sexta-feira, 20 de abril de 2018

Minha carta ao Lula por *Luciana Hidalgo

*Luciana Hidalgo é uma premiada escritora brasileira reconhecida com prêmios internacionais*; leia aqui a carta que ela mandou para o Lula. É longa mas leia toda.

Querido presidente,
*O que o senhor fez no Brasil foi uma revolução*.
*NÃO* uma *Revolução Francesa*, que guilhotinou cabeças da realeza para exigir na marra liberdade, igualdade, fraternidade. Não, o senhor não cortou cabeças, nem expulsou ricos de suas propriedades privadas como a *Revolução Russa*, tampouco roubou a poupança das classes abastadas (como aquele presidente eleito no Brasil em 1989 roubou). O senhor manteve as elites ricas e contentes, mas foi mexendo dia após dia nos mecanismos de poder que excluíam perversamente os pobres da nossa sociedade e negavam o que todo país decente deveria garantir: sua cidadania, isto é, sua dignidade.
Por isso, de início, querido presidente, seus microgestos, sutis, pouco saíam nos jornais, mas abalavam gradativamente as estruturas viciosas do poder. Sou leitora de *Michel Foucault* e atesto que *o senhor fez genial e intuitivamente, na prática*, num país periférico e violento, muito do *que esse célebre filósofo francês teorizou sobre micropoder*. O senhor modificou, programa após programa, a microfísica do poder no Brasil.
Explico como: logo de início o senhor abriu crédito para ajudar pobres a comprar eletrodomésticos básicos; subsidiou a compra de tintas e materiais para que construíssem suas casas; criou o Banco Popular, ligado ao Banco do Brasil,
permitindo que pobres tivessem conta em banco; levou iluminação elétrica aos recantos rurais mais atrasados pela escuridão (Luz para Todos); criou o Bolsa Família, tirando 36 milhões de brasileiros da miséria e obrigando seus filhos a voltar à escola; levou água para milhões de brasileiros que sofriam com a seca no interior semiárido (programa Cisternas, premiado pela ONU); inventou Minha Casa Minha Vida, distribuindo moradias Brasil afora; criou Farmácias Populares que vendiam medicamentos com descontos para a população de baixa renda; implementou cotas raciais e sociais em universidades, contribuindo para que jovens negros e/ou vindos de escolas públicas pudessem estudar e no futuro talvez escapar de serem assassinados nas ruas do Brasil; implantou o Prouni (Universidade Para Todos), oferecendo bolsas para alunos de baixa renda estudarem em faculdades particulares; aumentou o salário-mínimo acima da inflação; etc.
*Não me beneficiei pessoalmente* de nenhum dos seus programas sociais, querido presidente. *Sou brasileira privilegiada*, nascida numa classe média da zona sul carioca. Fui jornalista nas maiores redações do Rio (Jornal do Brasil, O Globo, O Dia), depois virei escritora (premiada com dois Jabuti), *fiz um doutorado e dois pós-doutorados em Literatura, na Uerj e na Sorbonne*. E é justamente por isso, por tudo o que li, vi e aprendi, sobretudo *na França onde morei durante anos*, que posso dizer: *países europeus só se desenvolveram porque aplicaram e aplicam projetos como os seus*. Na França, por exemplo, o salário-mínimo é de uns R$ 4 mil (graças a décadas de greves e manifestações de trabalhadores “vândalos” por melhores salários); o seguro-desemprego dura de dois a três anos para que o desempregado não caia na miséria; há “locações sociais” que garantem moradia aos menos privilegiados; todos os remédios receitados nos hospitais públicos são dados ou subsidiados pelo governo etc.
O problema, querido presidente, é que *quando uma parte da elite brasileira visita Paris, só vê a grande beleza*. Finge não ver que *aquela beleza só se sustenta graças à aplicação justa de impostos*. Sim, as classes mais abastadas lá têm consciência política, *sabem que o equilíbrio social depende delas*. No Brasil não. Tem brasileiro que gasta milhares de euros em turismo na França e na volta *reclama dos R$ 300 dados mensalmente aos beneficiados do Bolsa Família*.
Sim, querido presidente, *é difícil entender a mentalidade desses que frequentaram os melhores colégios particulares do Brasil*. Até entendo, já que eu mesma cursei um dos melhores colégios particulares do Rio e não aprendi grande coisa. Lá não havia disciplinas como Literatura ou Filosofia, por exemplo, que nos ajudariam a ter um pensamento mais crítico. Que pena.
*Só aprendi o que era o mundo quando comecei a encarar a miséria do meu país* de frente em vez de virar a cara ao passar por ela na rua. Ainda na adolescência participei de um grupo que dava comida para os sem-teto no Rio e pude ouvir suas comoventes histórias de vida. Depois virei jornalista e passei a ouvir mais pessoas, das mais variadas origens, das favelas, dos interiores, e suas justas reivindicações.
Portanto, saiba, querido presidente, que não só o povo beneficiado pelos seus programas sociais está ao seu lado. Somos muitos escritores, artistas, professores de escolas e universidades, pessoas premiadas, com títulos, das mais diversas profissões. Justamente por termos lido tanto (livros, não apenas jornais e revistas), viajado, justamente porque conhecemos o Brasil profundo, entendemos a grandeza do que o senhor fez. Nós também somos esse povo.
Aliás, há inúmeros políticos, historiadores, intelectuais estrangeiros nas maiores universidades da Europa que também o admiram. E se escandalizam, por exemplo, quando ouvem comentaristas brasileiros dizerem de forma tão elitista que o eleitor de Lula é “povão”, “nordestino”, “ignorante”, “petista”, “lulista”, “petralha”, “fanático”. Intelectuais *estrangeiros se chocam com a criminalização de pobres, negros, índios e da própria esquerda no Brasil*. E também se chocam quando o xingam de “populista”, como se o senhor usasse o povo. Ora, ora, mas o senhor é o povo.
No mais, querido presidente, não entrarei no mérito do seu julgamento. Primeiro porque não acredito em condenação sem provas. Segundo porque desde o golpe de 2016, que tirou do poder uma presidenta eleita pelo povo, desde o dia em que ficou provado (e gravado!) *o conluio entre os Poderes “com o Supremo, com tudo”*, não acredito mais nas nossas instituições.
*Claro que a Lava Jato é importantíssima para o país, mas o partidarismo seletivo e o gosto pelo espetáculo a diminuem*. Talvez por isso grandes juristas estrangeiros têm apontado falhas absurdas no processo que o condenou, querido presidente. Como disse o *advogado inglês Geoffrey Robertson em entrevista recente à BBC de Londres, “o Brasil tem um sistema de acusação totalmente ultrapassado*, em que *o juiz que investiga, supervisiona a investigação, é o mesmo que julga o caso – e sem um júri!”*. Outro jurista disse o mesmo num artigo no jornal The *New York Times. Enfim, como acreditar numa justiça personalista*, que num piscar de olhos pode beirar o justiçamento?
Nessas horas me lembro do que dizia Foucault: “Prender alguém, mantê-lo na prisão, privá-lo de alimentação, de aquecimento, impedi-lo de sair, de fazer amor, etc., é a manifestação de poder mais delirante que se possa imaginar. (...) A prisão é o único lugar onde o poder pode se manifestar em estado puro, em suas dimensões mais excessivas, e se justificar como poder moral.”
Sabe, querido presidente, quando *a perseguição ao senhor começou na mídia*, me lembrei do Betinho. Quase ninguém mais se lembra dele, *o sociólogo Herbert de Souza*, que criou associações de combate à fome e de pesquisa sobre a Aids nos anos 1990, quando os programas sociais do Estado eram insignificantes. Pois bem, esse cara, que devia ser coroado por seu esforço descomunal pelos pobres, *um dia acordou sendo linchado da forma mais violenta pela imprensa por ter recebido doações de bicheiros*. Os “puros” do país o atacaram de todos os lados, logo ele, “o irmão do Henfil” ex-exilado, hemofílico e soropositivo, tão magrinho, fiapo de gente, um dos poucos a combater a fome no Brasil. Mas não, para os “puros”, nada do que ele fazia pelos pobres compensava esse grande “erro”. *Como se no Brasil houvesse dinheiro realmente “limpo”*.
É, querido presidente, *são assim os “puros”*, os que não entendem a complexidade das lutas, os que *fecham os olhos para as falcatruas dos ricos mas lincham o menino de rua da esquina*, os que defendem uma ética que eles próprios não têm no dia a dia, enrolados em seus conchavos, compadrios, sonegações de impostos, corrupções de todo tipo. Das minhas andanças pelos bastidores do poder, posso dizer: os “puros”, mal acordam, já loteiam a alma.
*É claro, querido presidente, que o senhor, além dos acertos, também cometeu erros. Quem não erra?* Confesso que no início do seu governo estranhei, por exemplo, a sua aliança com a escória da política brasileira (PMDB etc.). Mas logo *entendi que sem isso nenhum, nenhum, nenhum dos seus programas que revolucionaram o Brasil seria aprovado*. Não sem esse toma-lá-dá-cá, não sem o cafezinho com o inimigo. Sonho sim com uma política pura, mas como, quando, se nunca, nunca, nunca foi assim nesse país?
*Não vou, portanto, enumerar seus erros porque seus acertos os superam* imensamente. Só a partir do seu governo entendi que a política pode muito mais do que o assistencialismo. Enquanto meus amigos e eu dávamos 50 quentinhas numa noite aos sem-teto do Rio, o senhor, com nossos votos, tirava milhões da miséria. Milhões de brasileiros.
*O senhor acreditou antes de tudo na política, não em revoluções sangrentas radicais, para mudar o Brasil*. E mudou. Não sou “lulista” nem “petista” (nunca me associei a partido algum), muito menos “petralha”. Mas, graças ao senhor, agora eu e milhões de brasileiros passamos a acreditar na política. E só por isso vale lutar.
Fico por aqui, no aguardo das eleições de outubro de 2018, quando um presidente de esquerda retomará o rumo desse Brasil desgovernado pelo conluio entre Poderes e onde, devido à corrupção, à leviandade e ao partidarismo das instituições, ideias fascistas se proliferam como bactérias.
Um grande abraço da
*Luciana Hidalgo*
Fonte: Página do Facebook
Edição: Mário Pires Santana

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