sábado, 10 de março de 2018

CONTRASTE

Por Laicrogos Negromonte

Ali, no chão, encostado numa coluna rica, revestida de vidro, as pernas abertas, expostas, apesar de alvas, quase negras, impregnadas de ceroto malcheiroso. Boca aberta, olhos fechados. O companheiro, aflito, batia em seu rosto com o intuito de acordá-lo. Parecia anestesiado ou em pleno êxtase. Com os sopapos, os braços arriaram, entre suas mãos deslizou um saquinho de papel, com bordas arregaçadas, cheio de pó branco. Tão jovem! Pela aparência, não passava de uma criatura delicada, frágil. Apesar de sujo e maltrapilho, era dotado de formosura angelical. Vítima de sociedade egoísta ou fruto de criação desequilibrada? Neste fevereiro folião, talvez venha a propósito o samba-enredo da Beija-Flor (2018): 
“Carente de amor e de ternura 
O alvo na mira do desprezo e da segregação”. 
Os passantes, indiferentes, viravam o rosto, não queriam ver. Essas pessoas são tementes à lei de Deus, ah sim, sem dúvidas: amar ao próximo. Neste caso, não vem ao caso. 
Na última mesa da padaria, num cantinho reservado, o outro jovem rodeado de cadernos, de papéis e de livros por todos os lados. O mundo, naquele momento, não lhe pertencia. Estava absorto em seus pensamentos. Os únicos pontos de ligações com os sentidos humanos eram a caneta entre os dedos, o papel ofício tocado pela mão esquerda e o olhar iluminado, muito distante. Escrevia em prosa ou, talvez, em versos. Guardava aparência de intelectual. Com certeza, um jovem universitário. Ao lado da xícara com café e leite, sachês de açúcar e um petit gâteau, bem diverso daquele saco roto com bordas arregaçadas. Chamava a atenção seu legítimo Chapéu Panamá Cuenca. Com pães e biscoitos na sacola, uma jovem loira deparou-se com aquele quadro fascinante, olhou discretamente, seguiu em direção ao seu carro, entrou, fitou diretamente seus lábios carnudos, disse: 
- Gato! 
Destinos que não se cruzam. De um lado, o mundo pequeno que se resumia naquele saco de papel grosseiro. Vida sem vida. Do outro, a liberdade infinita, o universo do saber ultrapassando todas as fronteiras possíveis e imagináveis. Quanta diferença! 
O garçom se aproximou timidamente: 
- Mais alguma coisa, doutor? 
- Traga-me um café expresso. 
- Sim, senhor. 
Na cozinha, o mesmo garçom recebeu ordem do gerente: 
- Fale para aqueles dois vagabundos marcharem para outro lugar. Eles estão incomodando nossos fregueses. 
Constrangido, o jovem garçom foi cumprir a espinhosa determinação e, para seu espanto, recebeu um não estridente: 
- Não, não vamos sair daqui. Nós temos os mesmos direitos dos outros. Traga uma mesa e duas cadeiras, queremos café com leite e aquele petit gâteau. Dois, por favor. 
Diante de tal espetáculo, o jovem “doutor” levantou-se, olhou, mas não conseguia ver a cena, parecia perdido entre as letras de Manoel de Barros ou, quem sabe, de Dostoiévski. 
Edição: Mário Pires Santana

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