terça-feira, 15 de maio de 2018

PARNAÍBA – TERESINA: UM CASO DE VIDA E AMOR –

DEPOIMENTO – RENATO BACELLAR (jornalista e advogado)
O caminho natural do jovem parnaibano ao concluir o curso ginasial era seguir para Fortaleza, Capital mais próxima, ou para Recife, considerada a metrópole do nordeste, ou ainda, numa escala gradativa da condição financeira da família, para Salvador, Belo-Horizonte e muito raramente para o Rio de Janeiro. São Luís e Teresina eram exceções porque tinham pouco a oferecer em termos de segmento de ensino superior. No meu caso, final da década de 1960, após concluir os dois primeiros anos do chamado curso científico (uma espécie de preparatório obrigatório para ingressar no ensino superior), procurei continuar meus estudos em Fortaleza, onde, na Capital alencarina, já se encontravam meus dois outros irmãos: Benjamim e Fernando Antônio. 
Foi curta a minha permanência na Capital do Ceará. Meu pai mandou-me “telegrama-carta” “recomendando que, o mais breve possível, tomasse o ônibus da “Expresso de Luxo” e seguisse para Teresina. Nessa, haveria de procurar o Dr. Salmon Noronha Lustosa que, por décadas, foi Juiz em Parnaíba e se tornou, por merecimento e antiguidade, Desembargador do Tribunal de Justiça do Piauí. 
A razão da transferência estava em que, tanto eu quanto Raimundo Corrêa
Marques, havíamos sido colegas mais próximos do Júlio Augusto, filho caçula do casal Dr. Salmon/professora Maria José (Zezé), o qual, por infortúnio, depois de padecer vários meses vítima de leucemia, veio a óbito, prematuramente. Para o Dr. Salmon, queria ele, em gesto de amizade, garantir a mim e ao Raimundo Marques, uma colocação empregatícia em repartição pública. 
Em Teresina, cidade extremamente inóspita, eu e Raimundo fomos morar na Casa do Estudante Pobre do Piauí (era este, exatamente, o nome do prédio residencial, depois retirado o nome “pobre”, para evitar preconceito social), localizado na Rua Rui Barbosa, centro, praticamente colado à penitenciária (depois demolida para, ali, surgir o Ginásio Esportivo Governador Dirceu Arcoverde) e ao Estádio Municipal Lindolfo Monteiro. 
A Casa do Estudante foi construída para abrigar 80 jovens do sexo masculino, mas lá moravam mais de 150 mentalidades totalmente heterogêneas, maioria vinda do interior do Piauí (do Sul, principalmente) e do Maranhão. Por sorte, não ficamos (eu e o Raimundo) no chamado “coletivo” (um salão enorme que reunia mais de trinta) e, sim, em “apartamento” que, conquanto reservado para quatro, nele, moravam doze. Era um inferno, mas, fazer o que? 
O prefeito, na ocasião, era o médico Hugo Bastos, ligado à UDN do ex-governador Pedro Freitas, sogro de Petrônio Portela, adversário político do parnaibano Chagas Rodrigues, ex-governador deste Estado no final da década de 1950. 
Claro que, nessa época, existia uma rivalidade entre Parnaíba e Teresina. Os do litoral piauiense subestimavam os teresinenses na afirmativa de que, estes, habitavam “terra do interior”, atrasada, sob todos os aspectos de civilização, no tempo e no espaço. Parnaíba, além do mais, altaneiramente cognominava-se “cidade invicta” porque, além de pioneira na implantação de meios estruturantes de sólido desenvolvimento econômico, representava, para o Piauí, para o Nordeste e para grande parte do mundo, exemplo de tenacidade inquebrável na superação de dificuldades, as mais diversificadas, resultantes de reflexos de conflitos bélicos entre nações. 
Teresina, para o restante do Brasil, era vista como cidade insuportavelmente quente, habitat preferido de muriçocas, mercê, sobretudo, da falta de saneamento básico. As edificações, salvo raras exceções, a exemplo do Palácio de Karnak, Palácio Episcopal, Seminário da Arquidiocese, Colégio das Irmãs, Colégio São Francisco de Sales (Diocesano), 25º BC/Exército, 2º BEC/Exército, também de templos católicos e de outros tantos, eram de adôbe (tijolo maciço com argamassa de barro e areia encontrada, em abundância, no bairro Poty Velho, zona suburbana norte, confluência dos rios parnaíba e poty onde a cidade nasceu por inspiração do Conselheiro Saraiva). 
Teresina, apesar de quente (temperatura que, a exemplo do Rio de Janeiro em épocas isoladas no decorrer do ano chega a 42 graus centígrados) sempre foi considerada uma cidade sem surtos epidêmicos, ou seja, favorável, por seu clima e grande vegetação – daí o nome “cidade verde” que lhe foi emprestado pelo poeta maranhense Coelho Neto – recanto por excelência para morar. 
Morei em Teresina durante 38 anos. Nela fiz meu curso superior na área de Direito. Exerci, desde quando cheguei, atividade de repórter para jornal falado (Rádio Difusora, do poderoso grupo de imprensa de Assis Chateaubriand) ao tempo em atuava como revisor e redator de “flashs” (pequenas notícias) para o Jornal do Piauí, de propriedade do jornalista José Vieira Chaves (o “Zeca Belarmino”) e ainda corria (os deslocamentos eram feitos a pé, à mingua de qualquer outro transporte, particular ou coletivo) para ministrar aulas da disciplina português gramatical e literário para alunos do ensino médio (ginásio) do Colégio São Francisco de Assis (Capuchinhos), localizado por detrás da Igreja São Benedito, início da Avenida Frei Serafim em direção à região suburbana do Jóquei Clube. 
Teresina deu-me de tudo que, modestamente, idealizei: ensino superior, atividade profissional no âmbito radiofônico e impresso, atividade como professor de ensino médio e universitário, atividade no âmbito da administração pública municipal, nesta, chegando a exercer, interinamente, a elevada função de Prefeito (administração do titular, professor Raimundo Wall Ferraz), além de tantas outras, quando, então, no final de 2004, retornei a esta terra natal – Parnaíba, berço genealógico da minha família. 
Foi em Teresina onde, fruto de meu casamento com a prima (sobrinha do meu pai Raul Furtado Bacellar) Maria Cândida Couto Bacellar, nasceram os filhos: Raul, graduado em Direito, residindo em Fortaleza; Renata, graduada em Farmácia, residindo em Brasília e Roberta, graduada em Direito, atuando no Distrito Federal. 
Vi Teresina prosperar nas mãos do Coronel da reserva Jofre do Rêgo Castelo Branco, idealizador do I Plano de Desenvolvimento Local Integrado da cidade – PDLI; Joel da Silva Ribeiro (o major Joel Ribeiro, engenheiro do Exército) que “rasgou” a cidade criando vias rodoviárias perimetrais (o chamado “grande cinturão urbano”); de Raimundo Wall Ferraz, considerado o maior líder administrativo da cidade, que se voltou para a construção das artérias vicinais perpendiculares às perimetrais e de muitas outras importantes obras nas áreas educacional, cultural, desportiva e, notadamente, na área de saúde. 
Se Chagas Rodrigues foi o grande arquiteto de obras estruturantes para o desenvolvimento e o progresso do Piauí (década de 1950), este outro eminente parnaibano, Alberto Tavares Silva foi, em todos os tempos da histórica política-administrativa deste Estado, o maior propulsor de grandes feitos que colocaram o Piauí em destaque no cenário brasileiro, em seus mais diferentes matizes, a contar do início da década de 1970. 
Hoje pouco ou nada se ouve falar sobre rivalidade entre Parnaíba e Teresina e vice-versa. A colônia parnaibana residente na Capital é de uma magnitude incalculável. Teresina é considerada uma das mais avançadas no campos médico-hospitalar do nordeste e, quiçá, do Brasil (sobretudo na área da cancerologia). Parnaíba, por sua vez, cidade de clima agradável, alimentação saudável e acessível no preço, é hoje, sem dúvida, cidade universitária por excelência, não apenas do Piauí, mas do Brasil. 
Sem dúvida que Parnaíba – Teresina, é um caso de vida e de amor para tantos – como eu – bem conhecemos as duas cidades e as comunidades natas ou adotadas que lhe são abrigadas. 
Há muito o que contar. Outras oportunidades virão! 
Parnaíba – 12/5/2018 – RB 
(publicado no jornal “O BEMBÉM” edição nº 125, maio de 2018 – Parnaíba/PI)
Foto: Reprodução/Editor 
Edição: Mário Pires Santana

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