quinta-feira, 14 de junho de 2018

Pra frente Brasil: ame-o ou deixe-o

POR *KEIJI KANASHIRO
Estamos já no início da Copa do Mundo da Rússia e o Brasil que já foi chamado do “País do Futebol” parece que não está nem ai. Segundo pesquisas recentes, 75% da população não estão interessadas na Copa e com certeza isso tem a ver com a crise política, econômica, social e institucional que o país atravessa a partir do golpe de 2016. O que me preocupa é que o futebol, por ser uma paixão nacional, um tema que divide as pessoas em épocas normais, soma de forma incondicional quando o assunto é Copa do Mundo. Por isso os governos costumam utilizar essa paixão, como forma de manipulação para desviar a atenção da população para consolidar seus projetos políticos, via de regra contra os interesses da maioria da população. 
No início de 1970 o governo Médici começa uma grande campanha ufanista pedindo ao país união em favor da seleção para a Copa do México. “Noventa milhões em ação Pra Frente Brasil, salve a seleção”, era uma espécie de hino que tocava nas rádios 24 horas por dia. Outro “hino” “era o Brasil Ame-o ou Deixe-o” que em campanha nacional, tentava manipular a opinião pública, e impor uma ideia de que todos aqueles que faziam resistência à ditadura militar eram subversivos e deveriam deixar o país. Só não informavam que muitos já estavam presos e sendo torturados nos porões da ditadura e muitos
assassinados. 
Na época eu estava no último ano do curso de administração de empresas na ESAN, uma faculdade com a maioria de alunos de direita. Só pra vocês terem uma ideia, a comissão de formatura havia convidado para paraninfo ninguém menos que o General Médici. Essa comissão, que tinha membros ligados ao CCC – Comando de Caça aos Comunistas, tinha ido à Brasília convidar o ditador e voltaram com a promessa que ele viria à formatura. Como eu já havia decidido abandonar o curso não dei muita importância a esse absurdo. Soube depois, que no dia da formatura, o Médici estava no Maracanã assistindo há um jogo do Fluminense. 
Eu, como a grande parte da população, na juventude era apaixonado por futebol. Meus amigos, a maioria corintianos, muitos palmeirenses e alguns poucos são-paulinos como eu, vivíamos discutindo e brigando por causa dos nossos times. Brigando nas derrotas e tirando sarro nas vitórias. No entanto todas essas divergências acabavam quando se tratava da seleção. No dia em que a seleção foi campeã do mundo na Copa da Suécia em 1958, eu e meus amigos estávamos na Rua Brigadeiro Jordão no Ipiranga em São Paulo, e ouvimos o jogo e a vitória do Brasil nos nossos radinhos e comemoramos soltando fogos.
Voltando a 1970, apesar de sermos minoria na faculdade, nós tínhamos o diretório desde 1968 e havíamos montado o GEXTU – Grupo Experimental de Teatro Universitário, que reunia várias pessoas de esquerda. E foi com eles, que assisti no PORÃO que era o nosso teatro, pela primeira vez pela televisão, o Brasil Tricampeão no México. Foi a última vez que eu realmente torci pela seleção. Os fatos que aconteceram em seguida me mostraram o quanto à população foi era manipulada através do futebol. Perdi o tesão de assistir e torcer pela seleção brasileira, e hoje só assisto quando posso os jogos do glorioso São Paulo Futebol Clube, que por sinal anda mal das pernas.
No dia 16 de julho de 1970, o presidente Médici, assina o decreto-lei 1106 que cria o PIN – Programa de Integração Nacional, um programa de cunho geopolítico, estabelecia como lemas "integrar para não entregar" e "terra sem homens para homens sem terras". O Projeto previa a construção da Rodovia Transamazônica, que iria assentar em suas margens cerca de 100 mil famílias, grande parte mão de obra nordestina vitimada pelas secas de 1969 e 1970. 
Ao anunciar o PIN o então ministro do planejamento Delfin Neto, ao responder a uma pergunta de uma jornalista sobre qual seria a vantagem dos empresários brasileiros com o projeto, ele respondeu ironicamente “a vantagem de ser brasileiro”. O que me deixou perplexo foi quando perguntaram se o PIN seria lançado se o Brasil não tivesse ganhado a Copa. Ele simplesmente não respondeu e encerrou a entrevista coletiva. 
Só consegui entender esse fato, alguns anos depois em 1975 ou 1975 quando tive a oportunidade de conhecer o Pedro Luiz, que junto com Edson Leite, Fiori Gigliotti e Geraldo José de Almeida eram os grandes narradores de futebol na época do rádio. Apesar da seleção de 1970 ser a grande favorita, um time fantástico que em minha opinião só perdia para a de 1958, houve por parte do governo brasileiro algumas ações extra campo, para garantir que o Brasil fosse campeão. O Pedro conta que em um determinado momento durante a Copa, ele ficou sabendo que membros de uma delegação de um país concorrente, havia marcado um encontro com um juiz que iria apitar um jogo, cujo resultado teria influência na classificação do Brasil. Sem saber os detalhes deste suposto encontro, ele se dirigiu a concentração da seleção e pediu para falar com o chefe da delegação Paulo Machado de Carvalho. Só conseguiu falar com um intermediário, que momentos depois deu um retorno, dizendo pra ele não se preocupar que tudo estava sobre controle. O Pedro disse ainda que havia na concentração uma espécie de telefone vermelho, que estava conectado diretamente com o gabinete da presidência da república e nessa ocasião o próprio Médici teria sido consultado. Não sei o que aconteceu, mas intuo que mínimo, foram autorizados a cobrirem a oferta.
Mas a esse processo começou antes. João Saldanha foi quem na verdade preparou essa seleção, e que nas eliminatórias classificou o Brasil vencendo todos os jogos. O problema para a ditadura é que Saldanha era comunista e com certeza a utilização da imagem da Taça Jules Rimet nas mãos de Médici, jamais aconteceria com ele no comando da seleção. O sucesso dele assustava o regime que pretendia usar do futebol como cortina de fumaça aos crimes da ditadura o ufanismo do "Brasil, ame-o ou deixe-o" e para a implantação do projeto do PIN. Depois de uma foi forte campanha para desestabilizá-lo, Saldanha foi demitido, substituído por Zagalo e mesmo assim reagiu e saiu atirando, bem ao seu estilo. “Diziam que Médici queria convocar Dadá, atacante do Atlético-MG, Nem eu escalo ministério e nem presidente escala time!".
Quando começaram as manifestações em 2013, paralelamente surgiu uma campanha contra a Copa de 2014, chegando ao cúmulo daquele fato vergonhoso na abertura da Copa, quando milhares de pessoas, movido pelo ódio e manipuladas pela grande mídia, ofende a Presidenta Legítima Dilma Roussef, com transmissão ao vivo e em cores para os quatro cantos do mundo. O Futebol que algumas décadas era a grande paixão nacional, em muitos países e em especial no Brasil, passou a ser uma grande indústria e centro de esquemas de corrupção em escala global. É só lembrar que a maioria dos dirigentes da FIFA e da CBF está presa, e todos com ligações comprovadas com a TV Globo que aqui no Brasil detém o monopólio das transmissões da Copa do Mundo e dos campeonatos de futebol em geral. 
Como o Brasil e 1970, a Alemanha em 2014 era uma das favoritas para vencer a Copa. No entanto, será que o governo da Alemanha, a exemplo do que aconteceu no México, não teve ações extra campo, para garantir o campeonato, devido à situação econômica e política complicada que o país vivia em 2014? Agora Alemanha 7 X Brasil 1, é muito pior que Argentina 6 X Peru 0 em 1978.
Em 1976, golpe militar na Argentina destituiu do poder Isabelita Perón. Inconformados com a repressão militar, o povo reagiu e o país viveu um período bastante delicado com o desaparecimento de milhares de pessoas. Em 1978 a Argentina sediaria pela segunda vez na América do Sul uma Copa do Mundo, depois do Uruguai em 1930. Algumas seleções classificadas ameaçavam boicotar o Mundial da Argentina, que vivia a ditadura com prisões, tortura e assassinatos de opositores do governo. Mesmo assim, João Havelange, presidente eleito da FIFA em 1974, resiste à pressão e confirma a Copa do Mundo de 1978 na Argentina. O boicote das seleções não passou de ameaça. Mas dois craques se negaram a disputar a Copa do Mundo da Argentina: o alemão Paul Breitner e o holandês Johan Cruyff que alegaram questões morais para não participar do torneio. Num certo momento da competição, a seleção da Argentina precisaria ganhar do Peru por três gols de diferença pra se classificar e seguir adiante. A Argentina ganha de seis a zero e houve muitas críticas ao goleiro da seleção peruana de ter facilitado o jogo, e coincidência ou não o goleiro Quiroga era argentino, naturalizado peruano. No final, a Argentina vence a Holanda, sem seu principal jogador Johan Cruyff, e se torna campeão do mundo de 1978, e a ditadura no país segue por mais alguns anos até 1983.
A Copa do Mundo na Rússia começa em uma semana e eu vou continuar não torcendo pela seleção. Primeiro porque não tenho clareza se uma eventual vitória do Brasil, neste momento complicado da vida nacional será um fator positivo ou não para o país. Segundo porque eu sou da opinião de que quando a Democracia está em jogo, quem não se manifestar explicitamente a favor estará deliberadamente contra. Penso também que toda figura pública, não só os políticos, como atletas, músicos, intelectuais etc., tem suas responsabilidades proporcionais ás suas popularidades em determinados momentos da história. Essa seleção, que tem condições de ganhar a Copa, um técnico competente, um elenco de qualidade, mas formada por jogadores que jogam no exterior, que ganham salários milionários e não estão nem aí para o que acontece no país. Infelizmente Afonsinho, Reinaldo e Sócrates são exceções neste universo de alienados do futebol no Brasil. Neste momento só resta ter inveja dos hermanos que tem seus ídolos como Maradona e Messi, sempre do lado certo da história.

*Fundador do PT, foi Secretário Executivo do Ministério dos Transportes no governo Lula, foi Secretário de Logística e Transportes do governo do Mato Grosso do Sul e assessor técnico da Liderança do PT na Câmara dos Deputados.

Fonte: Brasil 247
Edição: Mário Pires Santana

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