sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

HORA DE DESMONTAR O CIRCO

Por *Laicrogos Negromonte
                      
- Na quarta-feira voltarei com mais alunos.
Subindo os degraus para acessar as cadeiras azuis, bem defronte ao picadeiro, a professora de português, Maria Alice, ficou surpresa com a resposta do recepcionista, um senhor magérrimo, de cabelos brancos e sorriso triste: 
- Não, professora, hoje é o último dia. 
As crianças em couro:
- Oh! Não! 
Do lado direito, quase ninguém, à esquerda alguns gatos pingados e, na geral, cadeiras vermelhas, absoluto deserto. Nesse domingo os preços dos ingressos foram reduzidos e unificados.
De súbito, completa escuridão, em seguida, as luzes multicoloridas da ribalta envoltas em névoas mágicas, no compasso do som alegre (Aquarela do Brasil), apontam para os artistas circenses, jovens, alegres, dinâmicos, encantadores: palhaços, trapezistas, mágicos, acrobatas. Até a equipe de apoio era simpática. Tudo perfeito. Valeu a pena!
Poucos, mas fervorosos aplausos encerravam com “chave de ouro” a temporada de dois meses na cidade. Diante do elenco vibrante, Alice notava sorrisos quase tristes. O mais explícito era o da pequena Mônica, aluna temporária da professora, muito disciplinada e muito inteligente. Os coleguinhas que lá estavam a tratavam como uma verdadeira princesa. Realmente, essa
extraordinária contorcionista de apenas onze anos de idade, ao girar o seu corpo esbelto até ultrapassar suas pernas para morder o pano verde-amarelo sobre um tamborete de madeira, mais parecia uma cobra. De pé, ergueu a bandeira do Brasil açoitada pelo canto do Hino Nacional (Fafá de Belém). Bandeira manchada pelo suor e lágrimas daquela menina-prodígio.
À tardinha, na segunda-feira, acompanhada das amiguinhas mais próximas de Mônica, a professora Alice resolveu fazer uma visita de despedida. Lonas ao chão, canos e andaimes empilhados, todo cordame recolhido, restavam, nuas, as duas torres principais com suas bandeiras ainda alçadas. Na extremidade do terreno, o trailer de seus pais, olhando para um matagal. O vento leste se contorcia de medo com os relâmpagos traiçoeiros seguidos pelos estrondos de trovões. Nada de chuva, apenas uma tarde nervosa em busca de uma noite atrevida.
- Mônica, chega, tua professora está aqui.
Sua mãe, uma senhora jovem, quase albina, recolhia as roupas estendidas no varal. A mão direita abriu a porta, a outra tentava esconder o rosto em lágrimas. Judiação! Afinal, por que esse entrevero perverso entre querer ficar e o ter que ir? Como desmontar sorrisos cultivados no calor da inocência diante da partida iminente? Será que tudo vai ter que ficar para trás?
Em meio à conversa animada, aparece o pai de Mônica. Alto, sem camisa, seu corpo parecia ser revestido de puro músculo. Ele era o trapezista mor daquele circo errante. Sim, errante porque vai ter que partir e a partida dói, dói muito nos corações dos que ficam e dos que se vão. Pelo menos esse era o sentimento das crianças ali reunidas.
Meio sem jeito, olhou para a filha com um olhar triste, fez uma mímica engraçada, melancólica, que aprendera com os palhaços. Todos riram. Um sorriso triste.
*Escritor, cronista.
Edição: Mário Pires Santana

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