domingo, 29 de abril de 2018

Vampiros da morte

Por Laicrogos Negromonte

Ele deixara para trás as cinzas de um casamento fracassado. Filhos que se foram como as plumas desprendidas de águias nos cumes das montanhas. O tempo, revolto, embriagava a mente daquele homem-criança. Lentos passos, porém de olhar ávido para metamorfosear a vida. Desejava ser uma Fênix. Mas era preciso coragem para desvencilhar-se das teias da solidão. Voltou às origens. Queria mergulhar, outra vez, no ardor de uma paixão inesquecível, quem sabe perdida nos labirintos da velha cidade onde iniciara os seus estudos. Sentou-se no banquinho de madeira. Começou a observar as senhoras que caminhavam em direção à Igreja para a missa dominical. Tomou um susto ao ver uma madona, sozinha, corpinho delgado, que apesar da idade ainda guardava traços de beleza. Aproximava-se docemente. A dois passos do mesmo banquinho onde conversaram pela primeira vez, sentiu o cheiro antigo de perfume Chanel. Sorriso tímido, voz embargada: 
- Estela?! 
- Sim. 
Ficou surpresa com o tom de voz que lhe era familiar. 
- Mário? Eu não acredito! 
O mundo acordou. O céu se abriu. Desceram os anjos com suas trombetas a anunciar o fim da morte com o renascer da vida. Vida a dois. De mãos dadas, passaram pela frondosa figueira onde os passarinhos se aninhavam. A luz do entardecer tocava em seus cabelos prateados. Soprava uma brisa agradável. Na Santa Eucaristia o padre enalteceu o dia de Santa Teresinha do Menino Jesus. A imagem estava rodeada de flores. Após a missa, foram jantar. 
Longa espera. Incrível coincidência. Conspiração das forças do universo para que duas criaturas se reencontrassem, depois de tanto tempo, num clima de paz. Paz entre nuvens que acumulam águas puras e fecundas. Desde então, cultivam perfumes e lustram estrelas enamoradas de luar difuso. Grande amor, mas um pouco solitário. Estela era solteira, sem pai nem mãe, mantinha relação esparsa e distante com a única irmã residente no exterior. Mário rompeu os laços familiares do passado enterrando-os para sempre. 
- Só tenho você, Marinho, paixão de toda minha vida. 
- Digo o mesmo, Telinha. Vamos viver o presente nesta confortável casa, fazer o bem aos que nos cercam e pedir a Deus vida longa com saúde e muitas felicidades. 
Além da empregada doméstica, na casa trabalhavam um jardineiro, dois vigias que se revezavam e mais dois prestadores de serviços temporários: a lavadeira e engomadeira e o rapaz que cuidava da piscina. Tais pessoas compunham um ambiente saudável na residência do casal. Reinavam a alegria e a concórdia entre todos, patrões e empregados. Todavia o tempo passou e o tempo não perdoa como dizia, em versos, Padre Antônio Tomás: “Eis que surge, a velhice, de repente / Desfazendo ilusões, matando enganos”. 
Mário sofreu um AVC. Caminhava com muita dificuldade. Seu raciocínio tornou-se lento. No ano seguinte, Estela caiu, quebrou o fêmur. Passou a usar uma cadeira de rodas. A cada ano que passava o quadro de saúde do casal se tornava mais delicado. A chave do cofre, presa no cós da calça, vez por outra era perdida, largada ente as roupas sujas. Os colares de ouro, renovados a cada tarde, após o banho da patroa vaidosa, desprendiam-se, caiam na cama por baixo dos lençóis ou entre a cabeceira e o colchão. Era um cadê isso, cadê aquilo constante. Enquanto a debilidade física e mental dos dois se agravava, malícias brotavam nos espíritos perversos de alguns empregados. 
Mário morreu nas primeiras horas daquela manhã. Estela o acompanhou nas últimas horas da noite. Os corpos foram velados na própria residência do casal. Somente um filho de Mário se fez presente ao préstito fúnebre. Ninguém da família de Estela apareceu. 
Logo no dia seguinte, o filho esquecido reuniu todos os serviçais para fazer um balanço dos ônus e bônus. O cofre estava vazio, as caixas de joias também. A casa - antes tão rica de utensílios, vestimentas e artigos de decoração - se encontrava desfalcada de quase tudo. 
Vampiros da morte. 
Edição: Mário Pires Santana

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