sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Se o caso é chorar

A história que pode existir por detrás de um disco.
Por *Alberto Villas
Se o caso é chorar, de Tom Zé, será reeditado em vinil, com tudo que tem direito/Reprodução.
Aquele ano começou com a chegada de Caetano Veloso no aeroporto do Galeão, que nem Tom Jobim ainda era. Chegou esquelético com seus 48 quilos, dentro de um macacão jeans e uma bolsa de palha a tiracolo. Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, trazia um soluço e a vontade de ficar um pouco mais. 
As minhas malas estavam sendo preparadas para uma longa viagem, aparentemente só de ida, com destino a felicidade. Eram duas malas Ika forradas de cetim cor de rosa que, a cada dia, iam ganhando um objeto imprescindível para aquele exílio que me esperava.
Gravava fitas e mais fitas K7 porque não suportaria viver sem música, longe dez mil quilômetros do meu país. Ia gravando e escrevendo com caneta Bic em pequenas fichas de cartolina, o número da fita e as músicas de cada uma. Já não gastava dinheiro com mais nada, cada cruzeiro ia para uma caixa psicodélica e depois transformado em franco francês. E foi por isso que não comprei aquele disco que vi na vitrine das Lojas Gomes na Avenida Afonso Pena, ao lado dos Correios. 
Observei bem a capa, o rosto do compositor num desenho em traços de cor
vinho, mas o disco ficou ali dependurado entre A dança da solidão, de Paulinho da Viola, Exile on Main Street, dos Rolling Stones, Expresso 2222, de Gilberto Gil e Hoje é o último dia dos resto da minha vida, de Rita Lee. O Edifício Andraus ardeu em chamas, Richard Nixon encontrou-se com Chu En-lai, a televisão ficou colorida, Jesus Cristo virou Superstar, Jacqueline Kennedy foi fotografada nua, Torquato Neto abriu o gás e Minas Gerais respirou aliviada com a prisão de Orlando Sabino, o Louco do Triângulo.
O tempo passou, a festa acabou, o avião partiu. Longe daqui, aquele disco continuou na minha cabeça. Durante muitos e muitos anos não pude ouvi-lo, não tinha como. Ensaiei pedir para que algum filho de Deus me enviasse o vinil pelo correio, em vão. Ninguém achava mais o disco em nenhuma loja de Belo Horizonte. Me contentava em ouvir minhas fitas nos dias de dança da solidão e saudade do Brasil. Elas já estavam muito gastas e deslizavam no pequeno gravador com capa de couro que levei daqui. Ouvi mil vezes Gal cantando índia teus cabelos nos ombros caídos, ouvi mil vezes Ednardo cantado amanhã se der o carneiro vou-me embora pro Rio de janeiro e Caetano cantando vem comigo no trem da Leste peste, vem no trem pra Boranhém.
Muitos anos depois, de volta ao Brasil, andando pelo centro de São Paulo, bati os olhos naquele disco na vitrine do Sebo do Messias. Paguei caro por ele, já com a capa bem estropiada e cheio de chiados. Foi no décimo-sexto andar do nosso apartamento em Higienópolis que ouvi pela primeira vez, o compositor baiano cantando: Oh senhor cidadão/Eu quero saber/Com quantos quilos de medo se faz uma tradição.
Aquele velho disco não tinha encarte nem mesmo plástico protegendo o vinil. Eu ouvia uma música e voltava a agulha para ouvi-la novamente: Menina, a felicidade/É feita de ano/É feita de Eno/É feita de hino/É feita de ONU. A faixa de número 9 era a mais animada mas também a mais arranhada, a mais judiada e eu insistia em ouvir vezes seguida: Minha terra é boa/Plantando dá/O famoso abacaxi de Irara.
O disco sobreviveu ao casamento desfeito, a tempos instáveis sujeitos a chuvas e trovoadas, mudanças de casas e de rumo, até desaparecer na poeira da estrada, talvez de volta ao Sebo do Messias, não me lembro mais. Recuperando meus escritos para uma pesquisa que estou fazendo sob encomenda, deparei com o sofrimento de querer ouvir esse disco que vi pela primeira vez na vitrine das Lojas Gomes. Um sofrimento que ia e vinha em plena Paris do Beaujolais Nouveau, do croissant, do croque monsieur, do chausson aux pomme, de Jacques Higelin, Brel, Piaf, Rita Mitsouko, Serge Gainsbourg e Jane Birkin. E de uma banda de rock chamada Les Odeurs.
Na semana passada, uma pequena nota na coluna do Ancelmo me fez reviver toda essa história. Ela dizia que quarenta e seis anos depois, o disco Se o caso é chorar, de Tom Zé, será reeditado em vinil, com tudo que tem direito. A capa original, o desenho do compositor baiano em tons de vinho, o encarte, o plástico protegendo o vinil e as doze canções. Agora sim, vou poder ouvir pela primeira vez e sem chiados aquela velha canção: Se o caso é chorar/Te faço chorar/Se o caso é sofrer/Eu posso morrer de amor/Vestir toda a minha dor/No seu traje mais azul/Testando aos meus olhos/O dilema de rir ou chorar.
Agora sim, vou poder ouvir pela primeira vez e sem chiados, o sonho colorido de um pintor: Sonhei que pintei/Minhas noites de amarelo/Lindas estrelas no meu céu eu coloquei/O feio que era feio ficou belo/Até o vento do meu mundo eu perfumei/Numa apoteose de poesia/Um conjunto de harmonia/Uma lua roxa pra iluminar/As águas cor de rosa do meu mar.
*Jornalista, escritor, acaba de lançar o e-book "Mil Tons, o meu Millôr", pela editora e-galaxia.
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana

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