domingo, 25 de março de 2018

O TERRITÓRIO DO SAMBA

"Noel é elemento central não apenas na compreensão da música popular brasileira, mas ele figura no panteão máximo de toda a cultura brasileira. Suas letras são mais valiosas para a compreensão do país e do Rio de Janeiro da década de 30 que a maioria dos tratados sociológicos que possam ter almejado essa tarefa. Essa é a força descomunal da arte: ela supera a ciência como fonte narrativa e de referência", diz Gustavo Conde, que dedicou o quarto pocket show da resistência democrática ao poeta da Vila.
Por Gustavo Conde

Noel teve um parto difícil. Nasceu a fórceps. Sua hipoplasia também lhe marcou pelo resto da curta vida. O queixo mal desenvolvido, contudo, parece ter lhe dado mais personalidade e inteligência do que propriamente uma condição social de pária estético. A silhueta de Noel se tornou um ícone, uma imagem musical, um sinônimo visual de delicadeza, uma marca singular de beleza
associada à vivência.
Noel, em 26 anos de vida, namorou mais do que muita gente em 100. Sua boemia associada ao talento narrativo constituiu uma coquetel explosivo de criação. Foram 300 músicas em 6 anos. Ouvir Noel Rosa é ser transportado para o Rio de Janeiro de 1930, mas é ser também transportado para um universo único, composto de samba e de Vila Isabel.
O poeta da Vila deu vida às personagens populares: a operária, o trabalhador, o alfaiate, o gago, o garçom, o cliente, o sambista, o playboy, o bacharel do morro. Sua origem classe média (na verdade, classe trabalhadora, pois seus pais eram singelos comerciantes) o permitiu ingressar na faculdade de medicina, mas sua veia boêmia e popular o arrastou para o botequim (para a nossa felicidade).
Essa injunção também colaborou para a singularidade de sua música: o compositor é "bem nascido", mas não se deslumbrou com as fragilidades de se portar uma falsa cultura erudita, enxergando beleza com muito mais facilidade e amplitude no cotidiano do trabalhador que vai ao bar tomar a sua cervejinha.
Noel é o Maikóvski à brasileira, o revolucionário malandro. Aquele que desdenha a fria origem aristocrata e mergulha no calor da vida real urbana, passional, complexa, intensa. Desse eixo existencial, construiu seu amor profundo pela Vila e pelo samba.
Patente também é seu amor e seu respeito pelo "outro", pelo "ser social" que habita as noites do centro e da periferia. Noel Rosa visualiza e permite visualizar toda a humanidade que atravessa a vida de um cidadão comum.
Esse traço, na visão do jornalista Leonardo Attuch, é impregnado de sentido político, pois o poeta da Vila se aproxima do povo e passa a fazer parte deste povo, experimentando as dores, as paixões, as frustrações e os desejos que permeiam todo o imaginário popular: a falta de dinheiro, os desafios mútuos em registro de troça, a paixão pelo samba, a identificação com o morro e a ocupação do mais importante e crucial espaço urbano, coração de toda e qualquer urbanidade: o bar.
Poder-se-ia dizer também que o samba de Noel Rosa foi puro rock'n'roll. Se Janes Joplin morreu com 27, Jimmy Hendrix morreu com 27, Jim Morrinson Morreu com 27, Brian Jones morreu com 27, Kurt Cobain morreu com 27, Amy Winehouse morreu com 27, Noel Rosa morreu com 26. Até nisso ele foi original.
Noel é elemento central não apenas na compreensão da música popular brasileira, mas ele figura no panteão máximo de toda a cultura brasileira. Suas letras são mais valiosas para a compreensão do país e do Rio de Janeiro da década de 30 que a maioria dos tratados sociológicos que possam ter almejado essa tarefa. Essa é a força descomunal da arte: ela supera a ciência como fonte narrativa e de referência. Já diriam os melhores e mais insuspeitos historiadores: se quiser conhecer a Inglaterra vitoriana, vá ler Oscar Wilde.
Noel organizou a "massa disforme" que era a música popular até a década de 20. Até 1920, a música popular era feita basicamente só de refrão. Eram marchinhas de carnaval e proto-sambas. Noel inseriu a primeira e segunda partes e o refrão soberano, organizado, que "puxa" a massa de sentidos que dançam - ou sambam - na canção. Foi um inovador, que definiu toda a música brasileira que lhe sucedeu.
O poeta da Vila e do samba devastou a vã filosofia do malandragem ingênua que imperava nas noites cariocas. Na polêmica com Wilson Batista - que teria menosprezado a Vila Isabel - compôs "Palpite Infeliz", clássico absoluto de todo e qualquer cancioneiro nacional.
Para a origem do samba, o misto de tristeza e alegria, subscrito na paixão pela Vila, elaborou "Feitio de Oração", uma samba-cadente de profunda beleza melódica e delicada dicção narrativa, recheada de cápsulas filosóficas e apelações passionais-existenciais.
Lidou com a projeção simbólica de sua deformação facial para outro estereótipo social, com extrema elegância, delicadeza e domínio assombroso da métrica: compôs "Gago Apaixonado", uma das obras-primas da canção popular.
A obsessão pelo tema da vestimenta o fez compor "Tarzan, o filho do alfaiate". Trata-se, formalmente, da simplicidade dos temas pouco ambiciosos que, ao final, tornam-se tratados sociológicos - por, justamente, lidar em samba, com tanta leveza e naturalidade, com práticas sociais pouco valorizadas.
A admiração pela mulher operária resultou em "Três Apitos". "Conversa de botequim" pode ser caracterizada como um tratado do nosso escravagismo endêmico, de maneira crítica e muito inteligente: o cliente que massacra o empregado (o garçom) com sua lógica de patrão.
Evidentemente, Noel defende o garçom com seu corrosivo bom humor em forma de desdobramento enunciativo: a voz que dali emerge não é a do cliente mal educado, mas faz alusão indiretamente a essa herança social de nosso espírito escravocrata.
O tema da vestimenta no corpo social que se "cobre" para significar (Com que roupa?), o drama da perda (Último desejo), o amor incondicional e tocante à Vila Isabel (Feitiço da Vila). Noel é um manancial de intensidades e de (des)acelerações narrativas - quando ele fala da Vila, ele se torna menos engraçado e mais emotivo; quando fala dos amigos, cai no senso apurado e inteligente do humor trocadilhesco e linguístico.
Noel era impetuoso em lidar com os sentidos. Não se rendia a convenções. Furava blocos inteiros de clichês idiomáticos e fazia deles sua matéria-prima. Daí sua força. Seu uso verbal – a dimensão das ações concretas ou psicológicas – é singular.
Ele se apodera do regime semiótico e das cifras de extensão e duração dos elementos verbais e os re-molda à sua maneira: "Vou me defendendo", ""sorrir de nostalgia". Trata o coloquialismo com extrema elegância e rigor poético, dando às canções sempre um verniz raro de apuro estético ao mesmo tempo em que as mergulha na dimensão popular.
O samba é o centro irradiador de todo o sentido de Noel. Se ele pudesse se transformar em outra coisa, ele se transformaria em samba. E não é o samba concreto apenas, é o samba no conceito. Da mesma maneira que Louis Armstrong entende que o jazz não é um "o quê", mas um "como", Noel concebe o samba. O samba, para Noel, é muito mais que um gênero. É uma paixão, um sentimento, uma filosofia, um norte, um território. O Território Noel Rosa.
Fonte: Brasil 247
Edição: Mário Pires Santana

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