sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

História: Da Nova República à República Velha

A burguesia e seus representantes até hoje não se conformaram com a revolução varguista e querem empurrar o Brasil para antes de 1930.
Por *Roberto Carlos Modesto 
O espectro de Vargas continua a assombrar/Wikimedia
A promessa da Nova República, inaugurada com a redemocratização nos anos 1980, era democracia com povo e desenvolvimento econômico com inclusão social, retomando o projeto político tocado a partir de 1950 com a eleição de Getúlio Vargas, trucidado pelo golpe civil-militar de 1964.
Assim, transitando por um caminho longo e irregular, de mão dupla, algumas conquistas se concretizaram: a Constituição de 1988, o controle da inflação no período Itamar-FHC, uma promissora ascensão social das massas nos governos Lula.
Como o caminho é de mão dupla, dá para citar revezes, mas eles foram contingenciais, insuficientes para derrubar as conquistas. As ameaças tornaram-se, porém, reais e imediatas após o impedimento de Dilma Rousseff em 2016, em um golpe parlamentar tramado pelo PMDB, liderado pelo vice-presidente e apoiado por parte da opinião pública, mídia e instituições patronais.
Embora o discurso dos golpistas fale de um futuro venturoso, o projeto político dos partidos e sindicatos patronais que dão suporte ao atual governo e ambicionam eleger o próximo neste ano é retroceder o País ao período pré-1930, da República Velha e do velho liberalismo oligárquico, com suas eleições
fraudulentas, criminalização de partidos e sindicatos laborais, falta de regulamentação trabalhista e previdenciária, intervenção do Estado apenas para garantir os lucros do agronegócio, ausência de negros e indígenas no espaço político.
Conseguirão? Depende da oposição popular nas ruas e nas urnas. A força dessa oposição é incerta. O certo é que tentam, com notável malícia e ligeireza, vendendo medidas impopulares, não sancionadas pelas urnas, como de salvação nacional. Tentam nos convencer que legislar contra o trabalhador favorecerá o trabalhador. Que fraudar a democracia fortalecerá a democracia.
A pauta é extensa e intensa: flexibilização das leis trabalhistas, reforma previdenciária, privatização ou esvaziamento de estatais e bancos públicos, reversão de políticas sociais, criminalização e degola de políticos de esquerda.
A burguesia nativa é favorável, no mínimo neutra, à desigualdade social. Para seus representantes, a desigualdade só pode ser enfrentada via mercado, como resultado das leis da oferta e da procura, ditas naturais ou mesmo divinas. Ou seja, o pobre só vai comer uma fatia quando o bolo crescer. Esse tipo de demanda pode ficar para o futuro. O povão que siga a esperar a fartura.
A elite tem urticária quando se fala em aumento do salário mínimo, imposto progressivo, ações afirmativas, Bolsa Família, democratização da mídia. Nem precisa chegar nas reformas agrária e urbana.
Da mesma forma, tem arrepios quando sente que a política sai do seu controle. Em 1964, utilizou o Exército para degolar os adversários, naquela época chamados de populistas. No presente usa os poderes Legislativo e Judiciário. Ontem, as vítimas foram Getúlio Vargas e João Goulart. Hoje, Dilma e Lula.
Tem uma teoria política maquiavélica por trás desses prodígios, enunciada por Carlos Lacerda em relação a Getúlio Vargas, mas que serve para todos os outros: “Não deve ser candidato. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não pode tomar posse. Empossado, deve ser impedido de governar”.
A burguesia e seus representantes ainda não se conformaram com a revolução de 1930.
* “Sócio” desde 2009
Fonte: Blog do Sócio/CartaCapital
Edição: Mário ires Santana

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Os comentários são de responsabilidade de seus autores, e não refletem, de maneira nenhuma, a opinião do redator deste portal.