quinta-feira, 15 de março de 2018

TABULEIROS LITORÂNEOS E OS CUPINS DE TERRA

POR *JOSENILTO LACERDA VASCONCELOS
O Perímetro Irrigado Tabuleiros Litorâneos, com apenas 15% de sua área produtiva em atividade, já causa forte impacto sócio econômico na região norte do Piauí. São muitos números positivos: 1200 ha em plena produção, 800 ha em implantação, 800 postos de trabalho diretos e 1200 indiretos (cada emprego gerado na irrigação gera 1,5 empregos em outras atividades locais), 30 milhões de faturamento anual e mais de meio milhão arrecadado ao Estado de ICMS só com energia elétrica. Num raciocínio rápido e simples, todos esses números poderiam ser multiplicados por 6,7 vezes se o projeto estivesse em sua plenitude produtiva. Muitos são os fatores que levam esse “elefante pardo” a seu lento caminhar. Destaco alguns aspectos: a fraca atuação das lideranças locais e estaduais (públicas e privadas) em prol do projeto; a absoluta incapacidade do DNOCS em resolver os problemas atinentes ao desenvolvimento do projeto, sendo a inconclusão das obras que já se arrasta há 30 (trinta !!!) anos o mais emblemático; o apoio formal e informal de políticos a invasão de áreas do perímetro pela população periurbana de Parnaíba e municípios adjacentes; o alto custo e a baixa qualidade dos serviços e da energia elétrica fornecida pela Eletrobras Piauí. Com tudo isso a ser superado, muitos ainda “teimam” em produzir por aqui, atraídos pelos solos adequados à irrigação, a grande disponibilidade de água do Rio Parnaíba, a localização eqüidistante de três capitais (Teresina, Fortaleza e São Luís), em uma cidade de porte médio, litorânea e com bons serviços de saúde, educação e habitação.
A rotina de desafios ganhou mais um recente capítulo: uma emenda parlamentar da Deputada Federal Iracema Portela, contemplou uma associação comunitária do Povoado Baixa da Carnaúba em Parnaíba, com um trator e implementos novos, além de arame e estacas. Especula-se que a referida associação foi ressuscitada exclusivamente para esse fim, pois todo o processo foi conduzido por um conhecido cabo eleitoral da comunidade e a mesma não tinha nenhuma atividade anterior. Naturalmente a entrega dos equipamentos se deu com muita pompa e circunstância e com os mais edificantes discursos de utilidade e contribuição ao desenvolvimento social daquela ação. Uma rápida checagem no quadro social poderia identificar que ali não constam assentados da reforma agrária, pequenos proprietários rurais ou irrigantes. Nada disso. Eis que a maior serventia do equipamento e seus implementos vem se dando para invadir terras da segunda etapa dos Tabuleiros Litorâneos pelos membros da associação, com o conhecimento do DNOCS e sem que os irrigantes (que atualmente mantêm o projeto funcionando a duras penas), através do Ditalpi, possam fazer nada para impedi-los. Essa ação afugenta pretensos investidores bem como embaraça por completo a conclusão das obras da segunda etapa se um dia elas viessem a serem concluídas. É uma situação de conhecimento público.
Nesse momento onde não há recursos públicos para conclusão das obras e todas as grandes empreiteiras estão envolvidas em processos de corrupção, a saída viável, prática e concreta a ser buscada é uma Parceria Público Privada - PPP para conclusão das obras e instalação de novas áreas produtivas. Já chega de desperdício de recursos públicos e de apatia frente a tanta oportunidade de desenvolvimento. Não se admite em sã consciência, que uma obra relativamente pequena e de alto impacto no desenvolvimento, leve 30, 40 anos para ser concluída. Obviamente que uma PPP não interessa aos políticos fisiologistas, mas também a sociedade está de “saco cheio” de políticos fisiologistas. 
É preciso formatar uma proposta a partir de outras experiências. Se o DNCOS não se interessar por formatar (o que é muito provável), é preciso que as instituições que têm relação direta com o projeto assumam esse protagonismo. É preciso que os interesses maiores da sociedade se sobreponham aos interesses menores de grupos políticos, sejam eles quem forem. É preciso que aqueles que tenham algum compromisso com o desenvolvimento se juntem para fazer gestões junto ao Ministro da Integração Nacional nessa direção. Do contrário, em poucos anos, o que era pra ser um cluster de produção agropecuária irrigada sustentável, de alta produtividade, moderno, pode se tornar um local ocupado por verdadeiros cupins de terra.
Foto: Reprodução
*Josenilto é agrônomo e Irrigante nos Tabuleiros Litorâneos. Produtor da cajuína orgânica, CRISTAL.
Fonte: Facebook do Autor
Edição: Mário Pires Santana

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