sexta-feira, 11 de maio de 2018

Apoiar Ciro é mais arriscado do que praticar roleta russa

POR *BEPE DAMASCO
Duas preliminares importantes, antes de entrar no mérito do artigo: 1) Fui e sou cada dia mais contrário a Lula ter se entregado aos carrascos de Curitiba, em vez de se exilar; 2) Sou pessimista em relação à possibilidade de Lula conseguir emplacar sua candidatura na justiça eleitoral, em pleno estado de exceção, mas quem deve decidir o caminho a seguir, no tempo certo, é Lula, direto do seu martírio nas masmorras da Lava Jato.
O açodamento de alguns quadros do campo da esquerda em forçar, sobre pau e pedra, uma guinada em direção à candidatura de Ciro Gomes é lastreada por uma penca de argumentos respeitáveis, na medida em que partem de militantes e dirigentes que querem o melhor para o povo brasileiro, mas frágeis, seja porque se baseiam em premissas falsas ou porque caem na armadilha da simplificação diante de um imbróglio marcado pela complexidade.
Uma das principais alegações dos que preconizam o apoio a Ciro tem caráter pragmático: sem Lula no páreo, o candidato do PDT seria a alternativa natural dos progressistas por possuir maior densidade eleitoral, depois de ter disputado duas eleições presidenciais e ocupado os cargos eletivos mais importantes em seu estado, o Ceará, onde foi prefeito de Fortaleza e governador. Só que
esse argumento é falso. Senão vejamos. Com Lula nas pesquisas, Ciro patina entre 5% e 6% das intenções de voto. É do tamanho de Alckmin. Não custa recordar também suas performances em eleições anteriores para presidente. Em 1998, ficou em terceiro lugar, com 11% dos votos válidos. Mesmo percentual obtido em 2002, quando amargou a quarta colocação, atrás inclusive de Anthony Garotinho. Ou seja, Ciro nunca foi bom de voto.
Após as consequências políticas trágicas da sórdida traição de Temer à Dilma, o zigue-zague partidário de Ciro deve ser visto pelo menos com desconfiança. Trocando de partido como quem troca de camisa, Ciro, ao sabor de seus interesses imediatos, já integrou sete partidos diferentes, a começar pela Arena, agremiação que deu sustentação à ditadura nos anos de chumbo.
Outra tese que não se sustenta é a que procura incluir Ciro nas fileiras da militância de esquerda, o que nem ele próprio reivindica. Não podemos confundir sua contundência e inegável fluência verbal com alinhamento à esquerda. Ciro parece se situar em uma espécie de centro radicalizado. Mas, a rigor, quem seria capaz de decifrar e detalhar o ideário político-econômico de Ciro? Seu movimento pendular e errático suscita qualquer tipo de prognóstico acerca de um hipotético governo chefiado por ele, inclusive o de entregar a conservadores, golpistas e neoliberais os cargos-chave.
É fato que Ciro se posicionou contra o golpe, mas aproveitou cada defesa que fez para disparar críticas pela direita aos governos de Lula e Dilma. Ciro jamais foi capaz de manifestar solidariedade genuína a Lula pela caçada judicial-midiática sofrida, optando pela insinuação contumaz de que o maior líder popular do país em todos os tempos colhe o que plantou.
No seu esforço para se tornar palatável à Casa Grande, enfileirou uma série de declarações desrespeitosas ao calvário vivido por Lula desde sua prisão. O tom e o conteúdo dos seus ataques ao PT, aliás, nada ficam a dever aos proferidos pelos luminares da direita nativa.
Em relação ao programa de governo de Ciro, é possível para tentar visualizá-lo através de duas frestas: as falas públicas do candidato ou a entrevista concedida recentemente pelo economista Mauro Benevides Filho, herdeiro de uma das oligarquias políticas cearenses e tido e havido como principal conselheiro econômico do presidenciável.
E aí, como considerar que Ciro tem um programa de esquerda se no centro da política econômica defendida por Benevides está um ajuste fiscal rigoroso, com forte apelo às privatizações, justamente a menina dos olhos do mercado financeiro que dá as cartas no capitalismo ultraneoliberal dos dias que correm?
Falastrão, Ciro, com seu estilo "coronel", está longe de possuir os atributos para a construção das pontes necessárias entre todas as forças democráticas. Tudo que o Brasil não precisa hoje é de uma aventura política de consequências imprevisíveis. Roleta russa é pouco perto do salto no escuro que significa o apoio a Ciro Gomes.
*Jornalista, editor do Blog do Bepe.
Fonte: Brasil 247
Edição: Mário Pires Santana

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