segunda-feira, 19 de março de 2018

Caro amigo Ernesto,

Sonhar sempre! Um dia terei notícias suas pelas bandas de Santiago de Compostela. Não duvido, não! Naqueles caminhos, o Campina (pseudônimo do dileto amigo) vai cantar entre as matas da Galícia e, certamente, trocará boas prosas com os companheiros de viagem no Monastério de Samos. O importante, como diz o poeta, “é estar além da terra, além do céu, no trampolim do sem-fim das estrelas, no rastro dos astros, na magnólia das nebulosas” (Drummond, Além da terra, além do céu). 
Depois de tudo, você será outro. Outro ser, um pássaro. Com esposa, filhos e netos, fará viagens intercontinentais. Juntar-se-ão a vocês muitos bandos (famílias) em aventuras sem fronteiras. 
Para cada viagem, uma peça musical executada por debaixo das nuvens, em pleno Sol ou varando o arco-íris. As árvores acolhedoras para o descanso noturno embalançarão, parecendo inebriadas com os últimos acordes do dia agonizante. Quanta honra por atrair orquestras sinfônicas de prestígio universal! As peças musicais de Mozart, Beethoven e Tchaikovsky estão em outra dimensão. Impossível compará-las. Têm um jeito diferente, pois, entre pássaros, inexiste a sedução do ouro ou da prata, do poder ou da vaidade. Simplesmente cantam por cantar. 
Há, no entanto, algumas preocupações fundamentais, entre elas os pontos de encontro e a beleza da plumagem. O lugar preferido dos pássaros é o Promontorium Sacrum (Promontório Sagrado), localizado a sudoeste de Sagres,

no Algarve. Lá, há a confraternização geral, a percepção do campo magnético terrestre para novas empreitadas, seja ao norte da África, por exemplo, ou no litoral do Nordeste brasileiro. É o sítio preferido para embelezamento de plumagens. Exatamente no Delta do Parnaíba, juntam-se aos Guarás e se alimentam de caranguejo e camarão, que propiciam a eles plumagem exuberante de cor vermelha. 
Quando isso acontecer, vou ficar muito triste. O abraço caloroso do amigo de sempre foi trocado por asas planadoras. A voz estridente se transformou em canto afinadíssimo. Vazio abissal! Quem sabe um dia, senão, ave marinha, serei pelo menos um passarinho a passarinhar.
Laicrogos Negromonte
Edição: Mário Pires Santana

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