quarta-feira, 30 de maio de 2018

Abestalhado

Por Laicrogos Negromonte

Pijaminha amassado, úmido de urina matinal, Alikum saiu do quarto, andando bamboleante direto para o quintal onde estavam as galinhas. 
Acocorou-se, meteu o dedo indicador na bosta fresca ao pé da calçada. Dona Ená observou da cozinha aquela arrumação no momento em que coava o café. 
- Curumim danado, isso aí é merda! 
- Mamãe, a galinha fez cocô aqui! 
Desde tenra idade, Alikum se envolvia com a natureza: encostava-se, por horas a fio, às vacas que remastigavam os alimentos, deitadas sob as sombras do mangueiral; coçava os peitos das porcas até roncarem; descobria ovos de capotes escondidos no meio do matagal; falava com os papagaios, cantava com os passarinhos; brincava com os cachorros; maravilhava-se com as nuvens, com as estrelas e com o luar do sertão. Tal agudeza de espírito sempre o acompanhou. 
Na fase conclusiva da vida, beirando os setenta anos, Alikum permanecia com aquela ingenuidade, com a alegria das crianças, com o encantamento dos inocentes. 
Certo dia, caminhando, meio distraído, entre as palmeiras da praça da cidade manduladina, viu uma menina nos braços da mãe. Cabelo cacheado, partido ao
meio, preso por dois graciosos laços vermelhos com bolinhas brancas. Moreninha, sapeca, morria de rir com as moganguices de Alikum que as seguia com muito cuidado. Beijava a palma da mão e soprava na direção da capetinha, jogava o chapéu para o alto, revirava os olhos apalpando o nariz, abrindo a boca, pondo a língua para fora e fazia outras palhaçadas mais, até que o caminho se bipartiu, restando um adeus alegre e espontâneo. A mãe estava tão cansada que nada percebeu, mas a senhora fidalga que vinha no sentido contrário, renuente, de olhar soslaio, afrontou o velho “moleque”: 
- Moleque, não se dá ao respeito?! 
Alikum vivia assim, lépido e fagueiro.. 
Ele tinha importantes amigos, entre eles, um viajante contumaz. Conhecia os quatros cantos do mundo e mandava fotos extraordinárias, epopeicas, bizarras. Diante de tais maravilhas, Alikum se transportava, não para esses lugares exóticos, mas para um mundo bem próximo de si ou de sua alma sonhadora. Um mundo demasiado singelo. 
Na madrugada, o canto do rouxinol, a faceirice das rolinhas, as travessuras dos bem-te-vis ou a tristeza dos sabiás. Quando o Sol despontava dourando as nuvens preguiçosas, Alikum subia rapidamente para o terraço de sua casa, quase sem fôlego de tanta emoção, - punha-se a registrar os stratus, os cirrus e os cumulus, cada uma dessas nuvens dotadas de sublime beleza. A câmera se movimentava lentamente mirando o mangue, de um verde denso inigualável, as dunas brancas açoitadas pela usina eólica da Pedra do Sal e o rei Sol se agigantando com o passar do tempo. Era tudo majestático na majestade da natureza. Editou e postou, com todo carinho, aquela obra prima de Deus. A resposta veio muda do Alaska onde se encontrava o nobre amigo. 
Abestalhado. 
Edição: Mário Pires Santana

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