segunda-feira, 12 de março de 2018

Um café no Paraíso

Por *Socorro Brasiliense

O casal foi ao Juiz pedir a anulação do casamento por incompatibilidade intelectual. Contaram a seguinte história. O homem havia ido a um Café Literário muito frequentado no centro da cidade. Entre uma leitura e outra foi ao bar, pediu um capuccino e avistou na outra mesa uma mulher de beleza estonteante. Quando seus olhos encontraram-se, foi amor à primeira vista. Paixão fulminante e incontrolável. Depois de uma breve apresentação foram direto ao motel. Após o mágico encontro, naquela mesma noite concluíram que haviam sido feitos um para o outro. Em três meses estavam casados contrariando suas famílias. Uniram-se sem muitas formalidades enquanto seus pais queriam uma festa mais pomposa, já que os dois eram filhos únicos. Por que tanta pressa? Disse a mãe dela. Vocês ainda não se conhecem bem. Acrescentou o pai dele. Mas, como diz o provérbio inventado: Quando temos óculos com fatias de presunto no lugar das lentes, tudo parece belo e delicioso.
Até aí tudo bem. Para coroar a união de um casal tão culto, ele decidiu e ela concordou que a lua de mel teria que ser na exótica e misteriosa China. O casamento relâmpago deixou amigos e parentes boquiabertos. Os dois seguiram viagem para Pequim. Vinte horas de voo ininterrupto. Ela, morta de cansaço, ele eufórico, realizava seu sonho de criança. Transformado em Marco Polo nem
sentia o jet lag.
Na capital chinesa fazia muito calor e o clima deles mais quente ainda. A temperatura aumentava em todos os sentidos até o primeiro passeio. Mais de seis quilômetros ao longo das subidas e descidas da Grande Muralha, uma das sete maravilhas do mundo antigo. Ele calçando tênis, acostumado a longas caminhadas e ela de salto alto stiletto como costumava desfilar nas passarelas de Roma, Paris, Nova York e Milão, ficou revoltada com o programa chinês de índio. A ficha começava a cair.
Muito empolgado, no dia seguinte, ele propôs a segunda aventura. Uma viagem de seiscentos quilômetros num ônibus desconfortável por um percurso horrível para ver o milenar exército de terracota de cinco mil soldados. Ele extasiado com tanta beleza e aprendizado, vendo o que apenas conhecia pelos livros e ela exausta e entediada.
Antes de chegarem ao hotel ela já havia decidido voltar imediatamente ao seu país e reverter tal situação. Nada disso estava nos românticos planos de amor e lua de mel tão sonhados por ela. Ele não entendeu nada e ficou muito triste por ter de interromper uma viagem tão culta e interessante, frustrado por não realizar seu sonho dourado de conhecer a Cidade Proibida no centro de Pequim. Tremenda desilusão para os dois.
Muito irritada ela desceu para fazer o check out enquanto ele arrumava as malas. Curioso, percebeu pela primeira vez que além das roupas ela só levava acessórios e produtos de beleza. Leituras mesmo, só revistas sobre celebridades, horóscopo e magia. Do ponto de vista dele, coisas incompatíveis com uma bela mulher inteligente. Pensou, sendo católica, como pode acreditar em adivinhação? Mas as surpresas dele não terminaram por aí. Achou um livro de autoajuda: “Como conseguir um bom marido cozinhando bem no micro-ondas”.
Ao voltarem da viagem decidiram ir ao Tribunal. Na primeira audiência o Juiz perguntou a ele: Quando casaram, vocês nada sabiam um do outro? Ele respondeu: Pensei que o Café Literário só era frequentado por amantes da boa literatura. Então perguntou à ela: Quem induziu vocês a tomarem o café do bem e do mal? Ela respondeu: Uma caríssima amiga que convidou-me e disse que era um lugar legal, onde circulavam muitas pessoas, inclusive belos homens interessantes e excêntricos mas meio doidinhos. Como sou exigente, imaginei que talvez encontrasse ali minha alma gêmea, meu príncipe encantado.
A sentença do Juiz é a moral da fábula: O casal precisa de juízo e não de juiz. Uma terapia é mais recomendável do que a simples anulação do matrimônio. O caso é sui generis, porém mais comum do que se pensa. Um homem inteligente deveria ser menos machista, egoísta e intolerante. Da mesma forma uma mulher não pode ser subestimada por pensar diferente. As aparências enganam aos que odeiam e aos que amam, já dizia o poeta.
Conclusão nem tão óbvia: Parece ter surgido no Café Paraíso uma nova espécie até então desconhecida, os sapiens sexualis e seus cérebros erotizados, apaixonados não apenas pelo corpo mas por tudo que a fantasia pode inventar, aumentando assim a esperança de uma chance para o amor.
*Socorro Brasiliense (Escritora)/Da Plataforma Cultural do SESC
Edição: Mário Pires Santana

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