sábado, 3 de março de 2018

Nepotismo, uma lição da história

Floriano enfrentava a dura oposição da “Revolta da Esquadra” e da “Revolução Federalista” com a firmeza que dele fazia, no julgamento da História, o “Consolidador da República”.
Por Carlos Claudio Miguez
      Marechal Floriano Peixoto/Foto/Reprodução
Para preencher claros nos quadros das forças terrestres, mandou comissionar, como alferes, sargentos de tirocínio militar comprovado, com indicação dos seus respectivos comandantes.
As relações desses graduados a ele eram apresentadas para decisão e ato formal de acesso. Uma das relações continha o nome de certo sargento. Ninguém menos do que um filho de Floriano Peixoto, sargento conceituado e que aspirava fazer carreira no Exército. Floriano aprovou todas as indicações da tal lista, exceto a do filho. Fez-se surdo às ponderações de que o nome do seu filho ali estava não porque fosse Floriano o seu pai, mas pela razão das qualidades pessoais e profissionais do proposto. Acrescentou, na ocasião, Floriano que o sargento tinha uma limitação intransponível para ser graduado alferes --- era ele filho do Presidente e responsável pelas graduações. O filho de Floriano permaneceu sargento e, adiante, desligou-se do Exército. Não lhe foi fácil a vida civil. Até de artista circense trabalhou para ganhar a vida. Aqueles sargentos outros que foram graduados alferes --- e eram tantos que os atos de suas promoções ficaram conhecidos como a “Panelada dos Alferes” --- foram, com a pacificação,
efetivados nos postos e ascenderam na carreira, nos últimos postos hierárquicos. Na década de 20 do século passado, eram coronéis, os chamados “Coronéis de Floriano”.
O escrúpulo de Floriano tolheu o futuro do próprio filho e que se poderia ter beneficiado, com as leis de amparo promulgadas por Prudente de Morais, da permanência no oficialato da carreira. Permanência de decorreria de mérito pessoal.
Vem a propósito esse escrúpulo de Floriano, em face do nepotismo que prospera na vida pública brasileira, tão escandalosamente. Nepotismo cínico, admitido e defendido por quantos, sem pejo, investidos do poder de nomear, transferem o sustento da família, ex-familiares, amigos, cabos eleitorais, parceiros de empreendimentos, para os cofres públicos. Sem que no mínimo se considerem capacitação ou experiência de atividades naquilo para que são nomeados. Mais íntimo o vínculo afetivo, melhor a remuneração de cargos comissionados.
Floriano resguardou-se de avaliações de favorecimento, resguardando, também, o nome do filho. Mais de um século passado, tal comportamento será julgado como tolo ou perda de oportunidades que não se repetem. 
A ética é outra ou não há ética ou é a ética predatória. Às arcas do erário, pois! Até quando?
*Este belo artigo foi escrito pelo jornalista Carlos Claudio Miguez, no jornal Inconfidência, editado em Belo Horizonte-MG. Pedimos permissão para publicá-lo aqui, pela sua contemporaneidade.
Edição: Mário Pires Santana

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