domingo, 20 de maio de 2018

Venezuela, uma disputa de repercussões continentais

Nicolás Maduro tenta a reeleição em um país consumido por uma profunda crise econômica e social.
Por *Gilberto Maringoni
Maduro em campanha ao lado de Diego Maradona/Divulgação
Pode-se criticar Nicolás Maduro em vários aspectos. Tem um jeito canastrão nas aparições públicas, busca imitar o tom de voz e o estilo de Hugo Chávez discursar, é por vezes grosseiro no palavreado e sofre de um déficit considerável de carisma, quando comparado ao seu antecessor.
Mas se há algo que Maduro não tem é ilusões com a direita. A cartada mais ousada que faz nessa direção se dá neste domingo 20, quando tenta a reeleição em um país no qual o PIB deve se contrair em 15% neste ano, segundo o FMI.
Seu oponente é Henri Falcón, aliado de Chávez até 2010, período em que governava o estado de Lara. As pesquisas são desencontradas, num país em que até os números do Banco Central precisam ser analisados com cautela.
Diante da profundidade da crise que gera uma inflação de quase 14.000% ao ano, Maduro realizou uma ousada operação em julho do ano passado, buscando sair das cordas. Por mais inepto que seja seu governo, não são ações administrativas e opções políticas internas as causadoras da crise. Com uma economia dependente dos preços internacionais do petróleo há um século – o óleo responde por 97,5% da pauta de exportações -, a queda histórica dos preços no início de 2016 literalmente desarranjou um Estado cuja carga tributária alcança 13% do PIB (contra 34% do Brasil, 44% da França e 47% da Alemanha). Apesar de os preços estarem em uma curva ascendente desde o início de 2017, os rombos deixados na economia estão longe de resolvidos. 
Baixo poder de fogo 
O poder de fogo da administração bolivariana frente às oscilações internacionais tende a zero. Maduro não é Chávez, repetem aliados e inimigos. Mas Maduro tampouco é um dirigente rudimentar, como a mídia do mainstream busca difundir. Sem cacife para influenciar as condições externas, ele buscou deslocar os enfrentamentos para a seara interna, onde sua influência é consideravelmente maior.
Ao invés de travar uma batalha no terreno econômico, valeu-se das forças declinantes que possuía e colocou a questão do poder político no centro do palco, por meio da convocação de uma assembleia Constituinte, em julho do ano passado.
Com o boicote da oposição, elegeu a totalidade de seus integrantes e partiu para uma disputa institucional com a Assembleia Nacional, o Legislativo local. Com manobras e asperezas, efetivou o novo poder e recobrou momentaneamente a ofensiva. Somente ali se sentiu seguro para disputar novamente o Executivo nacional. 
Sem republicanismo ingênuo 
O presidente venezuelano nunca foi visto a exaltar o caráter “republicano” das disputas em seu país nem a reclamar de presumível falta de “ética” de seus opositores. Esse grandalhão de 1,90 metro tem em mente, antes de tudo, um objetivo: não perder o poder para uma oposição que já recorreu a golpe, sabotagens, ações armadas, bombardeios aéreos, chantagens midiáticas, articulações com a Casa Branca, locautes e especulação com gêneros de primeira necessidade para a população.
Trump não descarta um golpe (Foto: Casa Branca)
Não se pode tampouco afirmar que o governo venezuelano é depositário de todas as virtudes das boas maneiras e da democracia. Vale-se de manobras e articulações flexíveis para manter seus objetivos. Vê à sua volta mudanças radicais que contam com séria influência de Washington. Não foi mera bravata a afirmação de Donald Trump, em agosto último, ao externar que “temos muitas opções para a Venezuela, incluindo uma possível opção militar se for necessário”. 
Sem moeda 
A Venezuela na prática não tem mais moeda nacional. Em março, o governo empreendeu uma minirreforma monetária, cortando três zeros de sua moeda, batizando-a de bolívar soberano. A expectativa, para além do efeito psicológico, é que os preços do barril atinjam o patamar julgado confortável para analistas locais, acima de 100 dólares. Somente assim, aquela região do Caribe sairia da pior recessão das últimas três décadas e a administração nacional teria fôlego maior. Por enquanto, é uma aposta.
A América Latina vive uma situação qualitativamente distinta de uma década atrás, quando seus principais países – Brasil, Argentina, Chile, Paraguai, Equador, Uruguai e Bolívia – eram dirigidos por coligações de centro-esquerda.
Atravessada por três golpes institucionais – Brasil, Honduras e Paraguai – e por uma radicalidade neoliberal que provoca, em quase todos, quedas abruptas na qualidade de vida das populações, o continente enfrenta um avanço conservador de largas proporções.
Assim, há três eleições decisivas nos próximos meses para se definir se tal avanço veio para ficar ou se partidos de origem popular podem esboçar uma reação mais sólida. Além da Venezuela, as urnas se pronunciarão no México (junho) e Brasil (setembro). Por isso os resultados a ser anunciados em Caracas a partir da noite de domingo são decisivos para muito além das terras de Bolívar e Chávez. 
*Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC e autor de A Venezuela que se inventa – Poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez (Perseu Abramo).
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana

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