segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Simpatia

Por *Gustavo Rosal

Ao lado de meu condomínio há uma padaria de bairro; como a exemplo de tantas nas redondezas: careira e de qualidade duvidosa. Mas, pelo acesso facilitado, sou cliente dos mais assíduos - mesmo que apenas um café preto costume pedir. Quando rico, um cuscuz. O cuscuz é bom. O café tem que ser bem amargo, bem forte para acordar o corpo e o semblante de eterna sonolência que carrego.
Detenho a disposição fajuta do rapaz que vai à guerra por utopias vendidas. A cafeína é meu estandarte assim como a bandeira nacional o é para esse rapaz. Um legítimo vício. Em dias corridos sou capaz de ingerir meio litro do negrume amargo, ou, como diria Carvalho Filho, e em que pesem meus plurais: ''goles quentes de vida''.
Nas primeiras manhãs deste fevereiro tenho andado distraído; tomo a cadeira de alguma mesa afastada na padaria por assento, tomo a xícara branca de alça e borra amarelada ao fundo, tomo o café da xícara. Tudo desatento. As nuvens correm vagarosas puxadas por alguma corrente de vento que ignoro. Assim é vagaroso o ruminante e sua respiração nas pastagens escassas dos subúrbios. É vagarosa até a mulher apressada que passa presa ao telefone. Até a buzina e a aceleração do motor do caminhão de areia que corta a avenida me parecem vagarosas. Vagaroso é o
cenário que sou. Vagarosas as cenas que penso e o próprio pensamento. 
Hoje derramei boa parte do café sobre a mesa. Um pequeno desequilíbrio. Quase sujo uma antologia de cronistas modernos que trazia (um achado na Caixeiral) e o caderno particular de anotações, o que seria imperdoável.
Observo o gotejar do café no azulejo cinzento. Não se escuta o baque líquido das gotas. Mas... Uma, duas... Tenho gravada no crânio a lentidão dos astros e a imensidão. A morosidade que permeia o universo e que é tão contrária ao que se conhece. Mas a isto o combate é necessário. As lentidões são vermes do homem moderno. Reajo. Me utilizo dos prestativos guardanapos ao alcance. Seco o que posso, que é muito. Roberto traz o cuscuz de milho com queijo que lhe tinha pedido. É o atendente que me recebe com rara simpatia.
- Charlie Chaplin - que é como me apelida, talvez pelos bigodes e a confissão que lhe fiz sobre o curso de Cinema que pretendia em outros tempos -, aqui seu cuscuz. Vou passar o pano na mesa, levante os livros, por favor.
- Fala, Charlie Chaplin. Tudo tranquilo? - é recíproca a brincadeira. 
- Tudo muito bem. Falei de você ao Sr. Licurgo, aquele que me deu o ''Tempo & Tempo''...
A conversa segue por uns instantes. Ocultam-se as nuvens, os ruminantes, as mulheres de ensejo corporativo, os caminhões e os astros distantes. O riso é a emergência da alma, bem sabem os Chaplins do cinema e da padaria. A simpatia sincera tem o poder de emergir simpatia mesmo em taciturnos cronistas. Dá-se assim o enleio dos homens: de repente. E de repente o que passa lento passa a passar simplesmente. 
Sr. Licurgo vem ao longe com o caminhar cadenciado e a curiosidade daqueles que decifram a iminência de algo. Reconhece-me depois que o reconheço, acredito. Cumprimentos afáveis marcam as apresentações. Noto seu sotaque distinto de Brasil, de pertencente a lugares que desconheço e que conheço e que mesclam-se no branco dos cabelos que ostenta. Tem olhos pacíficos de um litoral morno.
- Li os dois primeiros capítulos de seu romance... - falei-lhe e teci elogios ao caráter fluído de sua linguagem e ao trabalho de pesquisa histórica para a execução do livro. 
E então conversamos sobre a escrita, viagens intercontinentais em caronas e, por bagagem, os limites de uma mochila, sobre ser estrangeiro. Despedimo-nos com promessas de contato - cumpridas, inclusive. 
Embora ainda seja o mesmo início de fevereiro e embora as manhãs não sejam minhas como são meus os abismos, guardo dos dias os momentos entre goles quentes de vida em que sinto o conforto das pequenas simpatias que me aparecem de repente. Além disso, guardo o que me concede a perícia para observar e aprender com os vermes dos homens modernos. 
Obs: O querido amigo Carvalho Filho cedeu-me permissão para anexar um poema de sua autoria que achei pertinente:
Café para dois 
Dedicado a Rosal

Tínhamos fé
Que a borra do café
Lida por aquela mulher
De perfil oriental
Dizia a verdade
- Os dois farão da Poesia
Seu ídolo a ser carregado
Em noites festivas de desespero
E alegrias na mesma xícara.
Por Carvalho Filho
*Escritor, cronista, acadêmico de Direito pela UESPI - Parnaíba, nascido em Teresina.
Edição: Mário Pires Santana

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Os comentários são de responsabilidade de seus autores, e não refletem, de maneira nenhuma, a opinião do redator deste portal.