segunda-feira, 2 de abril de 2018

Edificação cultural sobre areias movediças da vulgaridade

É decepcionante e causa muita indignação e tristeza assistir pessoas bem educadas e bem formadas descer o nível nas redes sociais. Aliás, “descer ao nível”.
Por Miguel Dias Pinheiro, advogado

O escritor francês Jean de la Bruyére nos deixou a máxima de que “há pessoas com certo estofo ou caráter com as quais nunca devemos nos meter. Das quais não devemos nos queixar. E contra as quais não nos é permitido ter razão”. Aconselhou para que diante de uma pessoa tola o melhor será fugir para o oriente quando ela estiver no ocidente.
“Se o ‘mala sem alça’ quer jogo sujo, temos de descer ao nível dele” não será o melhor discernimento para uma decisão. Porque, segundo ainda o escritor, “há apenas duas maneiras de obter sucesso neste mundo: pelos próprios hábitos ou pela incompetência alheia”.
É muito importante que pessoas bem formadas intelectualmente elevem o nível das discussões e opiniões nas redes sociais como regra, como missão. É injustificável que estimulem o “lado negro” das ferramentas mais importantes no mundo moderno.
Segundo o psiquiatra suíço Carl Jung, pai da psicologia analítica, “o mal tem existência real. Em alguma instância, consciente ou inconsciente, ele está em nós e sua atuação pode ser devastadora”. O que ocorre, hoje, com determinadas “pessoas estudadas” nas redes sociais é um acinte à inteligência. “Atualmente, o que mais causa asco em qualquer debate nas redes
sociais é a total falta de respeito ao conhecimento acumulado. Neófitos ou mesmo ignorantes de maior monta, incapazes de conseguir ler e interpretar um texto, colocam-se em pé de igualdade com professores, pesquisadores ou estudiosos de qualquer – vou repetir: qualquer – assunto. Cavalgaduras desfilam relinchos, desqualificando especialistas, com uma autoridade de fazer tremer a mais competente cátedra. (...) No meio da confusão, a opinião de mestres, doutores, pensadores, cientistas perde peso e vira “mais uma” no poço sem fundo do senso comum ornado de lápides de lógica, iniciadas pela inabalável frase “eu acho que…”, analisa o sociólogo Demétrio Andrade.
Verdadeira e inapelavelmente, prestam um desserviço às atuais e próximas gerações quando essas pessoas disseminam o incorreto, o vulgar e o absurdo nas redes eletrônicas. Nem me reporto aos sacripantas! Estes, além de indesejáveis são até perdoáveis pela debilidade intelectual. Mas, aos escolarizados, de formação colegial e universitária! Porque, segundo o escritor e filósofo italiano Umberto Eco, as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis: "Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.
Pior de tudo! Cada frase, comentário ou opinião postada por certas “pessoas estudadas” pode, inclusive, acarretar uma série de críticas e discussões totalmente sem sentido, sem nexo. Críticas à aparência, não ao comportamento; críticas visando à humilhação, não à melhoria;... Enfim, asneiras insuportáveis!
O PHD Steven Stosny, autor de diversos livros relacionados à fúria e problemas de relacionamento, fundador do programa Compassion Power (Poder Compaixão), explica que as pessoas mais críticas geralmente sabem que a crítica que não é construtiva não funciona, mas continuam fazendo como uma forma de defesa do ego. As pessoas mais críticas também tendem a ser mais facilmente insultáveis, sendo que gostam de criticar, mas em geral não aceitam críticas, e é aí que começa toda a confusão.
Façamos, pois, uma reflexão! Porque se “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade (Joseph Goebbels)”, quando compartilhada nas redes sociais então pode se tornar uma sentença de “morte moral”.
Textos de baixo nível, contendo infâmias ostensivas, conclamando seguidores a ações antidemocráticas, usando uma linguagem primária e desprovida de lógica, transformando um espaço tão importante para discussões saudáveis em “arena da irresponsabilidade” e para a apologia ao crime, não constrói para o futuro. Isso porque, segundo Gomá Lanzón, “a prazerosa vulgaridade se instalou na nossa cultura. É impossível edificar uma cultura sobre as areias movediças da vulgaridade”.
O jurista e ex-magistrado Luiz Flávio Gomes faz uma indagação e ele mesmo responde: “Qual a saída para isso? Temos que reformar nossa prazerosa vulgaridade e isso pode ou deve ser feito, sobretudo, por meio da exemplaridade. Seja exemplar para seus filhos, para sua família, para seu bairro, para sua cidade, para seu país. Uma nova paideia (educação cívica) tem que ser dirigida à exemplaridade”. (...) Do “Penso, logo existo” passamos para o “Existo ou apareço (com minhas postagens), depois eu penso”. É a negação completa do pensamento do filósofo Descartes”. Com a massificação teve início o desaparecimento do bom gosto e dos bons costumes.
Fonte: Portal AZ
Edição: Mário Pires Santana

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