. Os crepúsculos também o são. E senão mais. 
Na tarde que enegrece escondem-se os acordos mais obscuros. Destes acordos, pouco sabemos além da melancolia e da nostalgia semeadas na Terra. Em um momento, identificamos as coisas e a nitidez do que se conhece – é dia. No outro, temos medo, pois o nítido tornou-se vulto e a impressão de um movimento indecifrável por trás de nossas atenções. 
O crepúsculo é o lar dos mitos, dos monstros, das esfinges, dos poetas e dos seres que não podemos conhecer. Assim como os que acordam de um sono leve
e, logo após, situam-se onde estão, são aqueles que despertam do sono que o sol carrega e situam-se no tardar do crepúsculo, pois este é o portal para o que a noite guarda.
Porém, por favor, não acusem-me de ocultista ou semelhante alcunha. Sou aquele que admira os mistérios do que tarda, mas como o velho sedentário admira os passes do trio de ataque do Barcelona – alheio, incapaz, à distância do impossível. E já não é crepúsculo. Vejo o escuro. 
Passamos Chaval – cidade do querido Pescador, Marcello Silva-, passamos Camocim, passamos pouco Acaraú. Uma fileira extensa de carros e de luzes avermelhadas se amontoa às margens de um povoado das redondezas. O tom de brincadeira que detinha a viagem assume um tom de curiosidade. 
– É acidente.
A velocidade da Sandero diminui. E por que, se sou o menor dos curiosos por tais eventos, fui aquele que ergueu o pescoço sobre a janela? O questionamento me persegue como um fantasma. Julgo-me dado a discrições – então que impulso estranho chamou-me os olhos àquela massa despojada na grama? 
”Parece uma perna”, pensei.
O vislumbre deu-se por entre as sombras dos que estavam próximos e as lanternas de luz branca que traziam os peritos. Se havia um entusiasmo qualquer que acomete os curiosos, este estremeceu em mim no eco do que pensei. ”Uma perna”… Lá estava o membro. 
O carro é estacionado. Descem metade dos passageiros. Não desço. Não penso. Naquele instante sou o silêncio atroz que a morte vinga. A imagem reverberando nas paredes de osso do meu crânio: as lanternas, a insensibilidade da multidão, as luzes vermelhas, a nudez opaca de uma perna.
Reproduzi as palavras continuamente no vão dos pensamentos até que meu silêncio tornou-se um cacófato vertiginoso e sem significado: uma perna… uma perna… uma perna… una terra… uah lerma… uh perra… – e meu silêncio era a língua dos mortos. Senti-me idiotizado.
Os demais passageiros, saciados, retornaram ao carro com a fala de um estranho que lá estava:
– Foi um bêbado. A gente pegou ele. Acertou minha mãe… Meu coração tá cheio de prego. 
Seguimos viagem. A chuva batia na vidraçaria do carro. Chuva fina. Chuva de pedra. Chuva de pernas. 
No escuro óvulo da noite, nesta data do calendário, se escuta o burburinho das bestas: chove cerveja, suor e sangue no Carnaval… chove cerv…
*Rosal é escritor, cronista, acadêmico de direito pela UESPI - Parnaíba
Fotos do Autor
Edição: Mário Pires Santana

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