quinta-feira, 5 de abril de 2018

Mergulhamos numa longa noite de arbitrariedades

Mergulhamos ontem numa longa noite com cara de passado, com palavras que eu queria que estivessem mortas, com generais fazendo ameaças condenadas no mundo todo, com o rosto de uma década que não vivi mas que pesquisei exaustivamente e cujos relatos me dão calafrios. Mergulhamos numa loga noite de arbitrariedades, cuja aurora não sabemos quando e se virá. 
POR *LÚCIA HELENA ISSA
 
Você que hoje celebra a eventual prisão de um brasileiro sem que haja PROVAS cabais contra ele, tem noção de que a nossa Constituição foi rasgada por quem deveria defendê-la? Você tem noção de que assistimos ontem a um espetáculo midiático, em que um grupo de homens e mulheres de preto negaram a um cidadão brasileiro um direito que deveria ser de todos, o de se defender em liberdade até a última instância?
Você tem noção de que assistimos a um espetáculo midiático em que a sagrada presunção de inocência foi violentada? Você tem noção de que assistimos a um espetáculo midiático que está sendo repudiado em vários países do mundo?
Você tem ideia de que o Fascismo na Itália começou negando as liberdades individuais, matando a esperança e sequestrando os direitos civis? 
Você tem ideia de que ao pautar o julgamento de um Habeas Corpus antes de apreciar ações que se referem a presunção da inocência, a presidente do STF agiu como se nós já vivêssemos em um regime de exceção?
Você tem ideia de que o perímetro da liberdade de todos nós e o perímetro do direito de defesa foram mutilados ontem? 
Você que hoje posta, ao lado da fotinho de Nossa Senhora, de Jesus ou ou do seu santo de devoção, frases de ódio, de pura barbárie e sede de sangue, tem noção de que vivemos um momento de selvageria e que seu comportamento é de um cristão hipócrita? 
Como jornalista, já critiquei algumas atitudes de Lula e já aplaudi seu imenso legado na luta para que os mais pobres tivessem as mesmas oportunidades que eu tive ao nascer. Foram criadas 18 universidades e esse legado é maravilhoso, foram feitos programas sociais e de alimentação que representam para muitos de nossos irmãos a diferença entre viver e morrer. Mas eu também já me decepcionei, já critiquei, e já constatei as mudanças positivas imensas no Brasil quando voltei a morar aqui, depois de 6 anos na Europa. 
Independentemente de ideologias, sinto que hoje retrocedemos como nação, mergulhamos nos anos 60, numa década que eu não vivi e da qual ouço, leio e vejo depoimentos tenebrosos. Mergulhamos num clima de 1964, só que sem as calças bocas de sino, sem os vestidos psicodélicos, sem as músicas de Hendrix, e The Doors, sem liberdade e sem Martin Luther King. 
Não me peçam para celebrar isso.
*Jornalista, escritora e ativista pela paz. Foi colaboradora da Folha de S.Paulo em Roma. Autora do livro "Quando amanhece na Sicília".
Fonte: Brasil 247
Edição: Mário Pires Santana

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