quarta-feira, 18 de abril de 2018

Nem só de pão

Horton di Maria, em sua Enciclopédia dos Tolos, ensinou-me que devemos desconfiar de três estereótipos de sujeito: operador do Direito, escritor e político.
Por *Gustavo Rosal

Carrego esta lição em um recôndito quente de meu corpo - com o afago que cabe ao fim do intestino grosso. Possivelmente despertará grau qualquer de curiosidade a minha afirmação. Tradicionalmente as conotações da língua que nos é mãe buscam" os corações como baús de tesouro. Ora, o papel, a caneta e a prerrogativa do espaço no jornal são meus, não do Camões. Ponho meus tesouros onde me forem convenientes, ademais, é tudo abstração. 
Dentre os três sujeitos citados, o escritor fora alvo de injustiça. Assevero: clemência. Não mente simplesmente este que vos escreve, ou melhor, o poeta e o ficcionista. É que a tais o ofício tem por predileção a mentira. Assim como os baús que guardo no intestino, minhas palavras são abstrações; é mais caro que assim seja. Tenho de valorizar-me, naturalmente.
Tendo os políticos seus palanques e a prolixidade retórica e os advogados seus anéis, mentem também por ofício, porém na consciência de um pragmatismo de menores nuances, com objetivo de materialidade. Por conclusão, tomo-nos como os mentirosos menos pragmáticos dentre os que o são, visto o viés de abstrações permitido. 
Um sábio passado assegurou que "nem só de pão viverá o homem". Eis um entendedor. De mentiras também viverão nossos três nobres, posto que o pão é ganho sob o julgo das inverdades, nestes casos - daí meu adendo. Por mais que as inverdades sirvam de meio para o sustento, este, quando
conquistado, é tão palpável quanto fosse fruto da verdade. Não há pão ético, há fermento, massa de trigo, diria o capitão Wolf Larsen de Jack London. 
Não que concorde de todo com as vírgulas que ora escrevo, mas a perspectiva é válida.
Quando se faz Literatura, a moral torna-se mais abstrata que as abstrações em que se insere - posto que nada deriva à utilidade; contudo, há que se mentir com classe, finesse. Não mente simplesmente o escritor (nem o político e nem o advogado). Caso assim, não se saberia amar a Literatura e a Política, não se ganhariam causas judiciais milionárias; restaria o desvalor. A paixão puritana é uma caatinga faminta e sem fantasia.
Há que se mentir bonito.
Desconheço lupanares que não versem a arte dos fingimentos, por exemplo (os bem sucedidos). Ovídio ergue-se da história com um semblante de contentamento quando o legislador anêmico repõe sua gravata, na satisfação, e levanta-se de uma das kings luxuosas das casas de prazer. Assim come seu pão a boa meretriz - se ficção, tatuaria Ouroboros às costas desta, um digno à imagem; mas são questões profundas, deixo aqui a superfície e minha economia de texto.
Ainda ontem passeava nos labirintos da biblioteca de Borges quando deparei-me defronte a uma prateleira de tom diferenciado. Não me foi sabido o motivo da tonalidade distinta, não havia a quem perguntar - e seria inoportuno. Folheei ao acaso um compêndio; tradução para o português. Era autor de nome impronunciável para minha dicção latina - desfamiliarizada com longas sequências consonantais. Creio que escandinavo, islandês, coisa que assemelhe. Editora Mancha Coxa, sediada em Florianópolis na Francisco Tolentino (sobrenome engraçado o desse tipo). Deduzi que exemplar artesanal pela tiragem opulenta em capa bordada. Uma graça de se manusear. Havia uma dedicatória ilegível na contracapa, pareceu-me rasura, o único aspecto desagradável aos olhos.
E página 182, segundo parágrafo, o aforismo salafrário: "teje dito: nem só de pão viverá o escritor". 
É noite de primeiro de abril, não atento a datas, mas, por acaso, o resto atenta e deu-me este proveito mote para escrita: Dia da Mentira. Não que seja pretexto para enciclopédias e vulgares aforismos inventados. Mas cá estão. E que posso fazer se sou futuro operador do Direito, um espírito dado a diplomacias e inegavelmente inquilino de uma biblioteca do tamanho do gênio argentino? Vale-me este pitoresco manifesto da mentira - julgo que vale.
*O jovem, Rosal é poeta, escritor, acadêmico de direito pela UESPI - Parnaíba.
Edição: Mário Pires Santana

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